dia após dia a caixa. pesada. embalada. secreta. dia após dia o menino. três anos. curioso. criança. o pai saía de casa às 8h e cuidadosamente carregava a caixa. cada dia uma, cada dia um quadrado, um retângulo, qualquer forma com pontas. não se ouvia barulho das coisas lá de dentro. o pai segurava cada caixa com dedos de silêncio, como se andasse na ponta dos pés, pra não acordar ninguém. o menino levantava da cama com a falta de som, no mesmo horário, no mesmo encontro de ponteiros. abria uma pequena fresta pra caber o seu grande par de olhos. arregalava os dois e seguia o pai até a quando já não dava para o ver, quando a porta fechava a imagem restando apenas a imaginação.
o menino de três anos, filho do pai, passava as manhãs criando histórias de possibilidades sobre o conteúdo das tantas caixas. ele não ousava perguntar o que era. a resposta podia ser muito menor do que as suas invenções. perguntas poderiam ser um risco pra meninos como ele. o menino pensava que o pai era homem importante e que sempre que o sol aparecia ele saía para entregar segredos, que só o pai e outro alguém poderiam saber. mistérios. de acordo com o tamanho e a cor das caixas o menino moldava o conteúdo. ele gostava de não ter certeza, de ter a liberdade de enxergar dentro da caixa aquilo que quisesse.
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