segunda-feira, 30 de novembro de 2009

poluição

- respiro fundo.
- e você encontra ar?
- as vezes acho que ele não vem... acho que tem alguém respirando por mim.
- você nunca tenta prender até faltar oxigênio?
- nao... li na revista que não faz bem.... pior que eu acreditei nela..

domingo, 29 de novembro de 2009

e você ainda fica sem graça

ontem quis ser vontade sua em forma de sabor. sem um porquê, sem uma frase de impacto, sem qualquer abre aspas e fecha aspas. foi apenas um querer. fiz isso como quem coloca pedacinhos de oceano dentro de si e começa a navegar mesmo remando em terreno sólido. encontrei a parte do mundo que você comprou e era bem na frente do espaço que eu ocupei por longos sete anos. no começo achei tão improvável que fui até o fim da rua pra ter certeza de que o seu quarto não dava de frente pro meu. ao invés de sentir raiva achei bonito ele ter me mandado você. ele sempre soube de você. via-o pela pequena janela lateral do quarto dele e pensava: um dia ela vai ser dele. mal sabia ele que pensamento é realidade. assim que vi o seu número corri pra deixar a sua espera uma cestinha com coisinhas de lembrar. sensação boa essa de não pedir conselhos. podar-se é tão desnecessário. pode ter certeza de que dentro daquela sacola de supermercado tinha muito mais de mim do que nas outras tantas bolsas que você já possa ter visto.

sábado, 28 de novembro de 2009

tarde de chuva

lá fora tem muitas janelas, mas não tem ninguém que me veja a partir delas. hoje choveu muito. eu fui pra sala, onde tem a maior janela do meu apartamento. hoje achei estranho o simples fato do sofá da sala estar de costas pra janela. virei-o e deitei nos contornos das coisas lá de fora. fiquei assistindo a água caindo do céu e me mantendo seca debaixo de tanto cimento. eu quis descer e molhar as minhas curvas, mas a falta de companhia tem me roubado muitos impulsos. como se eu tivesse descoberto que sozinha não faz tanto sentido. fiquei horas congelando as gotas dentro de mim. o céu quando chora é de felicidade. é uma forma de limpeza, de equilíbrio da temperatura. depois que chove fica tudo mais bonito. eu gosto das coisas molhadas. tem uma parte do mundo que não se molha tanto pelas águas do céu. mas mesmo em lugares assim o homem vai lá e rega todas as coisas. o homem cumpre o papel do céu e só chora quando é de felicidade.

eu quero chegar lá

eu quero chegar lá no fim da trilha, quando os caminhos se dão entre as rugas. quero chegar lá com os cabelos brancos, com os movimentos desacelerados e com a vista desfocada. quero chegar lá e continuar colocando pedacinhos de memória no meu baú. quero chegar lá e ter sonhos ainda não concluídos. quero chegar lá com uma sala cheia de fotos reveladas pra eu poder viver setenta vezes a mesma história. quero chegar lá pra eu poder ver um pedaço de um filho meu dando os primeiros passos e me chamando pela primeira vez de vovó. eu quero chegar lá pra voltar a ter o domingo em família. eu quero chegar lá pra eu poder saber os gostos de muita gente e poder colocar tudo na mesa. eu quero chegar lá pra poder dizer que ainda não tenho certeza das coisas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

eu deliro na ordem das coisas desorganizadas.
eu nunca daria meus olhos pra alguém que estivesse a venda...
por que o mundo me parece sempre maior do que o meu próprio quarto?

perigos de uma noite

há quem seja leviano com a noite. com certeza não sabe dos contrastes entre o preto e o branco. quem realmente conhece a noite mantem os olhos esticados de ponta a ponta, pois sabe que é bem debaixo da sombra que a dor se esconde. naquele instante, quando parece restar apenas o sonho enrolado nos lencóis, ela explode. e se você não estiver de olhos abertos ela te consome e te leva até a despedida da lua.
- como pode mel e limão combinarem? um tão doce e um tão azedo?
- por isso combinam. os opostos realmente se atraem, se completam. o doce do mel faz o limão ser menos azedo o o azedo do limão o mel menos doce.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

essa menina existe

para encontrá-la espere chegar a noite, um pouco depois da noite, eu diria. espere chegar a madrugada. ela se envolve nas sombras do sol que ela carrega nas mãos. fica debaixo do verde a espera da menor fresta de luz surgir pra fechar as janelas. aí ela corre dos outros, aí ela repousa em si mesma. envolve o corpo numa seda branca e desliza por centímetros acima do chão. faz isso até ser engolida por um bocejo de bom dia. abre os olhos quando os ponteiros já desceram a serra e o céu já começou a se pintar. rasga as cortinas, escancara a vida e se debruça inteira no pôr-do-sol. quando resta o degradê ela paralisa os troncos das árvores que cresceram na frente do desenho que se formou. cada entardecer uma pintura.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

ele me ama!

descobri que ele também me ama e isso me fez pintar da cor dos olhos dele as palavras que ele me deu. amor se expllica, acredita? ele pularia na frente de um caminhão pra me salvar e eu pularia na frente de um cometa pra levá-lo junto... é amor, você não vê? ou melhor, você não sente? vou dormir agora porque é urgente me manter nesse estado...

domingo, 22 de novembro de 2009

as cartas que você nunca vai ler

já houve um tempo em que eu entregava toda carta que escrevia. eu não colocava dentro dos envelopes o peso dos meus dias seguintes. hoje eu faço isso. escrevi várias páginas de mim mesma pra ele no meu caderno de cetim. começava com outros assuntos e todos os assuntos terminavam nele. e como era bom desaguar nele. em uma noite houve um encontro. e nesta noite ele olhou tanto pra dentro de mim que eu disse que estava prestes a explodir. ele pegou a minha bolsa, deu um passo pra trás e disse: deixa eu ver você explodindo. eu não soube reagir à liberdade que ele me deu e engoli a seco todos os gritos que ele pediu pra eu dar. este é um texto mais dele do que meu, porque tudo que aqui está é dele. nessas horas que eu vejo que há sempre no ser humano um instinto ao roubo. eu assumo. eu roubo dele todas as belezas e as coloco aqui nesta tela como se fossem minhas. é um alívio pensar que ele dificilmente um dia irá passear por aqui...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

o mais impotante é que você respire

não. não me parece fácil viver. acho complicado entender as normas sociais. dentro de uma cadeia não existem só coisas ruins. além das grades não existem só coisas boas. compramos tanta matéria que se acaba. uma carga de caneta que tem fim após preencher várias folhas de papel. e a palavra lá, se eternizando, se agonizando na tentativa de ser absorvida. todas essas coisas eletrônicas que nos localizam em qualquer esquina e toda essa explosão humana que não se deixa ser encontrada em qualquer curva. os outros querendo algo de si nos outros. os pais querendo manter os códigos e os filhos desviando da linha reta. o sistema pagando em valores diferentes o trabalho que todo homem faz pela mesma razão. não. não é a razão que importa. e depois que se vai o quê é que fica? eu não quero ter receio de fechar os olhos pela última vez.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

cuidado, você pode morrer amanhã

ele se engana pensando ter todos os dias. ele tem alguns, é verdade, mas não muitos. e são contados, no calendário e nos pulsos dela. é ela quem determina a quantidade de dias. até ontem ela esperava. hoje acordou doente, com uma dor sem cura. ela sabe que está prestes a morrer. e quando ela morre ela mata principalmente os outros, principalmente ele. mas ele não entende. quase ninguém entende. é porque quase todo mundo ama até a vela se apagar. ela não. ela nasceu apaixonada. ama só de olhar. ama só de existir. se ele continuar assim tenho medo de que ela deixe de acreditar na velocidade que um coração pode alcançar.

é para sempre?

como eles podem chegar ao ponto de prometerem um ao outro um mesmo sentimento para sempre? será que alguém pode sentir a mesma coisa por muito tempo? talvez a melhor forma de não nos magoarmos seja impedirmos as relações. se ele não se envolver comigo eu nunca irei chateá-lo. é uma forma segura de manter a perfeição. uma espécie de divórcio antes do casamento. isso facilitaria muitas coisas.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

nada está aí. nada está pronto. nada está acabado. tudo depende dos olhos. são eles os culpados de tudo.

novidades do tempo

eles não se falavam, mas comentavam as temperaturas.
- hoje está quente, né? ontem fez frio. vi que amanhã vai chover.
era fundamental que o tempo se alterasse para que os dois tivessem novidades pra contar. nascia aí o olhar atento a cada forma que a nuvem inventava. bastava o céu se pintar de rosa para que um deles anunciasse a novidade. não se conheciam muito bem, mas nessas poucas trocas de estação eles entendiam o verão de cada um. num dia seco ela chegou com uma sombrinha nas mãos. eles estavam no pátio do prédio, debaixo de um longo teto. ela se aproximou dele e abriu a sombrinha. chovia ali dentro, dentro dele. e essa era a forma que ela tinha para protegê-lo de grandes tempestades.

sábado, 14 de novembro de 2009

já não se fazem amores de suar os poros.

você cabe dentro de quê?

briga por sentimento de posse não me atrai. ser humano não cabe dentro de caixinhas, apesar de que as vezes facilitaria se coubessem. eu tentei colocar você numa caixinha. e eu não escolhi qualquer uma. separei a maior pra não sufocar você. e ainda assim não coube...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

os olhos dele

inocentemente ele passava os dedos pela minha pele, sem perceber que cada linha que ele traçava deixava ali um caminho. ele pintava em mim os desenhos dele. colocava dentro de mim os sentimentos dele. eu absorvia tudo, até uma respiração que também era dele. tive medo dos desejos meus de posse. eu quis colocá-lo dentro dos meus olhos, sem qualquer desvio. saí correndo colorindo as setas indicando direções opostas, fazendo-as todas apontarem pra mim, para os meus olhos. e ele me olhava. conclui que ele era mesmo corajoso. sem me contar nada foi lá e roubou tantas estrelas que os olhos dele não paravam de brilhar. dava pra ver quase todas as coisas pelos olhos dele, a maior janela que consegui abrir nos últimos tempos marcados por ponteiros. ele já era então parte lá de cima...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

depois que se é feliz uma vez já não se consegue voltar atrás.
eu vejo tantas coisas bonitas que não é raro eu concluir que estou cega.

passarinho sem asas

quando vi lá estava o passarinho, com o peso da água nas asas sem conseguir voar. mesmo assim ele tentava sair da piscina. eu me aproximei com meus dedos de gente e o tirei de lá. ele se encolhia, sentia medo, eu sabia. o coloquei num galho de uma árvore, onde alguma asa pudesse achá-lo. mas passarinho que é passarinho não se esquece de voar. lá foi ele tentar mais uma vez... e caiu... eu o segurei em um abraço e o deixei num lugar onde não haveria quedas, no lugar mais baixo que os olhos podem alcançar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

ele que vê o céu cor-de-rosa

- dormir me salva. me leva pro mundo de lá...
- dormir é fugir da realidade do mundo de cá!
- mas eu não vivo na realidade. vivo em um mundo paralelo, você não vê?
- vejo que você quer viver lá, mas a realidade é que não vive!
- você não pode estragar a fantasia de uma menina. se um dia eu disser que acordei vendo o céu cor-de-rosa você tem que aceitar.
- não! não tenho mesmo! a pedra cai. não pode ser que caia. ela cai. se amanhã eu acordar e ver o céu cor-de-rosa, você vai ver!
- aí você me conta! eu vou querer muito saber.
- mas eu gostaria de ver o céu sabe como? nublado, com uma chuvinha bem gostosa! com meu quarto claro, deitado de baixo do edredon. sem relógio, ou coisa pra fazer.
- o céu mais bonito é quando o sol se despede.
- o céu mais bonito é quando o sol diz oiii.
- mas o pôr-do-sol é muito colorido. e a lua quando se enche? é demais!
- o nascer do sol é tímido. que beleza mais natural. como está a lua hoje? nem vi ainda. deixa eu ver.
- não vou olhar pra ver a lua dos olhos seus. me conta, como é?
- você não vai acreditar, mas ela está escondida pelas nuvens cor-de-rosa.
- ahhh... eu sabia que você também poderia enxergar cores. você é daqueles que olham pra cima então? conheço tanta gente que passa uma vida inteira sem saber falar do céu.
- eu olho porque sou fanático e porque tenho muito medo também. pra mim é uma mistura de beleza com temor! sabe que deu vontade de estar no meio do mar, deitado no chão de um barco olhando pro céu, vendo uma lua gigante...
- ai. vamos?
- dá muito medo! aqui na cidade não vemos muito o céu, mas quando estamos longe daqui dá medo. porque eu sou tão pequenininho que dá medo da grandiosidade e dos mistérios.
- é... dá pra colorir varias páginas com você.
- dá? por que?
- porque você é daqueles que olham pro céu. isso é tão importante... se eu te pedisse você roubaria uma estrela?
- eu sou meio cawboi, você sabe, né? eu laçaria!
- amanhã eu vou pro sitio e ficarei lá uns dois dias... quero me ver um pouco mais. tentar entrar dentro de mim. mandarei notícias pra você...
- conte-me mais sobre te ver um pouco mais? entrar dentro de você?
- é que por aqui tem gente demais e eu fico pouco comigo mesma. eu gosto da minha companhia também. e aqui tem muita coisa me puxando... silêncio é muito bom e eu quero me ouvir.
- sabe o que é bom? tomar um banho e deitar na cama. não enxugar o corpo direito. é um ótimo caminho também. não esqueça dos olhos fechados.
- quero chegar logo lá. tenho um mundo de coisas pra sentir.
- faça isso! se qualquer coisa der errada me liga. um toque vou entender que você não conseguiu. dois toques vou entender que você não está aguentando mais. nenhum toque eu vou entender que você está com você mesma e em paz. então, mesmo se quiser muito me ligar tente estar com você mesma.
- eu estou tão feliz de descobrir você. como você pode entender tão bem uma simples ida pra um sítio?
- eu sou meio doido? assusto no começo, mas depois piora.
- se você não fosse doido eu não teria nem olhado pra você. e se você não piorar eu não olharei de novo.

domingo, 8 de novembro de 2009

é quando a gente vê o sinal vermelho que aceleramos ainda mais...

tudo começou com ele...

o primeiro texto foi dele. não porque eu embrulhei as palavras em papel de cetim. mas porque foi a partir dele que nasceu em mim letras querendo viajar. depois de dois anos lá estava o menino em cima do palco falando de amor. eu olhei nos olhos dele, mas não tive coragem de deixá-lo olhar nos olhos meus. tive receio de não conseguir ser tudo o que eu gostaria de ser pra ele. então me contive em ser uma lembrança de dois anos atrás, daquelas que nem lembra-se mais. perto dele eu fico querendo ser coisas demais e me perco na incapacidade de ser outra coisa que não eu mesma.

me mate

me mate e me deixe com a capacidade de amar. me mate e me deixe somente com a capacidade de amar. me mate e mantenha meu coração. me mate e mantenha apenas a minha vida.

sábado, 7 de novembro de 2009

o céu não é um lugar pra se morar... até mesmo quem tem asas volta para a terra.
tem momentos que eu queria ser apenas metade de mim mesma. só metade já seria suficiente e ainda assim seria um exagero.

sem base

desde que ele passou a existir ela se esqueceu de que também era gente. porque as pessoas não existem sempre na vida das outras. há momentos que elas existem mais e há instantes de total cegueira. e desde que ele existia ela começou a se construir como se pudesse empilhar tijolos dentro dela. no espelho enxergava um castelo, mas toda vez que voltava pra casa tinha a certeza de não ter se quer uma parede. desabava. todas as vezes, e desta vez, para sempre. lembrando que o para sempre dela pode ter a duração de um dia.

montagem

e então ela fez isso. não acreditando nos dias seguintes ela rasgou qualquer possibilidade de frustração. quebrou o amanhã em pedaços bem pequenos e começou a montar o agora desde o começo. colocou nas mãos apenas as peças que se combinavam com as outras. as peças do futuro ela foi deixando pelos cantos...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

no momento nada me faz morrer. e você sabe... eu adoro morrer.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

até mesmo as coisas feias, nele são bonitas

terça-feira, 3 de novembro de 2009

ele não veio

eu me levo pra tantos lugares que acabo me esquecendo pelas esquinas. talvez, hoje, eu não quisesse que você chegasse. queria mesmo era me encostar de corpo inteiro em um pedaço de chão que me cobrisse com todas as coisas. é hora de estar, não mais de ir e vir. e não me venha com esta cara de homem que sabe me ler. não há compreensão. não se engane com a sua capacidade de entendimento. eu costumo ser muitas coisas além de mim mesma.