terça-feira, 31 de janeiro de 2012

lembrança intocável

a sua voz falando meu nome pelo telefone me arrancou da estrada e me levou para um pouco mais de dois anos atrás, não se trata de esquecimento, o que eu nunca consegui, mas voltar naquele tempo me trouxe a sensação de móveis fora do lugar de origem, eu estou andando um pouco torto, quem sabe, mas olhar pra trás bagunça os instantes de linha reta, não sei se a gente supera traumas assim, mas aprendi a acreditar que a gente aprende a lidar com a lembrança, e que quando ela vem contornada de cheiro e imagem nós podemos atravessar o rio até deixá-la desfocada, depois de tantos dias seguidos uns dos outros é triste concluir que a dor continua guardada dentro de mim, e que se ninguém a percebe, incluindo eu mesma, é porque eu a escondi junto às coisas intocáveis, mexer ali causa muita desordem, caos, os meus olhos continuam com seu par de óculos, mas as lentes são diferentes, acho que alguém pintou o mundo outra vez, ou será que eu não consigo enxergar as cores?

domingo, 29 de janeiro de 2012

abraço de cada dia

vontade de abraçá-lo até costurar o meu corpo junto ao seu.



Ilustração: Irisz Agocs

círculo fechado

dentro do mundo da gente liberdade é um privilégio, há quem se diga livre, talvez não saiba bem de quê, dentro do mundo da gente tem muita tradição, é difícil contestar valores consolidados pelos dias sem interrogações, dentro do mundo da gente sobra expectativa, por vezes nos transformam em marionetes do caminho que não se percorreu, dentro do mundo da gente tem muito julgamento daquilo que se pinta como verdade, e se no escurecer das tardes surgir alguém que duvide destas certezas logo se exclui o outro pelo receio de tamanha semelhança, dentro do mundo da gente os homens se reunem em grupos e dizem se relacionar com pessoas, mas os grupos são fechados para outras pessoas, que tipo de homem será este afinal que escolhe pessoas nos caminhos que ele determina pra si?, dentro do mundo da gente tem pouco espaço para outros mundos.

sábado, 28 de janeiro de 2012

inversão de valores

os homens daqui acreditam que a falta de tempo é sinônimo de tempo preenchido, acreditam ainda que o stress no trabalho é a mesma coisa que comprometimento, já chegaram a me dizer que quem muito trabalha quer crescer na vida, ah esses homens parecem tão confusos...

travessia

voltei com a foto dele pro meu jardim, peguei de volta o final da história ainda sem fim, o chegar em um lugar sem saída pode parecer o momento de recuar, mas nem sempre é assim, pode-se atrever em voltar pelo caminho desconhecido, pela corda mais bamba, e que contraditoriamente traz mais firmeza da chegada, chegada que não existe nos caminhos nossos, pois já diria Guimarães Rosa, a gente é travessia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

o outro que não sou eu

imenso desafio este de abrir páginas em branco para deixar o outro escrever a própria história, difícil conseguir abandonar o caderno já preenchido, desconfortável deixar pra trás a forma encontrada pelo corpo, complicado descobrir que as verdades antes incontestáveis podem vazar facilmente pela peneira, maravilhoso compreender que a realidade não é visível pela folha de revista, tampouco pela tela da tv, a realidade não cabe se quer nos olhos, a realidade não existe, o real está contido no tom dos óculos de cada um, a realidade se constrói, e da mesma forma que pode ser assim como eu vejo, também pode ser assim como você vê.

haja coração

era só ele me dar a mão para as ruas se tornarem palco, em menos de um minuto já alcançávamos toda a altura possível em um mundo tão terreno como este, a pele começava a desaguar na outra, os olhos abandonavam a realidade e fechavam imediatamente as cortinas, bastava que o hoje se prolongasse por todos os amanhãs.



desenho: Mel Perete

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

morte do corpo

quando a pele descobrir na brisa que envolve os espaços livres de concreto a sua melhor carícia, quando o despertar da fome se saciar com qualquer pedaço de sabor, quando os olhos abandonarem os espelhos, quando o corpo perder o desejo por outro, quando a matéria deixar de ser possuída, quando o homem enfim compreender a impermanência de todas as coisas, inclusive de si mesmo, quando isso acontecer aí então poderemos seguir adiante.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

de volta pro meu aconhecgo

quando o dia estava prestes a acontecer nós voltamos a caminhar do mesmo lado da rua, o bonito foi perceber que a caminhada depende da nossa escolha, e que se a gente decidir seguir os mesmos passos a estrada não terá fim.

domingo, 8 de janeiro de 2012

é amor.

Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo pra ficar. Mesmo não olhando mais nos teus olhos. Mesmo não ouvindo a tua voz. Mesmo não fazendo mais parte dos teus dias. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. Mesmo não sabendo amar.
— Caio Fernando Abreu

novo design, novos rumos.

trocar o design do meu blog pode soar quase como vestir uma roupa já em desuso guardada na última gaveta do ármario, é quase como chegar ao destino comum seguindo por ruas nunca antes visitadas, é quase como deixar falar frases pouco prováveis até se perceber irreconhecível, é quase como pensar que os caminhos de amanhã podem acontecer na estrada que eu escolher, é quase como um pedido, é quase como sacudir o mundo fazendo desaparecer a poeira esquecida debaixo da pele.

sábado, 7 de janeiro de 2012

pequena oração

que a minha dor seja respeitada em cada vão momento, e que esta mesma dor se dilua com os dias que não querem passar. amém.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

vai passar!

terminar com você me dá a estranha sensação de que a música parou de tocar, qualquer sinal de cifra causa um tormento tão grande que o som é urgentemente silenciado, e pensar nas tantas músicas que lhe dei dentro de caixinhas contornadas de amanhãs, agora se quer tenho as músicas que antes eram minhas, de repente até abrir a janela causa espanto de uma vida que não para de acontecer, o meu quarto se transforma em refúgio, é meu corpo se moldando outra vez.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

fim da estrada

de vez em sempre você vem e fica apertadinho dentro de mim, eu fico tentando encaixá-lo de alguma forma, abrir qualquer espaço pra você, mas eu acabo o expulsando outra vez, é ruim concluir que chegamos no fim da estrada, e que pontes já não seriam suficientes.

segunda despedida

é bom ter um namorado pro verbo amar ter um destinatário certo, ruim é quando todas as suas setas mudam de direção, e sem querer você se atreve a olhar pra trás e percebe que já não há ninguém naquele mesmo lugar de sempre.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

enfim o sol

depois de tantos dias seguidos de um teto cinza, terra molhada, e gotas deslizando pela janela, surgem cores fortes no céu, a grama realça o seu verde, e a varanda fica povoada de poros, me vem então a sensação de raridade, fundamental mesmo é a existência dos opostos, não para se distrairem, mas para se descobrirem essenciais.

domingo, 1 de janeiro de 2012

carta sem remetente

escreveu uma carta sem remetente e a manteve sempre prestes a ser lida por outro alguém, encaixava-se em várias das suas histórias, existiam tantas ruas repetidas, escreveu a carta, mas não soube identificar seu destino, sentiu vontade de voltar algumas páginas do calendário, apesar dos dias de olhos tempestivos, quis voltar só pra sentir o doce da ilusória eternidade, tempo em que qualquer medida cabia em seus trilhos, não importava tanto a velocidade, ou a direção, bastava que fossem dois, depois de alguns anos, de algumas poucas fatalidades, descobrira-se dentro de uma completa finitude, desesperou-se, até o primeiro passo causava medo, percebendo a realidade das despedidas se enganava diariamente com a busca de outros perfeitos para os seus anseios, sofria de insuficiência, porém sabia que o outro jamais poderia ser qualquer uma de suas projeções, era mesmo muito distante de si o outro que se descortinava tão próximo.