terça-feira, 30 de outubro de 2012

respir(ar)

preciso pendurar você nas varandas dos versos meus, pra gente ter mais ar. preciso deixá-lo por um tempo, porque dá medo do tanto que eu posso amar você sem nem mesmo ter construído a nossa moldura. é melhor eu recuperar o folêgo e deixar você em um intervalo tal qual reticências prontas para a próxima fala. estava mesmo precisando vir por aqui e esvaziar-me de você. preciso deixá-lo nas palavras que aqui se congelam. é que mantê-lo cá dentro de mim me faz pintar o mundo todo outra vez. e pra ser sincera, as vezes confundo as cores.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

crime sem voz

a pena é o silêncio do crime. o conflito não tem voz, fica debaixo do tapete por um bom tempo, até que a pena acabe e o crime ganhe voz novamente. é o homem que segura a arma, mas o tiro é coletivo. ninguém mata sozinho. para encontrar outras vias para além do crime, é preciso pensar no plural, sem a culpabilização individualizante. responsabilização sim, mas alvo sem contexto não. o crime precisa vir a tona, precisa falar da sua própria história, pra desfazer os nós, pra, só então, arrematar outros nós.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

teorias do nosso amor

não achava que era como diziam por aí. o amor não começava com data marcada, o amor tá na gente desde sempre, só que de tempos em tempos, a gente personifica o amor, e entrega uma quantidade maior pra alguém. o amor também não acaba, não há data de validade pra sentimentos assim. o amor se transforma, até que um dia ele muda a imagem guardada entre as molduras do porta retrato.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

versão dos fatos

deixei que ele me contasse sua história sem interrupções, não fiz perguntas, pois interrogações traduzem aquilo que nos falta. deixei que ele contasse a própria versão dos fatos, sem questionamentos buscando acrescentar curvas. era ele quem decidia o recorte, cabia a ele indicar qual direção, só ele poderia escolher a moldura do quadro que se pintava. a história era dele, e não minha.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

foi assim que me apaixonei...

enquanto você me abraçava, eu me encolhia pra caber milimetricamente no seu abraço, e tentava encaixar os espaços ainda resistentes, pra caber inteira dentro de você. foi muito bonito descobrir que por toda a madrugada você me fez do tamanho seu, construindo espaços pra dois. enquanto a noite me contrariava se tornando manhã, eu retardava o tempo com olhos atentos ao nosso encontro de peles. o diálogo dos nossos corpos foi permanente, e não houve um só instante em que a minha pele não encontrasse a sua, ora por desejo, ora por retribuição. sentir-me envolvida por muros de poros tão firmes, trouxe em mim vontades plurais, de morar entre as paredes dos braços seus. obrigada por deixar saudades em mim. obrigada por começar outra história.