quinta-feira, 29 de julho de 2010

da sua indesejada sobrevivência

eu tive tanto medo de soltar você naquele abismo, eu tive tanto receio de que a sua sobrevivência dependesse das minhas mãos segurando as suas, eu tive muita insegurança em seguir para um lado que era contrário ao seu. mas eu fui, como quem conquista a independência eu segui pra uma distância que eu temi deixar de ser física. quando eu decidi olhar pra trás, buscando pedaços seus nos trilhos, conclui que caminhava sozinha. aquela não era a sua partida, era a minha. você que sempre partiu enquanto eu me fazia espera agora não me deu tempo de partir se quer pela primeira vez. você ficou na mesma estação de antes. eu tinha que partir, será que você não entende? eu só queria pegar o mesmo trem que você. eu esperava que você não deixasse a porta se fechar. mas acontece que eu parti e você ficou. eu soltei os seus dedos e você caiu de uma altura maior que a gente. eu senti ferida por ferida e não me preocupei em cicatrizar você. não houve morte, o que eu sinceramente desejava. eu com a minha partida, você com a sua queda, e eu outra vez esticando as mãos até você. não era pra você continuar respirando dentro de mim, era pra você perder o ar. mas você tem tantas vidas que eu já até desisti de contar...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

dia meu

desde que nasci todo dia 27 de julho meu pai dizia ser o meu dia. aceitei a condição e guardei o dia inteiro em uma caixinha que só se abria à meia-noite do dia 26. dias antes desse dia, que era meu, sempre houvera um esfriar na barriga como quem sabia que estava por vir um dia marcado no calendário. me colocava a preparar desejos que coubessem entre os ponteiros do relógio e entre os muros deste mundo. nunca couberam todos. nunca houvera um só dia que fosse suficiente. foi então que percebi o nó. é que um dia apenas jamais poderia dar conta das vontades de uma vida inteira. era preciso marcar todos os dias do calendário, sem exceção, todos os dias deveriam ser meus, seus, nossos. assim foi. eu só não quis desfazer do dia que meu pai escolhera, que era pra ele não ficar sobrecarregado com os meus outros tantos nascimentos...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

e agora passarinho?

tem passarinho que cabe na palma das minhas mãos
tem passarinho que não gosta nem de encostar no chão
passarinho tem um problema
carrega nas asas um dilema
passarinho não sabe se o fizeram pra voar
ou se as asas eram só um pretexto pra ele sempre poder voltar...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

seguindo...

bastava ter movimento pra ele pegar carona. pouco importava se eram rodas, remos, olhos ou asas. queria poder mudar as paisagens sem precisar pintar as telas outra vez. cada manhã era o despertar de uma nova janela, que o mantinha até o abrir das cortinas. o trilho dele não tinha estação, era permanente o caminhar. saber-se andante era suficiente pra que ele mantivesse os passos. não se tratava de distância, mas de percorrer com a pele as esquinas que se formavam. o mundo de alguma forma não estava pronto, nem nunca estivera, nem nunca estará. era dele, todo dele, o seu caminhar.

terça-feira, 20 de julho de 2010

beleza é mera invenção

evitava olhar para toda aquela beleza escancarada. era uma falta de respeito que tivesse se acumulado uma dose tão alta naquele rosto ao ponto de cegar a menina, pois é preciso que se diga: qualquer tipo de beleza é mera invenção. mas a dele não era, ao menos ela jurava que não era. e não sendo ilusão, a menina não conseguia descansar o par de olhos que lhe pertenciam naquela beleza que se destacava a sua frente. envergonhava-se. ela tinha certeza que nos pequenos encontros, quando os olhos ganhavam autonomia, ela se desmanchava em espanto. não se acostumava a ver beleza tão gigante ao alcance das próprias retinas. por isso evitava, era a única forma de conter o desejo de tocar feito pintura aquele rosto de pincéis.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

fazendo nada

queria um dia pra gente ficar fazendo nada. sem muito texto, sem muita conversa. a gente podia deitar nas nuvens e olhar pra qualquer coisa que pousasse no céu. pode ser hoje? pode ser agora?

não se nasce filha, torna-se

 mãe, parece óbvio, mas só recentemente te descobri filha, avó, esposa, mulher, empresária...  por um prazo longo demais, enredei-me em uma ...