sábado, 3 de fevereiro de 2018

minha hora chegou

eu que já fui golfinho, descobri que todo tanto de água não é capaz de me afogar. lembrei que na adolescência eu tinha vontade de mudar o mundo, e que agora, aos 30 e poucos anos, meu desejo se ampliou: quero mudar o meu mundo. pode parecer que o mundo inteiro é maior que o mundo da gente. mas não. o meu mundo já é por demais infinito. nesse tempo de agora também me fiz sem escolha: preciso escolher. eu que nasci envolvida num mosaico, nasci despedaçada, com trechos de várias das minhas histórias sem costura. eu que me deixei ser escolhida pelos homens da minha vida pra tentar me colar no enredo de outro alguém, pra ver se assim eu criava uma unidade, pra ver se assim eu seguia uma linha reta. deu certo. eu entrei na história deles. fui personagem da história deles. deu certo. mas não era minha essa história. o que era meu, era a vontade de fazer ser minha alguma história. acho então que a minha hora chegou. depois de tornar evidente minha fragmentação, depois de conseguir trazer pro plano da consciência a minha fenda, acho que minha hora chegou. veremos!

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ainda tem você aqui

enquanto você falava eu me perdia em encantamento. tem histórias suas já contadas por mais de uma vez sem registro em mim, a não ser a memória de suas expressões: sua mão dizendo rimas, seus olhos marejados de amor, seus dedos desfiando os caracóis, sua respiração denunciando o corpo, seu tom de voz compondo melodias. suas histórias não lineares desorganizaram o fio da minha. acho que amarrei a ponta da minha linha na sua e embolei o meu enredo no seu. dancei no seu palco, chorei a sua dor, escrevi nosso futuro. eu soube desde o primeiro encontro do aperto bem no centro do peito, eu até te disse isso, e você falou que era coisa minha. eu senti sufocar desde a primeira despedida, já me dizendo que não era pra durar. vi você, oceano, e desabafei sobre a dor da infinitude, de se ver a imensidão e perder o barco de vista. não consegui entrar nesse mar só com as minhas margens. então, encarei a falta, segui com você no descontrole, esqueci dos amanhãs, e apesar das reticências no caminho, o ponto final rasgou minhas defesas. na maior parte do tempo eu agradeço por respirar sem você, e conseguir me desatar dessa trama sem desfecho, e principalmente, sem mim. mas você ainda me ronda, ainda está parado na esquina da padaria fumando o primeiro cigarro da manhã, ainda está sentado na quina da minha cama com as costas costuradas em pele, ainda guardo a moldura da sua pose na parede vestido de cifras, você ainda observa a vida acontecendo da varanda de frente pro mundo, ainda aceita meu convite pra se molhar na chuva de cada dia, você ainda espera o café sem açúcar logo que acorda, ainda dá voltas pelo bairro descobrindo as plantas e as ruas logo ao lado, ainda coloca em palavras seu coração enquanto eu vejo o seu drama rodar por horas e horas, ainda me abraça logo que abre os olhos, ainda tem seu cheiro no travesseiro, ainda te vejo nas madrugadas brindando os últimos copos de embriaguez, ainda tentas me chamar pra ver filmes com sua boca colada na minha, ainda tem seu corpo no meu, ainda... até quando?

sábado, 23 de dezembro de 2017

o corpo

a memória falha, o corpo não. o corpo é a memória. a história passa, o corpo fica. o corpo é a história. a ferida não cicatriza, o corpo segue. o corpo é a ferida. o corpo de tudo sabe, o corpo que tudo sente. uma dor será sempre dor anos depois. uma dor corporificada, em um corpo que reage. uma mente que não compreende, que não alcança aquilo que já se foi no tempo, mas se perpetuou no corpo. é no corpo que tudo vem primeiro. antes o corpo, depois o restante.

domingo, 17 de dezembro de 2017

homens estampados

pano guardado entre botões com paisagens desenhadas no peito. camisa estampada. homens estampados. o lápis deixando sua marca na cor lisa e imprimindo os olhos no corpo. um desfile de formas desformes pintando a cena com tons vibrantes, até ontem esquecidos na gaveta. joga-se a tinta sem compromisso com a linha, autorizando a liberdade da imagem. faz um nó, repete-se a figura, cruza o traçado, faz um retrato, e fixa a pele numa moldura estampada.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

você em mim

todo fio agora era de caracol. aliás, o mundo se revelou encaracolado. acho que você se prolongou nos outros, despedaçou suas partes e distribuiu inteiros em terceiros. o mundo parece você. tem seu rastro na minha sombra, e sua respiração no meu corpo. veja bem: minha e meu, ou seja, invasão.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A gente devia ter sempre o coração inteiro

Debaixo da árvore pontilhando a chuva eu escutava as cifras da sua respiração. Você me contava dos seus pedaços despedaçados e da sua ponte ainda imaginária pra fazer chegar lá no fundo do peito e remendar os estilhaços congelados em dor. Seus olhos escorriam gotas de mar enquanto as ondas reclamavam a falta dos remos seus. Parecia que seu redemoinho te enganava e o fôlego era um preparo pra suportar a asa quebrada bem no canto que faz voar. Mas é assim, passarinho sem céu não tira os olhos do azul, e mesmo sem asa, faz morada nas nuvens. E aí, nesse movimento, ainda sem endereço, resolvi respirar você, e batizar como nossa sua narrativa de amor.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ainda estamos no pacto?

quando você diz que vem eu começo a lhe esperar, e a culpa é minha de fazer do tempo um tempo de espera como se pra toda partida houvesse uma chegada. verdade é que seu verbo não está alinhado ao meu, e o fato de você dizer que vai, não quer dizer que vem. você vai, mas não vem. você vai, mas não chega. você vai, e é só a partida. você vai, e eu também preciso ir.

descendo da montanha

de você, o luto. desta vez foi sem registro dos 30 dias de vida. desfiz a vitrine, me tirei do cabide, andei descalço, olhei pro céu, entrei no mar, me perdi na falta do horizonte. essa vida que não foi escrita antes da gente, mas que também não nos deixa escrever a nosso modo. já não nos chegam os papéis em branco, eles aparecem rabiscados, com as pontas rasgadas na altura do peito. até que se tenta fazer alguns remendos, mas a costura não se recompõe, e o botão não estanca a ferida. a gente insiste. vê que a trilha só cabe um, mas aperta, encolhe, escorrega, levanta, machuca, marca, e fere. sabe-se do risco de morte, confunde-se, talvez seja risco de vida. morte e vida no cume da montanha, lado a lado, e perde-se a conta de quantas vezes se sobrevive e se recupera o fôlego. e agora, hora de descer, depois de se chegar tão alto, de acelerar o passo sem olhar pra trás, é hora de descer, passo a passo, sem você, eu sempre estive sem você, descer, com você, mas sem mim, sem nós.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

a menina que poderia ser um menino

a menina listrada que de vez em sempre sentia sua pequenez encolhia-se miúda entre troncos arranha-céus e guardava entre os dedos a brisa que inaugurava as manhãs. vestia-se de linhas que faziam curvas nos pés e lhes levavam para cantos de mundo ainda sem caixa postal. descansava exatamente ali, onde o mapa não existia. brincava de inventar endereços, e viajava pelo mapa-múndi sem precisar sair da varanda de frente pro céu de todas as estrelas. tricotava balões de pensamentos que revelavam cenas do lado de lá, daquela quina onde acumulava seu coração. permitia-se escorrer sem o menor esforço de reter a correnteza e logo notava-se a enchente povoando os instantes de concentração. dispersava o raciocínio diluindo-o em litros de memórias de histórias que não paravam de acontecer em um ontem insistente em repetir-se sempre por mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, e reticências.
ilustração: Patrícia Metola

domingo, 1 de outubro de 2017

o trecho mais longo de mim mesma

há tempos desliguei a televisão, e guardei na gaveta as notícias do mundo. fiz-me pequena e reduzi as fronteiras aos muros do meu lar. iluminei apenas os instantes de amor, e passei a morar onde quer que meu coração estivesse. encontrei um porto, mas todo pedaço de chão com estampa de abrigo é também passageiro. refiz meu ninho, despedi da história prometida, e comecei outra vez (pela milésima vez). parece que vivo então o que virá a ser o prelúdio do trecho mais longo de mim mesma. há muitos fragmentos que sobreviveram à peneira dos dias, e seguiram comigo apenas as partes que não se deixaram morrer com a falta de ar. restaram os pontos de maior fôlego, apenas os detalhes que me dão impulso, e por isso, não tão de repente assim, há todo um ímpeto para preservar esse teto contornado da minha mais pura essência.

domingo, 24 de setembro de 2017

estação das flores

é tempo de flores (nas árvores, em suas raízes: de onde vieram). agora os dias serão de pétalas, de saias longas dançando conforme os ventos de cada litoral (ainda que alguns deles sem o mar - pra mim tudo é continuidade das ondas). a primavera vem chegando cheia de si, sem pedir licença, intrometendo poeticamente na paisagem. e ainda bem que as estações sempre mudam!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

eis que estou flutuando

e de repente, nesse intervalo entre a calmaria e a tempestade, fiz-me ofegante, tal era o acúmulo de sonhos. ficou difícil respirar, parar pra respirar. costurei um amontoado de retalhos de anos atrás em segundos do presente instante, e não coube, como era de esperar. não coube nem o começo da estória que eu queria contar. continuei sem fôlego, e essa falta de ar era culpa da minha mania de me preservar. houve um dia que eu achei melhor evitar essa roda gigante, essa oscilação entre o vale e o pico. achei por bem ficar no plano, naquele pedaço de mundo onde não há risco de cair, tampouco de voar. destruí cada possibilidade de poço, e cortei logo os insistentes restos de asas. segui na linha imóvel do tempo, morei alguns anos numa rede de estabilidade, e guardei meu coração na gaveta. e agora abriram meu baú (com minha autorização), e eu não consigo desviar do risco permanente de minha perigosa erupção. não dá pra fugir de mim mesma, eu tô escancarada, nunca estive tão nua, despiram-me da etiqueta, roubaram-me o bom senso, e deixaram-me com a explosiva liberdade dos ventos.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

amanhecendo

e tudo isso que se constrói pra durar mais tempo que a gente, traz em si a própria rachadura, toda a solidez guarda em si uma fenda, e essas brechas, esses cantos que parecem defeitos, que vez ou outra são escondidos dos olhos (mas não do coração), eles carregam fontes de luz, são enfim a prova de nossa inevitável metamorfose, não é que algo se acabe, afinal não há um fim e um começo com tanta exatidão, você não encontra na linha infinita do tempo o dia em que algo se inicia, é um processo, uma continuidade, é certo que minha vida começou bem antes de mim mesma, e não na data do meu nascimento, meu corpo é tipo um museu de várias gerações, guardo na pele o jeito de sentir dos meus avós, e meus avós, daqueles que eram os seus, e que alívio ou ilusão isso de se pertencer, de não seguir por aí sem um endereço pra falar de amor, sorte é ter um teto pra escolher quando se molhar na chuva, nossa sina é essa, é não ter sina alguma, é não saber o que virá no amanhã, e aprender (quase que engatinhando) como achar o ritmo da respiração quando a onda te engolir, e ao engasgar, encontrar logo um jeito de transformar o sufoco em passagem pra esse novo mundo que sempre há de chegar.

domingo, 3 de setembro de 2017

deixa eu ver sua alma?

{procuro apenas uma alma pra poder descansar a minha, feito aconchego, com sinais de porto, e fendas permanentes de luz}

bússola interna

o mundo girando e a gente deitado na rede só observando o pôr do sol. como se a transição do dia pra noite fosse de tudo o mais importante. e depois, a gente segue com essa bússola que trazemos de berço, e abrimos a porta contornados de intuição pra ver o que mundo tem pra hoje (e só pra hoje). se engana quem pensa precisar de mapas ou roteiros com setas antecipando os caminhos. a alma sabe da sua direção, só precisa se conectar ao corpo, pra seguir o faro da pele.