sexta-feira, 31 de outubro de 2008

pedacinhos de gelo

aquele dia amanheceu prateado. a cobertura de pedacinhos de gelo cobriu as folhas de outono. as gotas nem conseguiram chegar ao solo e congelaram. a marca das botas no chão desenharam as idas e vindas. os corpos se cobriram de panos... deixando apenas os rostos a vista. mas nem precisava de nada mais. os olhos sempre bastam. e foi bem assim... bem debaixo de todo esse tapete branco que eu vi a gente se descongelar. culpa nossa a neve ter começado a derreter... foi calor demais! pura cutícula...

sábado, 25 de outubro de 2008

por ela...

Vesti uma roupa que adoro, me cobri de cores e flores. Perfumei o ar. Fiz assim porque você me pediu. Me disse que eu deveria cuidar mais de mim. Me falou que amor não era uma condição, mas um sentimento. Que eu não podia ficar procurando corações em qualquer pessoa, pois isto era coisa de toque e cílios. Não dava pra apontar o dedo e ir em frente. Você me disse também que eu sou bonita e que não dizia isso para me agradar, porque era mesmo verdade. Além disso, você ainda disse que sortudo seria o homem que me encontrasse. Falou de mim como se eu fosse jóia, daquelas que você usa quando quer se destacar. Olha... eu decidi acreditar em você. Simplesmente porque a sua mentira encaixou exatamente na minha falsa verdade.

imaginário mundo

Clarice, se você continuar com toda essa poesia a realidade vai passar. Vai pegar o primeiro trem e vai parar do outro lado do mundo. Você pode até colocar seu corpo pra tentar interromper, mas aí já será tão feita de fantasia que se quer poderá ser vista.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

nossa filha...

Tem horas que vejo nossos filhos descendo as escadas da nossa casa de madeira. A mais nova chegando bem devagar com cara de sapeca, com o rosto colorido de tinta. Vem dando passinhos de algodão pra que eu não a veja, mas as mães sempre ouvem os dedinhos de esconderijo. Viro e ela corre para o nosso quarto. Eu acho estranha aquela sombra que ficou no ar, uma mancha colorida. Vou atrás dela... e a encontro deitada com o rosto escondido entre as mãos que de tão pequenas não cobrem se quer as bochechas. Meu lençol antes branco agora está estampado das várias cores que ela usou pra se fazer aquarela. Por minutos menores que sessenta segundos eu relembro a cara de brava que a minha mãe fazia com as minhas travessuras mais gostosas que o bolo de cenoura da vovó. Ela parava e respirava um ar tão profundo que eu pensava que não sobraria nada pra mim. Mas eu fiz diferente... peguei todas aquelas tintas e me cobri delas. Fingi não saber dos números que me separavam da minha filha. Quis ser, como quero sempre em qualquer dia, uma criança e me lambuzar de pedaços de confetes de alegria. Vendo-me assim ela se permitiu ser mais do que acreditava que poderia... e se pintou até nas paredes do vento...

decida

se você autorizar estou indo ver você. se você disser que sim eu sairei do meu corpo pra me diluir em alma. se você ao menos me responder eu começarei agora mesmo as minhas ilusões sem fim. e se você puder ser o homem que olhei no primeiro dia... ah... eu viverei estes dias apenas de você.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

e quando me falta a realidade eu venho aqui e construo a minha fantasia...

mãos geladas

hoje está 5 graus aqui em Williamstown. lá fora as folhas dançam tanto que caem dos troncos. de tão cansadas elas perderam um pouco do colorido... e se pintaram de marrom. cobriram o chão e os meus olhos. é dessa beleza que vou criar todo o calor no inverno...

saudades de você minha irmã

nessa noite ela sonhou comigo. a gente se arrumava pra irmos à uma festa e eu pedi para usar uma blusa nova dela. como sempre ela negou. com raiva eu coloquei a minha roupa mais baranga. e assim fomos... hoje ela me contou isso e disse que jamais me deixaria sair daquele jeito. que delícia ver esses nossos pingos debaixo dos olhos fechados... vendo daqui os defeitos ficam mesmo lindos...
se eu quiser sair agora e prender você dentro de mim quem há de me impedir? nem você poderia!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

só ele mesmo...

pode vir. chegue fazendo barulho. entre pela janela pra todo mundo ver. mas quando me ver não diga nada... eu tentarei imprimir você dentro de mim...

pequena passarinha,

que se a gente precisasse explicar tudo de nada valeriam os olhos... eu amo você além de qualquer texto que um dia eu venha a escrever...

- pai, é leite naquele pote?
- sim meu filho, é leite.
- e aqui? é chocolate? - falou o filho apontando para a pele negra do menino da foto...

eu achei lindo!

domingo, 19 de outubro de 2008

um certo ser desconhecido

morde, mastiga. mas não sente o gosto. engole. come disparadamente. pensa que a comida pode ocupar os espaços e por isso come até esticar a pele. é sal puro que desce rasgando a garganta. pra ele açúcar é só de vez em quando. vem depois da sobremesa que ele nem percebe o quanto é doce. ele é denso demais pra diluir qualquer coisa. então só compra congelados, pra evitar o pensamento e os novos temperos. de manhã já acorda de mau-humor, por sempre achar que o relógio desperta antes dele dormir o suficiente. tem mania de perseguição, não pode ver alguém olhando pra ele. pra fugir disso só anda com os olhos voltados para o chão, esperando brotar algo que faça valer a pena olhar pra cima. um dia ele quer ter um banco, só pra ter o prazer de ver tanto dinheiro circulando. amigos? um dia ele se perguntou se existiam mesmo e não encontrando a resposta desisitiu de saber. ele vive pra chegar em qualquer lugar, a próxima esquina serve. quando vai ao estádio de futebol ninguém aguenta ficar perto dele. ele grita demais. grita tanto que no final do jogo precisa perguntar qual foi o placar. as meias são sempre da mesma cor da camisa. detalhe que as cores das camisas são apenas três: preta, cinza e branca. ele nasceu numa época que cores eram raras e pra guardar um pouquinho de lembrança ele pinta as roupas nos mesmos tons.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

essas folhas

as flores do outono são elas. experimente andar sob várias delas. deixe seu pé dizer o quão macia elas são... e deixe seu ouvido bem livre pra escutar cada gemido delas... agora eu entendo porquê elas se pintaram de vermelho... não era mentira quando meus professores diziam que certas cores eram quentes. lá estão elas se aquecendo para o que está por vir... capa para o inverno.
os dedos correndo pelo teclado deixam clara a ânsia em se dizer algo além das palavras. e acaba que se diz mesmo.

pelas ruas de portas pequenas e idéias grandes

a língua passeando entre os lábios, o suor na pele seca, os fios saltando dos braços, o cabelo esparramando-se ao vento, o sol esfriando a tensão... um pouco de barriga pra mostrar, uma blusa apertada desenhando curvas, o colar caindo entre os seios... e o óculos pra disfarçar a pouca vergonha dessa menina...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

tarde na praça

entre os pingos de água os traços. ele ali, sentado, desenhando a realidade num pedaço de papel. olhava várias vezes para o quadro pronto como se tentasse deixar viva aquela nova pintura. riscava, rabiscava, despenteiava seus pensamentos. ele sabia que não faria cópia nenhuma daquela imagem, mas buscava ao menos ser fiel aos seus olhos. em volta dele havia todo um contorno transparente. as sandálias foram deixadas no chão, pra dar um pouco mais de tato àquele desenho. além disso, ele estava sentado colado no som daquelas gotas eufóricas. delicadeza dele acrescentar música naquele folha.

sei que entre traços perdidos e repetidos algo se formou no papel. e foi por isso que ele foi embora... e eu também.

dia livre

- acho que vou dar uma espiada na cidade. eu tinha pensado em nem sair, mas acho que vale a pena colocar os pés na rua, né?
- isso mesmo! sinta o ar da cidade. vai conhecer, se aventurar. descubra um lugar com porta pequena e com grandes idéias...

americano em exagero

Nessas minhas andanças conheci um americano incrivelmente americano. Estávamos conversando e eu expliquei pra ele que na África ter muitos filhos é cultural, que quanto maior o número de filhos que uma mulher tiver melhor é para a imagem do homem que está com ela. Conclusão dele: como as mulheres africanas são estúpidas, vivem naquela situação e ainda querem ter mais filhos? Continuando... ele contou que o voto dele nas eleições era para o McCain, porque os EUA deveriam manter os olhos abertos em relação aos terroristas. Falou que caso o Obama ganhe os terroristas irão atacar o país e matar os americanos e que por isso a guerra era necessária. Disse ainda que achava que os pais do Obama eram separados e que ele não queria ver na presidência um homem que era a favor da separação, porque ele queria manter os bons princípios. Pode?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

maquiavélica

Desde que cheguei aos Estados Unidos para fazer o treinamento com certeza esta é a minha maior crise de pensamentos. Semana passada fomos tentar a ajuda da Igreja Católica de Philadelphia e conversamos com o padre. Ele disse que nós não poderíamos contar como o apoio dele, porque ele não concordava com as condições que a ONG nos oferecia. Falou que achava um absurdo termos que pedir comida e procurarmos casa para dormir. E que ele não queria ser cúmplice disso tudo. Ele disse que nós éramos estudantes universitários no Brasil e que não precisávamos passar por tudo isso. E finalizou dizendo que enquanto a gente fica ali nas ruas pedindo dinheiro, a ONG constrói seu império na África. Para contextualizar: o programa custa $3.900,00 (cobre os nossos 6 meses de treinamento nos EUA), temos que arrecadar nas ruas $6.000,00 por pessoa (cobre os gastos na África), a ONG recebe ajuda de grandes empresas e também conta com a ajuda do Clothes Colection (as pessoas doam roupas e a ONG as vende para arrecadar fundos). Este discurso do padre foi com uma facada dentro de mim. Estou vivendo a crise maquiavélica, quando os fins justificam os meios. Eu apenas quero chegar lá na Angola e fazer meu trabalho, não me importando com a forma que este dinheiro será usado... mas a gente não pode ser assim! Justo a gente que quer tanto mudar o mundo... Agora está tão difícil pedir contribuições nas ruas, pela crise financeira do país, mas principalmente por eu não acreditar no meu próprio discurso. Tenho vergonha de tirar o dinheiro de tantas pessoas sem saber qual o real rumo dele. Chegou num ponto que não dá mais pra fingir. Está escancarado demais. Ontem nem consegui trabalhar... enquanto meu time estava lá com o corpo entregue eu permaneci dentro do carro refletindo coisas da minha alma.

obs: É essencial que vocês saibam que tudo isso se trata apenas de suposições... e claro, suposições a serem checadas...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

entre aqueles dentes

Pra sorrir ele esticava tantos os lábios que ardia a pele. Estava sempre sorrindo, mais nas fotos que dentro do quarto. Mas insistia em sorrir. Pra mostrar altura e som. Não adiantava. Eu conseguia ver entre os dentes, aqueles tantos espaços de tristeza. Ele deveria saber que sorrisos não escondem as lágrimas.

colorindo de novo

Que delícia seria me sujar numa tinta branca, nadar entre ursinhos de pelúcia, esfregar doce de leite na cara, mergulhar entre fios de macarrão... nesse mundo só meu que crio dia-a-dia.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

cansada

Eu não acredito que a perdi! Justo ela que sempre me manteve sob as águas encostando a palma das mãos no céu. Eu a perdi... e o problema é que ela se esconde tanto que agora custo a encontrar vestígios. Nem um pé pra fora da caixa, nem um fio caído no chão, nem um sorriso atrás da janela. Pelo menos ameniza saber que o sol sempre muda de cor...

A crise americana está batendo nas nossas portas de uma forma que chega a doer. Meu time não está conseguindo arrecadar fundos para os nossos projetos na África. Os brasileiros ainda são capazes de ver as formiguinhas mesmo debaixo da chuva e continuam a doar. Mas não tem sido suficiente e eu não posso culpá-los e nem tenho coragem de pedir por mais. Em um dos restaurantes brasileiros que fui hoje a gerente me contou que com a crise eles mandaram 13 funcionários embora e tiveram uma redução de 60% nos lucros.

Além disso, sinto que estou atravessando o limite do meu corpo. Tenho acordado às 6h e chegado em casa por volta de 20h. São muitas as horas com as pernas esticadas e os pés sobre o chão. Tento buscar meu sorriso nos olhos de quem acredita em mim nas ruas deste país. Hoje um brasileiro, de Goiás, disse que eu não precisava me preocupar com a África, que eu tinha mesmo era que me preocupar comigo e esquecer do mundo. Eu tive tanto nojo que nem vontade de discutir me deu. Ele não valia uma frase minha.

Quando cheguei no estacionamento da casa que estou ficando eu não quis sair do carro. Preciso mesmo ouvir o que minha pele tem a me dizer, no silencio ainda desta noite.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

música pra mim

É tanta coisa pra dizer que haja virtualidade! Hoje finalmente eu fui para uma loja brasileira em Philadelphia (Pensylvania). Ai que vontade de colocar todos aqueles brasileiros dentro de uma caixinha e trazer pra casa em forma de música. Agora sim eu começo a recuperar a minha esperança que estava perdida entre aquelas esquinas de americanos ricos. Hoje sim as pessoas queriam saber sobre meus sonhos, meus projetos na África, eles sim olham além da janela do quarto.
neste tempo de vales e águas salgadas minha pele se encolhe num abraço a si mesma. por fora permanece intacta, mas por dentro se comprime por não encontrar espaço pra relaxar...

no vale

Sentir-se fraco é fundamental pra enxergar o mundo a partir de vales. Descer montanhas... porque o corpo fala demais e chora quando não consegue se expressar. É fácil entender de onde vêm as lágrimas. Nascem dessa nossa incapacidade de comunicação. Quando nossos olhos já não podem falar eles gritam molhando o rosto. Minha sorte é que lágrimas são feitas de água limpa e fazem lavar... este fundraising tem sido assim... molhado, regado... é como eu disse antes, a riqueza faz fechar as mãos. Estamos tentando arrecadar dinheiro em Princeton, uma cidade basicamente formada por estudantes de uma universidade particular muito conceituada. Tem pessoas muito ricas aqui, o problema é que estas pessoas limitam a riqueza ao dinheiro. Como é difícil fazê-las ouvirem, e se o fazem é pra doar um dólar. Ah... que saudade dos brasileiros...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

dor nas costas

estou na segunda parte da arrecadação de fundos para o meu projeto na África. agora me encontro em Princeton (New Jersey), pedindo dinheiro nas ruas em frente à faculdade da cidade. hoje eu precisei parar. sentei no banco, naquela sombra gelada, e chorei. chorei tanto que cheguei a pensar que fossem lágrimas acumuladas. sinto que carrego o mundo nas minhas costas e ninguém pára pra me ouvir. não sei porque, mas hoje o peso me pareceu muito maior que nos outros dias...

sábado, 4 de outubro de 2008

coisa de sangue

Depois de anos casados ela descobriu que o marido a traia. Na verdade ela já sabia... mas preferia mantê-lo dormindo do lado direito da cama, ainda que ele só dormisse. Ela queria continuar a acordar com os chutes dele a noite e perder noites de sono com o ronco. Ela achava isso até bonito. E agora... separados... é como se ele ainda estivesse em casa. Os três filhos fazem questão de lembrar dele. São cópias vivas! Os mesmos olhos caídos, o mesmo sorriso... o sangue não deixa esquecer.

longe de casa

Shamu, 19 anos, americana.
Foi lindo ver você se exibindo, mas... Só consigo pensar que aquela não era a sua casa. Faltava a varanda cheia de areia, o sal diluído na água, faltava oceano.


amanhã?

Eu perguntei: Quais são seus sonhos? Ele respondeu que não sabia. Eu tive muita dificuldade pra continuar perguntando...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

restaram apenas conchas

Talvez eu tenha errado a rima, entornando suspiros na tela. Assustei você como já assustei outros homens. Eu não conheço este tempo humano. Não sei esperar a onda chegar, eu saio correndo desesperada atrás dela. O problema é que quando chego lá percebo que onda é água e não dá pra carregar. Pelo menos saio com as mãos lotadas de conchas, pra concretizar as minhas fantasias de menina. Inclusive mandei uma delas pra você. É... foi bom acreditar que era verdade a nossa poesia. Você sabe, seu cheiro tem o dom de me hipnotizar...

irracional

E quando as pessoas falam de mim e eu gosto? Eu não sei se sigo sendo aquelas palavras que tanto gostei ou se continuo a nadar nesse mutante rio. A minha dúvida é: será que as pessoas realmente me enxergam ou elas apenas vêem aquilo que eu mostro? Eu preciso saber se há beleza dentro dos embrulhos. Quero a inconsciência. Preciso mesmo disso.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

justo eu que finjo tanto

Estou descobrindo que ninguém de fato é. São muitas as tentativas em ser. Vários os modelos das molduras com quadros cheios de razão. Se a gente apenas fosse seria tão simples acreditar. Mas as pessoas têm vontades demais. Os desejos atropelam a essência. Morre cada característica singular, tão própria de cada um. Não dá! Pra pintar é preciso fechar os olhos. Deixar as cores desenharem por si só. Mas lá vai ele... abre um cantinho do olho e observa se alguém percebeu... e em pouco tempo já está, mais uma vez, de olhos abertos. Lá vão eles... copiando exemplos midiáticos, fingindo serem capa de revista, imitando a beleza. Estranho... porque eles mantêm os olhos abertos, mas não enxergam. Até quando se olham no espelho o reflexo é produzido. É maquiagem em excesso. Sinto falta de pele, de sujeira, de cor. Justo eu que finjo tanto. Que fico aqui escolhendo as melhores palavras pra falar de mim... faço coisas para os outros pensarem o que eu quero. É muita porta pra abrir. Muita água pra beber.