terra sem chão
se queres, então, atravessar o rio, é essencial que gostes de navegar...
terça-feira, 13 de março de 2012
colar inacabado
um olhar quando entra no mundo do outro abre imediatamente a página do livro. ele tinha cabelos que corriam até os ombros amarrados despretenciosamente, os fios estavam molhados pela chuva, com ele uma mochila já desgastada, a pele um pouco marcada pela passagem do tempo, e uma roupa que denunciava o estilo de vida hippie. as retinas escondidas por detrás dos óculos não impediram o foco na menina que sentava logo ao lado, ela o olhou, ele se percebeu observado, ele a olhou, enquanto o ônibus seguia o seu trajeto os olhos percorriam o mesmo caminho, até que o ponto de chegada avisou o momento da partida, ele então deixou pra ela uma parte de um colar que começara a fazer e a convidou pra terminá-lo no dia seguinte, convite aceito, claro!
domingo, 11 de março de 2012
você não tinha o direito
você não tinha o direito de quebrar as minhas lentes, há pouco tempo as coisas lá fora estavam nítidas, e você não tinha o direito de torná-las embaçadas, o mundo, eu sei, continua o mesmo, mas recuperar as lentes que antes deixavam os dias coloridos não será tarefa fácil, você não tinha o direito de rasgar palavras como se fossem pedaços de papel abandonados no lixo, você não tinha o direito, não tinha mesmo.
quinta-feira, 8 de março de 2012
viagem só de ida
pegou seu barquinho de papel e se pôs a remar sob águas montanhosas, remava sem aquele pretexto da chegada, depois de um tempo a areia se transformara em um pontinho amarelo por trás do caminho percorrido, caminho sem volta, não há nada mesmo que volte.
naquele tempo...
naquele tempo tínhamos corpo e idade de adolescentes, mas não o sabíamos, desde as primeiras linhas achamos que já poderíamos determinar as últimas páginas, qualquer curva resultava em pontes remendadas pela não aceitação de qualquer que fosse a outra história, éramos autores afinal, e não personagens, acontece que depois de alguns anos, até o calendário marcar o dia de hoje, aquilo que parecia trágico me arranca um sorriso ainda acanhado, a tragédia é mesmo muito próxima da comédia, você se transformou então em uma lembrança guardada em imagens congeladas no fundo da gaveta, não porque são intocáveis, mas porque depois de tanto tempo elas deixaram de sair do papel e me alcançar nas esquinas do meu quarto, você, enfim, se transformou em um livro sem páginas em branco.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
veredicto final: inocente
não havia culpados, compreender a inocência de todos ao meu redor me tornava parte da pintura da imagem a ser pendurada entre bordas de um passado recente, não se tratava de erros, mas de curvas feitas por vezes em alta velocidade incompátiveis com o nosso ritmo de cada dia, a culpa não podia ser simplesmente de quem atirou a bala, apesar do alvo e direção, erámos todos parte desta guerra contra nós mesmos, acontece que o medo, a incerteza do cais, a vontade de proteção criaram as prisões, inclusive aquelas com grades presas aos olhos, segregaram o homem dito culpado do disparo, acabaram por inventar assim uma arma empunhada à própria pele, classificaram os errantes sem se dar conta do ciclo, puniram então alguns em nome de todos feito manchete de jornal, não resolveram a guerra, a chave do portão não prende os desejos.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
eu criei você
acho-o bonito em suas mínimas sutilezas, nos detalhes quase imperceptíveis, nas palavras que você evita dizer, nos gestos que você faz por detrás da porta, acho bonito os olhos pedintes de amor, mais bonito ainda os braços que me contornam inteira, o tom da pele colorindo seu corpo, acho-o tão bonito que acabo por concluir que você só pode ser invenção minha.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
concluindo...
espelhos são gaiolas
liberdade é a da pele
espelhos não traduzem verdades
a mentira está nos olhos de cada um
espelhos mentem
e as histórias acontecem pra muito além de tantas imagens distorcidas
liberdade é a da pele
espelhos não traduzem verdades
a mentira está nos olhos de cada um
espelhos mentem
e as histórias acontecem pra muito além de tantas imagens distorcidas
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
lembrança intocável
a sua voz falando meu nome pelo telefone me arrancou da estrada e me levou para um pouco mais de dois anos atrás, não se trata de esquecimento, o que eu nunca consegui, mas voltar naquele tempo me trouxe a sensação de móveis fora do lugar de origem, eu estou andando um pouco torto, quem sabe, mas olhar pra trás bagunça os instantes de linha reta, não sei se a gente supera traumas assim, mas aprendi a acreditar que a gente aprende a lidar com a lembrança, e que quando ela vem contornada de cheiro e imagem nós podemos atravessar o rio até deixá-la desfocada, depois de tantos dias seguidos uns dos outros é triste concluir que a dor continua guardada dentro de mim, e que se ninguém a percebe, incluindo eu mesma, é porque eu a escondi junto às coisas intocáveis, mexer ali causa muita desordem, caos, os meus olhos continuam com seu par de óculos, mas as lentes são diferentes, acho que alguém pintou o mundo outra vez, ou será que eu não consigo enxergar as cores?
domingo, 29 de janeiro de 2012
círculo fechado
dentro do mundo da gente liberdade é um privilégio, há quem se diga livre, talvez não saiba bem de quê, dentro do mundo da gente tem muita tradição, é difícil contestar valores consolidados pelos dias sem interrogações, dentro do mundo da gente sobra expectativa, por vezes nos transformam em marionetes do caminho que não se percorreu, dentro do mundo da gente tem muito julgamento daquilo que se pinta como verdade, e se no escurecer das tardes surgir alguém que duvide destas certezas logo se exclui o outro pelo receio de tamanha semelhança, dentro do mundo da gente os homens se reunem em grupos e dizem se relacionar com pessoas, mas os grupos são fechados para outras pessoas, que tipo de homem será este afinal que escolhe pessoas nos caminhos que ele determina pra si?, dentro do mundo da gente tem pouco espaço para outros mundos.
sábado, 28 de janeiro de 2012
inversão de valores
os homens daqui acreditam que a falta de tempo é sinônimo de tempo preenchido, acreditam ainda que o stress no trabalho é a mesma coisa que comprometimento, já chegaram a me dizer que quem muito trabalha quer crescer na vida, ah esses homens parecem tão confusos...
travessia
voltei com a foto dele pro meu jardim, peguei de volta o final da história ainda sem fim, o chegar em um lugar sem saída pode parecer o momento de recuar, mas nem sempre é assim, pode-se atrever em voltar pelo caminho desconhecido, pela corda mais bamba, e que contraditoriamente traz mais firmeza da chegada, chegada que não existe nos caminhos nossos, pois já diria Guimarães Rosa, a gente é travessia.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
o outro que não sou eu
imenso desafio este de abrir páginas em branco para deixar o outro escrever a própria história, difícil conseguir abandonar o caderno já preenchido, desconfortável deixar pra trás a forma encontrada pelo corpo, complicado descobrir que as verdades antes incontestáveis podem vazar facilmente pela peneira, maravilhoso compreender que a realidade não é visível pela folha de revista, tampouco pela tela da tv, a realidade não cabe se quer nos olhos, a realidade não existe, o real está contido no tom dos óculos de cada um, a realidade se constrói, e da mesma forma que pode ser assim como eu vejo, também pode ser assim como você vê.
haja coração
era só ele me dar a mão para as ruas se tornarem palco, em menos de um minuto já alcançávamos toda a altura possível em um mundo tão terreno como este, a pele começava a desaguar na outra, os olhos abandonavam a realidade e fechavam imediatamente as cortinas, bastava que o hoje se prolongasse por todos os amanhãs.

desenho: Mel Perete

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