sexta-feira, 29 de abril de 2011

o fim é o retorno ao começo

por sorte o menino nascera na melhor das fases: na infância. por um bom período ele ainda poderia se dar ao luxo de ser criança, mas não tinha escapatória. quando este menino alcançasse a fronteira ele já não poderia ser o que fora, ainda que soubesse da tão obvia regressão: criança, adolescente, jovem, adulto, idoso, criança outra vez. o mundo era redondo. o homem também. era a vontade de nascer, era o que ficava no final de tudo, depois de tantas peneiras a seleção da melhor fase acontecia. era um ciclo que terminava no começo, pois pense bem se o outono não é a vontade da planta em ser primavera mais uma vez?

pintura anônima

depois dela, não haveria outra. coubera perfeitamente naquela lacuna entre a loucura e a janela lateral. cobria-se de elegância por detrás da fumaça do cigarro, que mais tarde se confundira com a neblina trazida pelas montanhas. escondia os olhos, afinal não podia se entregar assim tão facilmente, então guardava sentidos atrás das lentes escuras dos óculos. os olhos eu diria que muitas vezes nem olhavam tal era a liberdade do esconderijo. por descuido ou cansaço das cores que as lentes a impediam de ver ela deixou aparecer os olhos, e em torno dos olhos deixou gritar uma sombra escura própria de olhos que não dormem. entregou-se, facilmente. os olhos dela pouco descansavam, eis a razão para conter os reflexos da madrugada. os cabelos escorriam em torno do seu rosto pintado de branco aveludado, e nas pontas, nos instantes próximos do fim, os fios se rebelavam entre curvas de direções opostas. nos pés um allstar que velejava por marés de ondas ininterruptas, ela parecia desaguar a todo momento. e nesta noite que eu a pintei com minhas retinas ela me contou um segredo, cochichou que pele era corpo a espera de outro, e passou a lua inteira debaixo dos carinhos de alguém...

terça-feira, 26 de abril de 2011

quase lá

eu percebo cada gesto seu, e sei que desde que nos encontramos os móveis mudaram de lugar, como se o espaço que as coisas ocuparam perdesse o sentido por um instante, e se tornasse urgente o movimentar das coisas de antes pra transformá-las no agora, eu percebo tudo isso, vejo você guardando histórias nos cantos da casa, trancando fotos na última gaveta, rasgando resquícios de laços antigos e escondendo debaixo do tapete da sala, tudo isso pra me dar mais fôlego, pra deixar o espaço mais livre pra eu respirar, quase o seu quarto inteiro só pra mim, eu quase posso continuar o impulso e correr metros de possibilidades, mas sou precavida, paro no quase, só pra não ter que me resgatar lá atrás.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

quando se está apaixonada é assim mesmo

diziam por aí que agora ela estava mais bonita, perguntavam se era algo novo, um corte de cabelo diferente, se havia emagrecido, comprado uma outra maquiagem, mas não desconfiavam que beleza mesmo nasce é nos olhos, e que com olhos brilhando coisas do coração não há pele que não escancare toda essa beleza...

um querer inquietante

ele fingia não ver a alça do vestido caindo pelo ombro dela, enquanto ela implorava para que caísse um pouco além da alça, ele procurava entre os fios de cabelos longos dela um pedaço de pele pra espiar antes da madrugada, ela fechava os olhos desejando que ele a encontrasse nas curvas de seu caminho, quando a beijava ele segurava o rosto dela com mãos de certeza, e sentindo isso ela se desmontava inteira com a pouca certeza que tinha, e desde então era assim, um tal de querer e não saber porquê queria, um tal de querer e ao abrir os olhos duvidar do próprio querer, um tal de não querer ter dentro de si mesma essa tal batida remando contra toda a própria maré...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

tarde na casa de Dona Beatriz

a mesa se vestia de xadrez, a chaleira ficava ao centro com o dançar de sua fumaça, as xícaras aguardavam ansiosas pelo chá de erva doce, o pão de queijo começava a cheirar e as senhoras ao redor da mesa comentavam das delicadezas de Dona Beatriz. havia algumas cestinhas espalhadas por ali, dentro delas biscoitinhos feitos no dia anterior para receber as amigas. era diferente o sabor das delícias feitas pelas mãos de Dona Beatriz, era como comer pequenas doses de amor.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

minha forma de dizer que sim

deita aqui que hoje eu quero te contar a nossa história. esqueça o que lá fora ainda existe, agora eu quero o seu resumo, as palavras principais, quero você inteiro entre aspas. deita aqui que eu quero falar os textos que meus olhos não me deixam negar, quero contar que eu aceito o seu beijo como poesia ditada pelos lábios. é a minha maneira de dizer que sim, porque seria muito pobre se eu dissesse simplesmente. evito o clarão, e vou parar naquela sombra. deixo-me na divisa, há sempre o risco de querer voltar, apesar de que a caminhada se faz longa, e eu costumo me perder nos caminhos.

falência dos bancos

prefiro muito mais a sua pele do que todos os pedaços de panos que você possa comprar. queria que entendesse que você está muito mais nas curvas que lhe contornam do que nas coisas que você se enxerga. difícil isso de estar nu, dá a sensação de falta, ausência, impotência. mera contradição dos homens, que sem poderem dimensionar acabaram transformando a natureza em objeto de consumo. mas eu sei que há vida além dos cifrões, aliás, há muito mais vida quando a gente se confunde com a terra que nos sustenta.

domingo, 17 de abril de 2011

casaco de verão

quanto mais a madrugada acontecia maior era o frio que entrava pela janela do quarto dele. e mesmo que o vento que vinha me buscar fosse gelado eu quis deixar a minha pele exposta. ele pensou que pele era uma coisa só e no meio da noite cobriu meus braços com seu casaco de calor em tempos assim. eu tenho aceitado essas pequenas doses de amor contidas em gestos miúdos. foi então que o frio que antes era imagem passou a ser realidade nos meus poros. encolhi-me inteira dentro do casaco, até caber por completo em sua temperatura. fiz-me um pouco de verão, e quando fui despedir quis levar esse pedaço de sol comigo. chegando na minha fatia de mundo o dia amanhecia amarelo, mas eu continuei insistindo no frio que fazia debaixo do casaco. antes de dormir um presente, descobri o cheiro dele espalhado pela roupa. fechei os olhos e perfumei então os sonhos do nosso amanhã.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

disfarce

quanto maior a sua defesa, maior a sua fragilidade, quanto mais você se afasta, mais eu me aproximo. natureza é força, armas são fraquezas. com tantos escudos assim, não há proteção que lhe alcance.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

boa noite, meu bem

é bom pensar que quando eu fechar meus olhos eu posso me guardar inteira dentro de você. faço isso toda noite. eu espero esses minutos antes do sono chegar só pra abrir o baú da nossa história, vou tirando encontro por encontro, até parecer realidade, até chegar em um instante que as lembranças alcançam a pele e você vem me fazer companhia. já até perdi a conta das madrugadas que dormi ao lado seu...

terça-feira, 12 de abril de 2011

quando vi você passar...

vi você por aqui, podia jurar que era você, e nesse meu querer que fosse você de fato, acabou sendo, afinal os meus olhos também criam estórias.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

o outro que não sou eu

- queria falar do Will.
- está indo bem?
- acho que sim.
- já discutiram sobre o futuro?
- ainda estamos no passado.
- pois deviam. não paro de receber propostas de emprego.
- de que tipo?
- matemática de ponta, institutos de pesquisa, onde a mente dele não terá rédeas.
- ótimo, mas ele ainda não está pronto pra isso.
- acho que não entendeu, Sean.
- não entendi o quê?
- não se trata de mim. não sou nada comparado a este rapaz. em 1905 professores renomados estudavam o universo, mas foi um suiço de 26 anos, cujo hobby era física, quem mudou o mundo. e se Einstein preferisse encher a cara com os amigos em Viena? todos sairíamos perdendo.
- dramático Gerry.
- não, não é. esse garoto tem um dom. falta-lhe direção, mas isso nós podemos lhe dar. é a isso que me refiro. temos de dar direção ao garoto. ele pode ajudar o mundo, e nós podemos ajudá-lo.
- direção é uma coisa, manipulação é outra. tem de deixá-lo...
- não passo a noite torcendo meus bigodes maquinando um plano pra arruinar a vida dele. com 18 anos eu já fazia matemática avançada e levei 20 para ganhar a medalha Field.
- talvez ele não queira. há outras coisas além da medalha Field.
- isso é muito importante, está acima de nossa rivaliddae.
- vamos falar do garoto. dê-lhe tempo para saber o que quer.
- ótima teoria, funcionou com você, não?
(...)
- ouça. porque ele não confia em ninguém? ele foi abandonado por quem devia amá-lo.
- não me venha com essa.
- por que ele gosta deles? porque eles te bateriam com taco na cabeça se ele pedisse. isso é lealdade. a quem ele manipula? ele afasta as pessoas, antes que o abandonem. é um mecanismo de defesa. viveu 20 anos sozinho por causa disso. se o pressionar, tornará a acontecer.
- não ponha na cabeça dele que é certo desistir, fracassar, porque não é.

(do filme Gênio Indomável)

nega por ter medo do não

- tive um encontro outro dia.
- como foi?
- bom.
- vai vê-la de novo?
- não sei.
- por que não?
- não liguei mais pra ela.
- que amador você é.
- sei o que faço. não se preocupe, sei o que estou fazendo. mas ela é linda, inteligente, divertida, diferente das outras.
- então ligue pra ela, Romeu.
- por quê? pra descobrir que não é tão inteligente, que é chata? ela é perfeita agora, eu não estragaria isso.
- talvez esteja perfeito pra você, e não queira estragar isso. isso é superfilosofia. assim poderia viver a vida toda sem se relacionar com ninguém. (...) as pequenas idiossincrasias que só eu conhecia. era o que a fazia minha mulher. ela sabia tudo de mim também. todos os meus pecadilhos. chamam isso de imperfeições, mas não são. são as coisas boas. você não é perfeito, amigo. e quer saber mais? nem essa garota que conheceu. a questão é se são perfeitos um para o outro. esse é o segredo. isso é intimidade. pode saber muita coisa, mas só vai descobrir tentando.

(do filme Gênio Indomável)

domingo, 10 de abril de 2011

cartas de um século atrás

até parece que um século me separa de poucos anos atrás, quando ele ainda me escrevia cartas nas folhas arrancadas do caderno. as frases se ajeitavam nas pautas, mas era inevitável rasgar a linha e escrever maior que o espaço concedido. as vezes ele abusava, gastava uma página inteira deixando duas palavras solitárias naquela imensidão, mas era pra falar de amor, então aí qualquer excesso se justificava. certa vez ele me entregou uma carta com desenhos feitos por ele, roubou um pedaço do arco-íris e colou no pedaço de papel, me deu de presente, disse que era pra gente morar ali, naquele colorido sem latitude definida. eu aceitei, fizemos as malas e mudamos pro nosso planeta de sete cores. ele continuou me escrevendo cartas, cada dia mais cartas, cada dia menores com mais conteúdo preso nas entrelinhas dos olhos dele. eu lia uma frase e era automático, eu já sabia todo o resto. era bonito assim, chegar em um ponto que você simplesmente sabe, quase sem querer. mas eu gostava muito das cartas que ele me escrevia, dava a sensação de que o coração dele saía do corpo e por alguns segundos batia nas letras pulsantes na folha. e pensar que eu podia sentir o coração dele toda vez que eu quisesse, bastava ler setenta vezes a mesma carta. eu agradecia. era o melhor dos presentes. o ruim é que com o atravessar do tempo nas coisas que não caminham com ele, as palavras pareciam desaparecer, como se de repente nos tornassemos analfabetos da nossa própria linguagem. foi assim que as cartas começaram a diminuir, a frequência e o tamanho, houve uma época que eu as chamava de cartões, nem cartas eram mais. com tanto ainda pra se dizer, falávamos que já tinhamos dito tudo. era o fim da história. já não havia o que contar.

sábado, 9 de abril de 2011

pra conhecer é preciso viver

- o que é isso? um momento íntimo entre amigos? bonito. você tem tesão por cisne? é um fetiche? quer falar disso?
- pensei no que disse outro dia sobre meu quadro. passei metade da noite acordado. até que me toquei de algo... e caí num sono profundo. e não pensei mais nisso. sabe o que foi?
- não.
- você é só um garoro. não sabe o que está falando.
- obrigado.
- tudo bem. já saiu de boston?
- não.
- se te perguntar sobre arte me dirá tudo escrito sobre o tema. Michelangelo... sabe muito sobre ele. sua obra, aspirações políticas... ele e o papa, tendências sexuais, tudo. mas não pode falar do cheiro da Capela Sistina. nunca esteve lá, nem olhou aquele teto lindo. nunca o viu. se te perguntar sobre mulheres, me dará uma lista das favoritas. já deve ter transado algumas vezes... mas não sabe o que é acordar ao lado de uma mulher... e se sentir realmente feliz. é um garoro sofrido. se perguntar sobre a guerra, vai me citar Shakespeare... "outra vez ao mar, amigos..." mas não conhece a guerra. nunca teve a cabeça de seu melhor amigo no colo... e viu seu último suspiro pedindo ajuda. se perguntar sobre o amor, citará um soneto... mas nunca olhou uma mulher e se sentiu vulnerável. alguém que o entendesse com um olhar. como se Deus tivesse posto na terra um anjo só pra você, para salvá-lo do inferno. e sem saber como ser o anjo dela, como amá-la e apoiá-la pra sempre em tudo. no câncer. não sabe o que é dormir sentado no hospital por dois meses, porque só o horário de visitas não é suficiente. não sabe nada de perda. porque ela só ocorre quando ama algo mais que a si próprio. duvido que já tenha amado alguém assim. olho pra você e não vejo um homem inteligente e confiante. só um garoto convencido e assustado. mas você é um gênio, é inegável. ninguém entenderia sua complexidade. mas acha que me conhece por um quadro e disseca a minha vida. você é orfão, não é? acha que sei de como sofreu, de como se sente, quem você é... porque li Öliver Twist"? você se resume a isso? pessoalmente, estou cagando pra isso, porque tudo que me diz eu poderia ler em livros. a menos que me conte sobre você, quem você é. isso me fascinaria, isso sim. mas não quer fazer isso, não é? morre de medo do que poderia dizer. você que sabe.

(do filme Gênio Indomável)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

da janela do quarto dele

era domingo, e aquela gente estava sentada na janela do quarto. a janela era daquelas bem grandes, por onde passavam histórias inteiras da pequena cidade. era contornada de um azul cor de céu em dias de sol, e a medida que o azul ia contornando a janela partes dela se descascavam mostrando que o tempo passeava por ali. da janela se dava bom dia, boa tarde, boa noite, dali as horas não corriam entre os limites dos ponteiros. a janela era conhecida pela vizinhança e quando ela deixava abrir a menor fresta que fosse logo as pessoas sabiam do amanhecer da gente que lá morava. inclusive, havia dias que a janela acordava feliz, com flores desabrochando em suas esquinas. em outros dias a janela contava segredos dos amores que por ali se encontravam. a janela despertava a curiosidade, não tinha se quer um par de olhos que resistisse a uma espiada. e era aquele pedaço de corte na parede que ditava o movimento da casa, era a janela que falava do ir e vir daquela gente, e quando ficava aberta, como naquele domingo, podia saber que era convite pra um café e pra muita prosa.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

seu sonho, qual seria?

o sonho de uma gota é ser oceano. o sonho do peixe é o mar. o sonho de um grão é ser deserto. o sonho de uma semente é brotar da terra. o sonho da folha é o outono. o sonho do balão é o sopro. o sonho do vento é a nuca. o sonho dos olhos é apaixonar-se. o sonho dos lábios é um beijo. o sonho da pele é o desejo. o sonho do lápis é um rabisco. o sonho da borracha é o erro. o sonho do quadro em branco é a tinta. o sonho da palavra é ser um livro. o sonho da mochila é a viagem. o sonhos dos pés é o caminho. o sonho do samba são os pés. o sonho da noite é a lua cheia. o sonho do frio é o cobertor. o sonho da asa é o infinito. o sonho de um fio é descabelar. o sonho da taça é brindar. o sonho da casa é ser um lar. o sonho da pétala é a primavera. o sonho do corpo é a música. o sonho da sexta-feira é a madrugada. o sonho da bola é o gol. o sonho de hoje é o amanhã. e o sonho seu, qual seria?

domingo, 3 de abril de 2011

caminhos de um mapa

tirou os objetos da mesa e abriu o mapa-mundi. sentada na cadeira da ponta tocava os lugares como se fossem feitos de terra e entre os contornos da sua casa apontava caminhos de um amanhã duvidoso. dali, da mesa, o mundo parecia pequeno, confundia-se com aquele pedaço de papel esparramado no vidro. dava-se a sensação de que se podia chegar em qualquer um daqueles lugares em menos de 30 minutos, as distâncias desapareciam, o mapa tinha dono. foi quando abriu as cortinas e a janela da sala. olhou lá fora e não conseguiu enxergar o que no mapa parecia tão perto. lembrou então dos pés, do caminhar. pegou as chaves, abriu a porta e foi pra dentro do mundo que o mapa lhe mostrara. detalhe: o mapa mostra o caminho que cada um quer seguir. o dela era pra Sabará.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

leitura instantânea

bonito era ele com seu jeito de se colocar inteiro em cada frase, tudo o que ali se expressava era rigorosamente acompanhado por tudo que nele habitava, ele não falava uma palavra sem se despejar por completo nas letras, ele era tão inteiro que uma conversa de fim de noite, com o sol marcando a hora da saída, era suficiente pra ler toda a sua história.