quinta-feira, 30 de agosto de 2012

corpo que me pertence

escondia-se por trás dos panos coloridos, das estampas chamativas, do girar das saias, do choque dos tons, até pintar outras cores, fazendo sobressair o tom da pele, as roupas se tornavama adereços pra um corpo atraente por si só, não se tratava de curvas bem definidas, mas da posse do corpo. abandonava o esconderijo que a exibia. agora refletia-se no próprio espelho, não daqueles que nos evidendiam imagens, enxergava-se num espelho traduzido pelas retinas. eram os olhos a fonte de revelação.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

silêncio do corpo

antes a dor, que a manipulação da pele. os remédios reprimem aquilo que o corpo insiste em falar, e se você quer saber, silêncio não quer dizert ausência de palavras.

domingo, 26 de agosto de 2012

família

parentes são um pedaço do mundo que a gente pega emprestado pra chamar de nosso.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

a sua versão dos fatos

pra escrever sua história preciso guardar meu coração por um tempo, tirá-lo do peito e colocá-lo dentro de um intervalo. pra escrever sua história, você precisa parecer desconhecido pra mim, pra que eu possa questionar aquilo que você construiu como óbvio. pra escrever sua história eu não posso ser apenas ouvinte, eu preciso conjugar os verbos. pra escrever sua história eu não posso tentar ser você, é fundamental que eu continue observando-o do muro ao lado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

história de vida

aos poucos me visto com roupas que não são as minhas, cuidadosamente curvo o meu corpo para sonhos que não são só meus, lentamente escrevo uma história que também não é minha, mas nossa!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

retrato

ela, menina que ao menor sinal de tempestade já ergue o maior dos muros, tal qual fortaleza. nas costas ela veste asas de gavião, que de tão fortes daria até pra morar dentro do seu vôo.

sábado, 11 de agosto de 2012

desejos de cada tempo

naquele lugar o tempo diminuia a medida que a chance da morte aumentava. às crianças eram dadas todas as possibilidades de vida, assim como aos adolescentes, que transitavam entre a infância e a juventude. aos adultos se concediam dias contados de uma história já planejada. aos idosos restava a contagem regressiva. o passar de cada página do calendário retirava do indivíduo a possibilidade de dúvida, como se o envelhecimento trouxesse certezas, e como se não existissem curvas ao longo da vida. a morte não pode demarcar o sentido da nossa caminhada, a decisão de ir pro sul ou pro norte deve se associar ao desejo que sobressai agora, e não ao tempo que se passou. o homem precisa manter a pele enquanto estiver com os pés na estrada... 

domingo, 5 de agosto de 2012

o passado de hoje

reli a sua carta numa madrugada dessas que a gente revira a poeira escondida no fundo das gavetas, encontrei lágrimas suas manchando o papel arrancado do caderno, acho que nos é complicado compreender a vida ao mesmo tempo que a vida acontece, o passar dos dias nos rega com peças antes desencontradas do quebra-cabeça, a lógica sempre existiu, mas a venda nos olhos insiste em nos perseguir quando estamos no tempo do aqui, agora, olhar pra trás, quando já estamos no futuro, guarda um quê de sabedoria, estando fora do momento é possível respirá-lo sem misturar o corpo, as ondas começam a compor a paisagem de um lugar de maré tranquila, é algo assim, ao reler a sua carta eu percebi o quanto também fui culpada dos nossos incontáveis últimos dias, chego a pensar que não era você o ciumento, mas eu a inconsequente, que apesar de todo o amor declarado, ainda buscava sua atenção por meio da cólera da posse, eu me exibia para os outros, para alcançar seus olhos que já me alcançavam desde então, a insegura era eu, não você, ainda dá tempo se eu quiser voltar?, não, você responderia, mas por aqui sobram amanhãs, eu ainda tenho esperança, mas não ouso deixar você se quer desconfiar, pois o futuro ainda não aconteceu.  

sábado, 4 de agosto de 2012

seria possível?

e se todos pertencessemos a um único país,
e se a gente parasse de competir com fronteiras inventadas,
e se interrompéssemos o levante de muros e cercas das falsas propriedades,
e se focássemos nos seres humanos que todos somos, cá ou acolá,
e se o mundo se voltasse para o bem-comum e percebesse que a fome que assola o outro continente é responsabilidade de todos,
com poucos pincéis poderíamos desenhar um novo mapa mundi, sem contornos, sem divisões de riquezas, é mesmo vazia a acumulação dos cifrões, principalmente em tempos comos os nossos. afinal, respeitadas as diferenças, somos um povo com necessidades comuns.