terça-feira, 9 de outubro de 2018

carta pra você

sempre acreditei no poder das palavras, logo, no poder das cartas. acho bonito letras grafadas no papel, e mais bonito ainda a ideia um tanto quanto romântica de que penso em você enquanto escrevo. acabei de ver o filme "Enrolados" e uma cena lembrou você. foi quando ele disse a ela que o sonho dele tinha se transformado nela. confesso que chorei, e que costumo me inundar com declarações de amor. mas ao mesmo tempo me veio você, na minha varanda, desabafando seu medo de guardar os remos ao tropeçar em um romance. eu sei que te prometi com palavras ditas e escritas na parede, porém, as cravadas em cartas têm maior valor, e por isso, refaço aqui nosso pacto velejante. moço bonito, te conheci já dentro de um sonho, e desde aquela noite às margens do Maleta eu pisei no barco seu. quero te dizer que sonho é coisa séria, sagrada, coisa imensa, e que eu não costumo roubar os amanhãs. pelo contrário: invisto na costura do futuro. sei também que palavras (ditas, escritas ou pensadas) não valem mais que os fatos, e pensando nisso te convido a me deixar tecer o sonho seu enquanto ainda estivermos em solo firme. te convido a construirmos uma despedida consciente, que pode, quem sabe, ser apenas física, ou nem isso. te convido a sonhar o sonho seu comigo, na certeza da concretização. te peço: venha sem medo, eu não sou feita de âncoras. te espero, sem rascunho e com saudade.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

para Catarina

Catarina, não reparava tanto em bebês, até você nascer. depois de você, observei que os pequenos trazem um infinito interior antes do mundo surgir com uma fórmula não tão mágica. em seus 10 meses, você sorri pra qualquer par de olhos que te atravesse, apesar do meu confesso egoísmo em te querer como melhor amiga. te vendo assim, meu peito enche de esperança, ao notar sua habilidade em estar em tantas es(quinas) de pensamentos, sempre com muito coração. guiada pelos olhos curiosos de quem vê e sente pela primeira vez, você tudo escuta, se faz radar. seus pés fazem força pra voar toda vez que um pássaro contorna o nosso céu. agora que sabe apontar, começo a conhecer seus caminhos, e eu prometo, te deixar ser sua própria guia. você vibra com tudo o que respira, e tem sido o maior dos privilégios te acompanhar em suas descobertas. e são tantas, que você não quer perder tempo dormindo, né? antes de você, a saudade não doía tanto, pode isso? será que temos gavetas pelo corpo guardando amor pelos anos afora? amor que eu nem imaginava existir, e quando te vi, já era

um tempo pra chamar de meu

corre, que lá vem o trem. o ônibus acabou de passar, seu amor também. a água já ferveu. o despertador ainda toca. está na hora do próximo evento. pressa, menina. o prazo do relatório se esgotou. o sinal já vai abrir, e você perdeu os olhos nas folhas se despedindo das árvores. amanhã é dia de prova. por ali, já anoitece. o desejo é pra agora. parece que vai chover. tá na hora de dormir-acordar-passear-comer. corre. não se atrase pra viver. {não. eu não vou correr. por aqui, pausa. há anos que meu relógio parou}

eis a diferença entre um e todos os outros

tem sonho que é de asa, e tem sonho que é de remo. tem gente que é de porto, e tem gente que o mundo é pequeno. tem corpo que encontra abrigo entre paredes, e tem corpo que mora no fundo do mar. tem gente que segue em frente, e tem gente que se deixa guiar. tem desejos de casa própria, e tem desejos de velejar. ✨✨

ele no mundo

descobridor de sete mares, desbravador de oceanos atlânticos, encantador de tartarugas, aspirante à peixe espada, escalador de céus sem nuvens, decifrador de códigos fonte, realizador de sonhos, morador sem endereço, domador de contra baixos, compositor de uma história velejante, mestre em dar nós em fios de cabelo, admirador da lua, semeador de paixões, catador de esperanças, amante de gatos, proprietário dos melhores abraços, e engavetador do meu coração.

quando eu te deixei ir, e você ficou

teus olhos, ancorados no barco de amanhã, não me perguntam nada. já os meus pares de retina, filosoficamente, persistem numa interrogação que não ouso formular. tu não terias as respostas. estão todas cuidadosamente guardadas no silêncio do meu corpo, nas tantas possibilidades de céus de um dia após o outro, e no vapor que se respira quente do café que é das manhãs. e assim teu sossego encontrou o meu, num desencontro físico, na calada das inquietações. respirar salva! - por mim e para mim

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

tu que é de asa, eu que sou de raiz: pousa teu voo no tronco meu?

domingo, 9 de setembro de 2018

um bom lugar pra ser perder

escrevo pra me salvar da próxima curva, quando um perde o outro de vista, quando um segue, e o outro fica. (é importante, apesar do estado de nuvens, eu deixar os pés no chão sobre nossa despedida. eu olho pra você e sinto que ao mundo pertences, e que, talvez, um cep não caiba teu corpo de mar). escrevo pra te guardar na minha gaveta, e poder re(ler) você sempre que a maresia acontecer. escrevo pra prolongar essas horas que duram dias, pra ver se acerto o relógio de amanhã. é que desde ontem vendo você trajado de sua pele rosê fiquei com o coração exposto pro mundo, e agora, pra mim. o ritmo seu, que é também ritmo meu. um encontro temporal, o nosso. com tempo de olhar tanto seus olhos até descobrir todas as cores de suas retinas, de abraçar todos os seus endereços, de acordar e respirar seu cheiro. dos seus esquecimentos, espero o dia que esquecerás você por aqui, nesse nosso universo paralelo. que te percas por aqui, em mim, sem nunca mais encontrar o caminho de volta. acho que é seguro se perder assim. também preciso negritar que quando criança, era comum brincarmos de sonhos e de futuro. depois disso, não mais ouvi falar de quem tivesse sonhos do tamanho da infância, com exceção de você, que quer o oceano, o infinito, uma vida a beira-mar. que tipo de homem pode haver por trás de um sonho velejante? (...)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

eu te peço: fica um pouco mais.

ontem eu esqueci que sempre sinto medo nas ruas enluaradas e desertas de movimentos. fechei os olhos e me encolhi entre seus braços e abraços. desviei qualquer sinal de ponteiros. me desprotegi do mundo e me apoiei em teu querer. respirei seu cheiro espalhado pela pele e misturado nas margens de sua roupa. enchi e esvaziei o peito algumas vezes, eu sabia exatamente o que se passava. pela segunda vez, desde então. não encontrei as palavras certas pra traduzir meu corpo trêmulo. eu também quis evitar declarar meu universo pra você assim tão de repente. achei que você poderia desaparecer logo no próximo amanhecer. guardei as palavras, mas bem sei que meus olhos exalavam letras garrafais. eu me fiz prova de mim mesma. me denunciei. me condenei a quem sabe aos amanhãs dos passos seus. quem sabe... eu não sei. seus lábios tocaram os meus por questão de segundos que se esticaram em horas, em tantas horas, que ainda não me desfiz de você. eu disse que não tinha segredos, mas me despedi de você com um deles, a beira de suas conchas. se há pra nós um filme de nome medianeiras, se há tempos que não acho outro alguém, você há de ser meu "wally" do mundo real. me queira também, e bem.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

vim de lá, e vou pra lá

vim de lá, de um mundo bem particular. debruçava-me em olhos, e desmanchava-me em versos. enxergava poesia no sertão, e só percebia a seca depois de atravessar a estação. todo ano era a mesma cena, e nada de eu aprender a abandonar a vontade do mar. a miragem me tirava do conforto, e os passos nunca que me levavam até um porto. duvidei então da existência de um aconchego, e acreditei que a falta de ar era impulso pro lado de lá.

um balanço de idas e vindas

fio a fio foram se encaracolando no vento que se inventava a cada ida e vinda do balançar da menina. os cabelos envolvidos na trança se atreviam a sair do contorno e espiar o sopro; e quando voltavam, não mais retornavam. os braços da menina seguravam as cordas nas laterais do balanço e suas pernas guiavam a corrente de ar que ali se descobria. os pés se protegiam do chão, e o corpo ganhava impulso a cada vez que se aproximava do céu. interessante era notar que os picos se revelavam nos caminhos de ida e de volta, e que a chegada era o desfrute da partida. tudo dependia então da forma como se iniciava o impulso, do tanto que fôlego que se depositava na largada.

tu que não sei porque deixo ficar

tu que vens sem acessórios, sem polidez, sem lapidação. vem sem censura, sem jeito, sem costura. tu que chegastes sem abraço, sem carinho, sem aconchego. tu que vais sem despedida, sem amanhecer, sem café da manhã. tu que ainda assim fica, sem futuro, sem pedido, sem as chaves. tu que segues nos amanhãs sem me reservar um endereço. tu que não sei porque deixo voltar. a tua distância se revela abismo e eu me pus a construir pontes que me levem até o canto onde você se esconde. sim, há um esconderijo. as vezes te descubro nos olhos, outras nas interrogações. te capturo nos descuidos, nas intenções, nas minhas tantas interpretações. te leio o dia inteiro, e assim meus mil devaneios. uso lupas de fazer enxergar teu coração. te amplio, te exagero, te faço oceano. tu que me travastes na dúvida, na incerteza, na insegurança. tu que me faz engolir seco cada pergunta que ressoa a cada segundo. então parei. parei pra deixar você passar, mas principalmente pra te fazer tropeçar (em mim). estou me colocando em seu caminho, me incluindo em seus dias, to me desenhando em sua paisagem. estou aos poucos ficando.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

sobre uma adolescente que ainda consegue sonhar...

o pai e a mãe foram assassinados na sua frente aos 5 anos, a tia a acolheu e a colocou na rua depois de um mês, os irmãos foram adotados, disse que quem tem boca vai a Roma, e que foi com essa frase que aprendeu a viver, aos 10 foi para um abrigo, onde não suportou estar por realçar o abandono, aos 12 voltou às ruas, aos 16 começou a fazer programas para se sustentar, o crime nunca foi uma opção, ela sabia que os pais a olhavam lá de cima, fez oficina de pintura, quando desenhava mesas longas com um banquete em família, tem o sonho de ser chefe de cozinha, e inventar novos pratos, pois afirma ser ótima na culinária, de tudo diz ter virado as costas para os problemas, e ter compreendido que os pais não voltariam. sentiu vontade de chorar, segurou, disse que a maioria dos seres humanos demonstram fraqueza com lágrimas, eu falei que ela podia chorar, e que por isso eras muito forte, ela então se ergueu em lágrimas.

terça-feira, 17 de abril de 2018

importa

importa a fase da lua: admito, prefiro quando és cheia. importa se a flor desabrocha e a pétala sai pra dançar. importa se você vai pra "esquerda" ou pra "direita". importa se alguém me recebe com um abraço feito pra durar. importa se ele me inclui no amanhecer. a trilha sonora? muito me importa. conseguir ver o por do sol importa. amar Catarina, muito mais. importa se o texto consegue sair do papel, e se a leitura e a escrita alcançam a vida prática. importa se os sonhos têm força de realidade, e se a gente tem coragem de sonhar. importa saber se você encara a curva. importa ver meu pai misturado nas plantas, e ver como ele compõe a paisagem. importa se meu trabalho se faz fonte de vida ou somente de renda. importa se há amor nas relações. importa desacelerar e respirar profundamente. importa ouvir minha mãe reclamar, eu aprendi, esse é jeito dela amar.

sábado, 17 de março de 2018

os outros não são como você, eles não são você, e isso ainda dói profundamente em mim...