quarta-feira, 24 de novembro de 2010

de perto

vesti-me de tranças e deixei a minha saia girar entre os muros do seu castelo. girei tanto que abracei você por inteiro debaixo dos panos seduzidos pelo seu tom de sensatez. você se costurava com linhas de rigidez, e foi só eu chegar mais perto pra desmanchar todo esse figurino de menino emoldurado por portões de ferro. bem rente aos meus olhos você foi se desfazendo do seu personagem, e menino, você precisa saber que de de perto você fica ainda mais bonito.

domingo, 21 de novembro de 2010

enchente nos olhos meus

a chuva silencia as outras vozes lá fora e faz a noite cantar com seus pingos encontrando a terra. esta música regada pelo vapor já condensado escorre pelos meus corredores e faz enchente nos olhos meus. a janela fica mais irresístivel que nos dias de sol e eu me estico entre os seus limites me tornando espectadora das águas que correm em mim. chove pelas montanhas do meu corpo, chove pelas curvas da minha pele, chove pelos caminhos dos meus poros. se chove lá fora, chove também dentro de mim.

muito além da imagem

eu nunca consegui me colocar por inteiro em uma fotografia. falta sempre qualquer detalhe que a imagem não consegue capturar. eu não me reconheço nestas minhas fotos que revelam recortes passageiros. a câmera não apreende o meu movimento e insiste em me congelar entre molduras prontas e acabadas. qualquer retrato meu será sempre insuficiente pra contar a minha história. as imagens não cabem na realidade, elas representam demais, aparentam demais.

pouso de longa duração

as vezes respirar é importante pra perdermos o fôlego depois. vejo como um pouso nosso. esse momento requer paciência, eu sei. e não são raras as vezes que quase abandono tudo e volto pra lá, para aqueles dias de ontem...

sábado, 20 de novembro de 2010

o centro

acho que nunca percebi o quanto sou deste mundo, deste lugar que me envolve, desta atmosfera que me contorna. acho que nunca percebi de quanta raiz sou feita, de quanta história se faz debaixo da minha própria terra. acho que nunca percebi ao certo os limites das minhas curvas entre as outras, sempre me fiz confusa, fronteira, dois espaços. acho que ainda estou longe de identificar aquilo que acontece em mim e descobrir a veia que controla todas as outras. o centro é um lugar difícil de se chegar, parece distante, embaçado. é no centro que a gente pode enxergar ao redor de nós mesmos e então nos debruçarmos em torno do mundo como quem o sente na palma das mãos. o centro é aqui, é perto, eu sei. porém quanto mais eu penso estar próxima mais eu me perco no caminho...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

foto na parede

guardara a beleza de um tempo atrás entre as molduras de bronze. protegida ali ela não sofria os efeitos dos dias acelerados, mantendo então o corpo imune as viradas dos anos. sorria sempre, não havia nada que pudesse alterar o seu jovem humor, sem pressa alguma de chegar na próxima esquina. o quadro era um abrigo das memórias de um tempo bom, conservava imutável as palavras ditas pela expressão da pele, mas principalmente denunciava a contagem oculta das noites que desde então apenas continuavam. a foto vigiava o corpo em movimento, entregava sem pudor a passagem das horas. fazia um bom tempo que ela já se defendia dos dias que se foram, eles realmente desapareciam afinal, não deixando se quer pistas para que ela pudesse recria-lo por mais uma vez, nem que fosse por uma lua a mais. o agora depois que se transformava em ontem tornava-se irrecuperável. ela precisava se contentar com o que lhe restava: o futuro dos dias de hoje...

você, meu desvio

se eu insistir nesta fuga, promete que vai me buscar?

domingo, 14 de novembro de 2010

mundo dos outros

ali, do outro lado da noite, há um apartamento que mora debaixo da cobertura. quando o céu se pinta estrelado as luzes de lá se contentam com aquelas que nascem lá em cima. mas não totalmente. lá dentro há uma porta de vidro contornada por madeira, quadriculando sua transparência. daqui, do meu mundo, quando tudo escurece, fica do lado de lá uma luz em movimento, com cores da realidade, as vezes surgindo tão bruscamente que acabam atravessando o vidro e chegando até as minhas paredes. são reflexos da tela com histórias presas entre as grades da televisão que atraem os olhos dos meninos. dali eles pensam tocar quase o mundo inteiro, porque dali eles assistem cenas gravadas por outros olhos. se pensam mesmo assim, se enganam os tais meninos... a realidade é individual e só pode ser apreendida pelos olho de cada um. se os meninos insistirem em ver o mundo pelos olhos dos outros vão acabar se tornando personagem de uma história já inventada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

de mudança

peguei todo o dinheiro que tinha e comprei uma passagem pra lua. deixei pra trás computadores, telefones, televisão, passado, tudo o que me impedia de ver com os meus olhos a minha realidade. chegando lá encontrei um vazio imenso, um espaço gigante pra minha imaginação. vieram então dias e noites de invenção. acordava na hora que eu inventava, e eu era aquilo que eu fantasiava. não era tão diferente assim das minha criações lá em baixo, com os pés na terra, porque em qualquer lugar que seja nós somos sempre versões dos fatos, e nunca a realidade em si. a diferença é que lá em cima não havia espelhos, nem modelos. por enquanto a lua me parece ser uma boa morada, cabe eu, cabem meus sonhos, cabe a minha poesia.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

livro humano

fez com aquele menino como fazia com os livros, o colocou no colo e começou a ler cada página. leu os fios de cabelo embolados com a confusão dos ventos, leu a mochila cor-de-rosa desgastada pelo conteúdo diário, leu a calça larga deixando o corpo se movimentar sem mostrar seus contornos, leu cada letra que se imprimia nas suas retinas. perguntava dos dias que ela não vira, e com os olhos dele construía a vida de ontem a partir de hoje. dava pra ir além, as frases ficavam soltas vagando pelo ar, e ela capturava o enredo atravessando o som, e parando lá nos olhos do menino, que contavam bem mais histórias que as palavras. passou tardes inteiras lendo o tom que a pele coloria a cada interpretar de um ângulo, ele se alterava sempre, e por isso as vezes ela precisava começar a leitura outra vez. e aí ele se apresentava em uma nova versão, com outra capa, e outras pontuações. dizia ele que cada história tinha o seu ponto final, mas se enganava, e não era raro ele terminar um enredo antes mesmo do último parágrafo.

melhor que filme só a realidade

sentou-se ali mesmo, naquele pedaço de chão molhado, bem no meio do mundo, até mesmo porque o centro das coisas depende de como se enxerga. sentou-se ali e começou a olhar em volta, um ir e vir de muita gente, muito estranha por sinal, estranha a ela que não conhecia ninguém, a não ser as histórias contadas por um certo alguém. este alguém morava dentro dela, e suas paredes, suas cores, seus tons, eram meros artifícios que ele usava para se pintar num papel. sentada ali ela percebia que os passos, o intervalo entre os passos, não eram iguais, cada um transmitia ao corpo a urgência dos movimentos. dali ela também notava que os passos traziam pés, e cada pé trazia uma realidade, por vezes de trincar a pele, outras vezes de guardar a maciez em veludos de sapato, e bem a sua frente caminhava um par de sandálias bem abertas com pés dançantes dentro delas. sentada ali ela conseguia ver muitas histórias, era feito filme passando na tela de cinema, só que melhor que isso, era ao vivo, a cores, a olho nu.

contagem interrompida

Cristina já era senhora de uns sessenta anos, seu pai então era senhor de uns bons anos a mais. e mesmo que Cristina compreendesse o encerrar do ciclo, este fim não tinha validade quando se tratava dos que nela faziam morada. o pai de Cristina trazia no corpo as marcas de um passado longo, prestes a se transformar em lembranças. difícil era ela aceitar que tanta vida assim pudesse vir a se esgotar. infelizmente esgotava mesmo, sem data marcada, e sem qualquer consulta àqueles que continuassem a viagem. foi então que um dia o pai de Cristina interrompeu a contagem dos anos e ela não compreendeu como alguém pôde abandoná-la e levar pra sempre uma parte que era dela, lhe pertencia sim, e ela chamava de 'meu pai'.

domingo, 7 de novembro de 2010

chove em mim

o céu quando transborda espalha gotas pelos telhados da minha casa. debaixo daquele teto eu mantenho a minha indiferença às lágrimas vindas das nuvens. a pele seca finge proteger-se da chuva, quando na verdade é a chuva que protege os olhos lá de cima. por vezes eu me contento com o som que gota por gota faz ecoar em torno de mim. as janelas ficam maiores e a gente deixa de abri-las pra separar o corpo da tempestade que não é nossa. mas aquele som de pingo encontrando o chão me atrai e eu vou até lá, me despindo das capas de proteção e me fazendo correnteza. e se essa água que escorre se esvai pelos rios encontrando o mar, há de chegar o dia em que eu me farei completamente oceano.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

eternidade que escorre

pensava em amores cobertos de asas, sem tempo de chegada e com o mundo pintado pelas montanhas da pele. imaginava um homem que usasse colares de adrenalina e se vestisse de multidão. um daqueles que jamais tivesse visto um mapa e por isso tivesse a certeza dos caminhos. descobria parte deles em alguns corpos espalhados por aí, mas a impossibilidade de fundir tais detalhes a fazia amar vários deles. amava por frascos pequenos de admiração, que insistiam em não completar a dose da eternidade. por vezes acreditava que a eternidade a havia abandonado há alguns anos, e que o agora era tempo fulgaz, daqueles que escorriam completamente com o caminhar dos ponteiros. o beijar das retinas sentava em bancos de praça sem dono e endereço. não contava mais histórias sem ponto final, começava um enredo já ciente da fatalidade da última página. diziam por aí que ela estava desiludida, mas a verdade é que ela usava agora o seu melhor vestido, costurado entre fios de alma.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

pequeno grande susto

quando cheguei e vi seus olhos tão pequeninos mergulhados em lágrimas de dor quis logo injetar em você a primeira cura, a mais imediata, o meu amor. a sua queda me fez demonstrar tudo o que eu podia, comecei a pensar que se existissem mais alguns degraus talvez o tempo deixasse de ser nosso. então eu me apressei. cuidei de você, porque fazendo assim eu cultivava os seus dias que prolongavam os meus. coloquei você no colo. agora os papéis se invertiam e era você quem segurava a minha mão. é bom que a gente possa retribuir amor a pessoas assim. não foi nada grave, mas a verdade é que a dor que em você se faz, dói profundamente em mim.