sábado, 31 de março de 2012

pensamento da madrugada

encher-se demais é um risco permanente de explosão, não há pulmão que suporte tanto fôlego.

quinta-feira, 29 de março de 2012

refluxo de mim mesma

médico nenhum vai te curar menina, seu refluxo é o retorno daquilo que seu corpo rejeita, é a prova concreta do seu desconhecimento da sua própria moradia, você engole, mas não sente, cuidado com as receitas presas em papéis timbrados.

alívio imediato.

sabendo o porquê posso aguentar qualquer como.

quarta-feira, 28 de março de 2012

frase do dia.

"Nunca antes uma coisa, nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me dôo agora, mas ao menos nesse agora eu quero ser como eu sou e como nunca fui e nunca seria se continuasse". Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 23 de março de 2012

crise de abstinência

o grande problema foi beber você nesta velocidade, parecia até que havia o risco de você evaporar, bebi você inteiro em uma dose única antes mesmo da digestão, antes do corpo ajustar as formas ao novo conteúdo, desde então me mantive em estado de embriaguez, a contagem do calendário era sempre a espera do próximo gole, vício, tudo isso pra você me arrancar em poucos segundos qualquer gota sua, me deixando com a boca seca, em abstinência completa da delícia de droga que era você.

das tantas cartas que recebi

oh mari, mas você quem pensa não ter me dito nada. eu mesma já li várias linhas suas. a escrita não é assim tão dependente das palavras postas num papel...

terça-feira, 20 de março de 2012

versão dos fatos

menina, assim você se engana, pois a mentira surge daquele que desconhece a própria verdade, seria então mais adequado concluirmos que nós, talvez, queiramos a verdade em demasia, ou que talvez ainda acreditemos nas verdades em tempos de palcos vestidos de realidade.

presença permanente

tenho a sensação de que estou prestes a encontrar você, logo ali, na próxima esquina, no portão de entrada da noite que custa a passar, na saída da aula, nas memórias ainda expostas, na chegada ao trabalho, no canto da janela, no porta-retrato vazio, nos pedaços de papel em branco, nas cartas não escritas, a qualquer instante, e aí meu corpo procura o seu, em vão, a expectativa é mesmo a morte da realidade, prisioneira que sou das esperanças do caminho já sem volta, tenho dificuldade de sair do trilho sem destino, fico vagando entre espaços sem saída, estou ancorada a um futuro que não aconteceu.

domingo, 18 de março de 2012

angústia do dia

nenhum amanhã é previsível.

encontro urgente

acho mesmo urgente esse encontro, afinal seria leviano nos deixarmos distantes dos olhos em função das fronteiras. talvez pudessemos encontrar um lugar entre a minha vida e a sua, bem no meio, você caminha daí e eu daqui, até chegarmos em um ponto em comum, exatamente naquele espaço onde eu passo a existir a partir de você, e você a partir de mim, naquele cruzamento entre tantas outras direções que poderíamos seguir, e que apesar dos desvios, escolhemos o mesmo destino.

terça-feira, 13 de março de 2012

colar inacabado

um olhar quando entra no mundo do outro abre imediatamente a página do livro. ele tinha cabelos que corriam até os ombros amarrados despretenciosamente, os fios estavam molhados pela chuva, com ele uma mochila já desgastada, a pele um pouco marcada pela passagem do tempo, e uma roupa que denunciava o estilo de vida hippie. as retinas escondidas por detrás dos óculos não impediram o foco na menina que sentava logo ao lado, ela o olhou, ele se percebeu observado, ele a olhou, enquanto o ônibus seguia o seu trajeto os olhos percorriam o mesmo caminho, até que o ponto de chegada avisou o momento da partida, ele então deixou pra ela uma parte de um colar que começara a fazer e a convidou pra terminá-lo no dia seguinte, convite aceito, claro!

domingo, 11 de março de 2012

você não tinha o direito

você não tinha o direito de quebrar as minhas lentes, há pouco tempo as coisas lá fora estavam nítidas, e você não tinha o direito de torná-las embaçadas, o mundo, eu sei, continua o mesmo, mas recuperar as lentes que antes deixavam os dias coloridos não será tarefa fácil, você não tinha o direito de rasgar palavras como se fossem pedaços de papel abandonados no lixo, você não tinha o direito, não tinha mesmo.

decepção

pena que os desejos controlem os homens, e não o contrário.

quinta-feira, 8 de março de 2012

viagem só de ida

pegou seu barquinho de papel e se pôs a remar sob águas montanhosas, remava sem aquele pretexto da chegada, depois de um tempo a areia se transformara em um pontinho amarelo por trás do caminho percorrido, caminho sem volta, não há nada mesmo que volte.

naquele tempo...

naquele tempo tínhamos corpo e idade de adolescentes, mas não o sabíamos, desde as primeiras linhas achamos que já poderíamos determinar as últimas páginas, qualquer curva resultava em pontes remendadas pela não aceitação de qualquer que fosse a outra história, éramos autores afinal, e não personagens, acontece que depois de alguns anos, até o calendário marcar o dia de hoje, aquilo que parecia trágico me arranca um sorriso ainda acanhado, a tragédia é mesmo muito próxima da comédia, você se transformou então em uma lembrança guardada em imagens congeladas no fundo da gaveta, não porque são intocáveis, mas porque depois de tanto tempo elas deixaram de sair do papel e me alcançar nas esquinas do meu quarto, você, enfim, se transformou em um livro sem páginas em branco.