terça-feira, 27 de setembro de 2011

óculos poético

abri a janela,
vi um carro atravessando a curva,
abri um livro-verso,
acordei os poros que me contornam,
abri a janela,
vi poesia.

a minha permanente primavera

quando a natureza começa a se colorir, percebo que nem sempre há primavera, por mais beleza que possa existir nas pétalas, nem sempre elas estarão desabrochando nos jardins, mas, apesar da finutude dessas novas cores, é sempre possível plantar, ainda que poucas, algumas flores debaixo da minha janela, o tempo lá fora não é capaz de impedir colheitas assim, pois primaveras podem ser parte de qualquer estação.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

nosso primeiro verão

onda que vai e vem, gota de oceano, sol de verão, cerveja suando o brinde, brisa do mar encontrando a pele, sunga e biquine, liberdade do corpo, pés calçados de areia, cabelos penteados pelo vento, orgasmo numa praia só nossa, lua de enfeite, estrelas como cúmplices, prosa enrolada na rede pra entardecer, e amor pra amanhecer. que venha dezembro!

ledo engano

do mundo, ela ficara com um pedaço, construiu muros, fez crescer paredes, e pra não se fechar demais, abriu janelas.

do mundo, ela escolhera alguém, também construiu muros, também fez crescer paredes, acontece que na hora das janelas ela acabou esquecendo de olhar lá pra fora...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

que sorte a minha

e se eu tivesse ido a outro lugar, e se eu tivesse chegado 10 minutos mais tarde, e se eu tivesse conversado com outra pessoa, e se meus planos nunca chegassem a Sabará, teríamos nos encontrado ainda assim? estaríamos hoje nesta mesma história? não acredito em coincidências, tampouco em acasos, nossas escolhas alcançam nossos passos, e por sorte, em meio a toda essa multidão eu encontrei um pedaço de mundo pra compor o meu.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

isto é bom ou ruim?

ainda que fossem dois, havia sempre outras possibilidades.
ainda que fossem dois, não representavam a soma final.

alívio imediato

começou pelo rosto, há quanto tempo não sentia o passear da pele, esticou as mãos até caber inteira no próprio carinho, apertou os sentidos pra perceber os poros esquecidos pelo tempo, debaixo da janela surgiu um espiral de vento que ocupou os espaços vazios e a fez fechar bem forte os olhos, transformando aquela brisa em furação de arrepios pelo corpo, agradeceu pela sensibilidade daqueles segundos tão passageiros, tentou se manter dentro deste instante o maior espaço de tempo, levou então as mãos até os braços e se escondeu em torno de si mesma, abraçou-se com saudade dos diálogos do corpo, caminhou até as pernas, encontrou cada dedo, subiu até os ombros e percebeu a tensão absorvida lá de fora, foi retirando cada dor desnecessária, apertando profundamente cada centímetro da sua trilha, até alcançar um corpo de pés encostando o solo mas enxergando nuvens debaixo deles.

sábado, 3 de setembro de 2011

saudade as vezes vem em forma de rio, sem mar pra desaguar, acumula-se, arrebenta.

desejos do capitalismo

a minha sobrevivência tem um preço, e alto! meu corpo depende de alimentos, e estes alimentos estão espalhados pelas prateleiras do capitalismo. enquanto o sistema estimula os gostos, sabores, requintes, luxo, a condição financeira da maioria permite apenas o necessário para dar continuidade a própria vida. é fácil se perder nas possibilidades de um supermercado, cada seção nos convida. é estranho pensar que os desejos não podem ser realizados por uma questão econômica, desejos estes inventados pelo próprio capital. o homem se quer domina as próprias vontades. por isso, evito tanto ultrapassar as portas de qualquer empresa que trabalhe com vendas. também faço parte deste sistema, também compro, mas busco, o máximo que posso, escolher as minhas transações financeiras. tento não trocar cifrões por mentiras, por excessos, por um consumo esvaziado. tento preencher os meus desejos fora do mercado, inventando-os a minha maneira.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

esta é a minha lei

decretava em tom de lei a proibição das casas sem teto, dos pés sem chinelos, do corpo sem alimento, do inverno sem o verão, da voz sem escuta, do desejo sem a necessidade. decretava a verdade, sem mentiras contadas por cifrões, decretava a nudez, sem roupas pra tornar distante a essência. decretava a autoridade da poesia, da música, dos pincéis, das curvas do corpo em movimento, da dança, dos olhos encontrando outros olhos, da mãos percorrendo a pele. decretava o fim dos sentimentos que extrapolavam o corpo, não sobrava espaço para o ódio, violência, inveja. decratava a obrigatoriedade do amor, em qualquer medida, a qualquer tempo, de qualquer forma. decretava a própria lei.

primavera

e me contava histórias de um mundo bonito, de casas de um cômodo só, de gente dotada de asa voando muito além dos muros de outrora, de jardins colorindo os berços das vidas iniciantes, de madrugadas preenchidas de prosa na varanda próxima da lua cheia, de tardes lambuzadas de brigadeiro contornado de desejos das crianças aguardando o doce da vovó, de manhãs começando no mesmo instante do amanhecer do tempo, de um vento que ao tocar a pele a abraçava inteira em tom de arrepio, de livros que se transformavam em verdades nas noites de estórias... me contava histórias de um mundo bonito que existia debaixo das suas retinas, e sorte foi a minha e poder pegar emprestado esses olhos de menino que enxergam flores em qualquer estação.