terça-feira, 31 de julho de 2012

relatos da vida real

contava-me sua história de ausências, contava-me porque eu perguntava, não havia ali desejo algum de mudança, era tudo por força de lei, pra além do pacto social não existia estrada, e eu continuava com as minhas interrogações, com a ilusão de incluir curvas no amanhã, acontece que tem passado que escorre até chegar no futuro, e alcança os dias que se seguem, mas eu continuava fazendo perguntas, mesmo que eu nem imaginasse as respostas, ouvia os relatos da vida real, e em seguida voltava pro meu quarto cheio de varandas, estou farta de escrever as histórias, sinto-me exausta de idéias presas em papéis, há que se reiventar o mundo, e acabar com a reincidência das faltas, é preciso esboçar sentido neste fluxo que faz do menino uma marionete do Estado, o menino tem que participar, e não simplesmente obedecer.

quero que você vá, mas quero que volte...

te dou impulso, abro a porta, imploro pra você ir embora, mas o menor sinal de partida destrói as minhas certezas. acho que não dá pra ver você seguindo sem ao menos olhar pra trás...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

imortais

gostava de guardar o mundo inteiro dentro de álbuns. os olhos ficavam afoitos demais com as possibilidades de imagens, então ela congelava instantes pra poder olhar quando o corpo assim pedisse. podia então ver um pôr do sol durante a madrugada, poderia passear pela costas nuas dele mesmo em sua completa ausência, dava até pra abraçar diariamente a mãe que não via há tempos. as fotos guardam vivos os sentimentos, as pessoas se tornam imortais quando fotografadas pelas retinas de uma camêra.

história inacabada

ele não gostava de estampas, vestia-se de cores inteiras que não se misturavam. ele guardava na pele quase toda a maciez possível, e de vez em sempre, deixava escorrer lágrimas por consequência do amor que não cabia dentro do peito. trazia no corpo a delizadeza do arrepio em cada toque, descobria-se a medida que se apaixonava. a primeira namorada foi também a primeira dor. ele e ela ainda eram muito jovens, e apesar do coração, pouco sabiam dos próprios poros. reprimiam os sentimentos ainda desconhecidos, e explodiam um pro outro como sinal de fidelidade. ele gostava de quartos, ela de varandas. ele tinha loucura por ela, gostava de cada pedaço que a compunha. foi por causa dessa mesma loucura que as batidas começaram a rasgar o peito, e ele adoeceu de um mal sem cura. a memória o traía a todo instante. ele querendo respirar, e ela aparecendo incansavelmente diante dos seus olhos. ele não resistia e cedia aos encantos dela, mas quando se dava conta: miragem. decidiram se separar, seguindo a receita médica. sabiam do risco das histórias inacabadas, reconheciam o perigo da sombra. e assim foi feito. hoje, após cinco anos de distância, ele e ela ainda existem. não se sabe dizer se o futuro ainda os reserva ruas comuns, mas ele e ela ainda se estranham por existirem no mesmo mundo, e ainda evitam habitarem o mesmo endereço.

domingo, 22 de julho de 2012

amor declarado

em meio a tanto amor, nós dois. dava até pra fotografar o sentimento. enquanto você se declarava, eu colhia palavra por palavra, e as guardava na caixinha de boas lembranças. foi bonito ver que eu morava dentro de você, e o melhor foi descobrir a nossa varanda de cara pro futuro. até o próximo pouso!

sábado, 21 de julho de 2012

retrovisor

ao mesmo tempo que sigo, eu interrompo a caminhada. é insuportável aceitar que de todo o edíficio construído, reste apenas a lembrança traduzida em cimento pronto pra gestar novas formas. é inaceitável concluir que o amor, antes visto a olho nú, agora exista apenas na memória. é no mínimo intragável aceitar que outro alguém possa ocupar um espaço que eu ainda não desocupei. eu sei que nós já não existimos, mas como explicar o início das rachaduras com paredes tão firmes como as nossas? é mesmo muito difícil abandonar o barco de uma viagem que você ainda não acabou de fazer, a gente continua remando, apesar da falta de porto.  

quarta-feira, 18 de julho de 2012

falar do outro é falar de mim

e quando me contava a história do seu amigo, criava então, a própria moldura. falar em terceira pessoa pode criar a sensação de distanciamento do fato, mas, invariavelmente, aquele que o conta se inclui nas palavras que escolhe. se engana quem pensa que aquele que muito diz do outro, pouco diz de si mesmo. a gente está aí, escancarado. e quando a gente lê o mundo, o mundo também nos lê.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

colheita

a medida que o trem seguia, cada estação era tanto encontro, quanto despedida. o caminho de ida, era o mesmo caminho de volta. o primeiro beijo dos cílios se fazia tanto começo, quanto fim. ao mesmo tempo que se pensava caminhar, também se retornava ao ponto de origem. eram círculos permanentes. do futuro se avistava o passado. por isso, era sempre tão importante cuidar das sementes de cada dia.

terça-feira, 10 de julho de 2012

você depois de seis anos

dá uma curiosidade, sabe? queria saber como é você adulto, vestindo o mesmo corpo de antes, usando o mesmo sorriso, penteando o cabelo como naquele tempo, e escrevendo na mesma velocidade de sempre.

cercas de ilusão

as cercas contornando as posses, o dinheiro comprando territórios, o homem se apropriando do objeto. acumulam-se os pertences, ao mesmo tempo que alimenta-se a ilusão de pertencimento. incorpora-se a idéia de que aquilo que é meu, não pode ser do outro, e que desta forma, o outro não teria direito àquilo que é meu. primeiro a compra, depois a posse. ideologia. não há posse de fato.

eu queria estar viva quando as casas se tornassem públicas, e a gente pudesse percorrer o mundo, um pouco assim, sem endereço. faríamos casas sem muros, sem grades, sem cercas elétricas, sem chaves. seria responsabilidade minha o bem-estar do meu vizinho. seríamos coletivo e a vida aconteceria menos entre quatro paredes. daríamos bom dia, e nos sentaríamos todas as manhãs em volta da mesa, bem onde a sombra esqueceu de pousar.  

sexta-feira, 6 de julho de 2012

fragmentos de uma manhã azul

a experiência altera as lentes. acredita-se menos. será pessimismo ou realismo? o virar das páginas muda a primeira palavra engo(lida). a prática transforma mais que a teoria. os jornais nos poluem com o seu excesso. as viagens nos aliviam. os beijos nos dão fôlego, não todos os beijos, mas os beijos dele. os encontros são também despedidas, e as despedidas também são encontros. não sei bem se existe algo que fica, não sei se existe algo que se vai. concluo então que...

pintura real

os dias de céu azul proíbem as janelas de esconderem as cores, dias assim me vestem com os panos de primavera prontos pra dançarem com o vento que chega descaradamente debaixo da saia, dias azuis são promessas de madrugada de lua cheia.

terça-feira, 3 de julho de 2012

sentidos

os olhos de um cego são olhos sem memória,
já a pele de um cego é preenchida de muita história.

dos relógios que não marcam o nosso tempo

estou desconfiada do meu relógio, ele insiste em caminhar devagar, os ponteiros custam a marcar a hora certa, estou desconfiada que os minutos não são feitos para todos, e que o meu tempo é marcado pelos ponteiros expostos pelas esquinas da minha pele.