sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

dono da rua

Edson é dono de uma rua, que ele comprou sem pagar por ela. é ele quem organiza os carros que por ali transitam, e recebe de cada motorista um valor simbólico por usarem o espaço que lhe pertence. é uma propriedade sem papel que a comprove, e acaba por gerar uma distribuição de renda pactuada informalmente. diria que Edson cuida bem do seu espaço, e ensina valores básicos para motoristas desavisados que tentam pegar as vagas daqueles que já as aguardavam. ainda bem que o Edson aprendeu até a dirigir sem nunca ter pegado em um volante, e ajuda muita gente que tem dificuldade para estacionar. Edson tem família, mas diante da sua experiência escolheu ser dono de uma rua.

das histórias que parecem não ser as nossas

toda biografia supera a nossa imaginação. toda biografia merecia ser concretizada em páginas de um livro bom. todas. não há um só ser que não valha estar entre letras. é sempre um prazer imenso ouvir histórias do outro lado da rua, muitas vezes vistas pelas tão limitadas frestas de luz da janela. dá pra encontrar outras milhões de pessoas ao escutar um único enredo. o mundo converge nos indivíduos, que multiplicam o percurso absorvido. descobrir biografias é sempre um encontro com nós mesmos.

domingo, 1 de setembro de 2013

ação e reação

falar em demasia é o mesmo que decretar o silêncio da voz.

o futuro chegou

diariamente recebo notícias de um futuro que eu abandonei debaixo do tapete, junto àqueles assuntos que a gente não ousa falar. não manifesto opinião. recebo o choque de realidade e corro para o meu quarto-esconderijo das coisas que não quero saber. mas agora eu sei, e mesmo estando no meu quarto a notícia não vai embora. é menina, chegou a hora de comprar as chaves do seu novo lar.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

quando murcham as flores

a minha resistência não era tanto às flores, mas àquilo que se acabava. ainda que eu soubesse da possibilidade permanente de plantar novas sementes, as petálas nunca mais seriam as mesmas.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

curvas inesperadas

talvez a dor seja inerente à curva. se planejávamos seguir por aquela estrada, e agora fazemos uma curva brusca, a consequência talvez só poderia ser essa: a sensação de neblina, de futuro embaçado.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

experiência

com o tempo, até a sofrer a gente aprende.

domingo, 28 de julho de 2013

vida invisível

a morte é a vida que se segue sem a gente ver...

quinta-feira, 25 de julho de 2013

meninas do Centro de Passagem Vila Eunice

rasgavam os colchões como quem pretendia rasgar as páginas da vida. pichavam as paredes do quarto como quem se descobria sem teto. quebravam armários como quem já não conseguia manter em gavetas as lembranças. burlavam as normas como quem queria chamar a atenção pelo desvio. essas tantas meninas não rasgam colchões, não picham paredes, não quebram armários, não burlam normas, elas contestam a própria história diante de nós. os abrigos as revelam o abandono, o passado indesejado. o desafio está aí: no limite.

domingo, 21 de julho de 2013

promessa de um casamento.

casamento é a vontade do passado continuar no futuro.

não é por nada, é por você.

não é pelo seu corpo, mas é pelo corpo que é seu. não é pela sua roupa, mas pelos panos que vestem você. não é pela sua aparência, mas pela moldura que existe em você. não é por nada que caiba em alguma vitrine, ou em algum período promocional, mas pela história contada pelos cílios, ancorada na pele.

domingo, 26 de maio de 2013

um céu para se morar

dava mesmo vontade de morar no céu, lá onde não existem paredes nem ponto de partida. é lá que o sol fica pendurado. há dias que as nuvens abraçam o amarelo, e preguiçoso que só ele, o sol decide descansar. lá no céu também se penduram jóias, e as estrelas são os brincos que a lua usa para se enfeitar pela madrugada. as lágrimas lá de cima não escorrem por tristeza, elas pingam toda vez que a temperatura se eleva. os primeiros pingos fazem a terra respirar, e pouco tempo depois, transpira-se o perfume do mundo.

domingo, 14 de abril de 2013

encontro das águas

existe um ponto onde o rio beija o mar, onde já não se sabe se é doce ou se é salgado, onde uma história deságua na outra, existe um ponto onde os temperos se encontram, onde não há convite pra entrar, ou sinal de despedida. o mais bonito é que apesar do encontro, o rio não deixa de ser doce, e o mar não perde o seu sal.




sábado, 6 de abril de 2013

meu endereço

sim, eu tenho um endereço. moro aí, cá dentro de você.

terça-feira, 26 de março de 2013

Conselheira Tutelar com orgulho!

assumo o meu gosto pelas tantas histórias espalhadas entre os muros das casas. diariamente eu escuto relatos dos dilemas que as famílias não conseguiram guardar entre quatro paredes. medio vidas, não conduzo vidas. eu mantenho a minha posição do outro lado da mesa, para permitir que o caminho seja do outro. satisfaz-me pensar que a troca de sentidos realizada no Conselho Tutelar pode transformar realidades, apesar da estrutura permanecer intacta. confesso a superficialidade da minha ação, pois as violações continuam acontecendo. mas percebo com nitidez a relevância das horas dispensadas para o diálogo e empoderamento do ser humano.

domingo, 17 de março de 2013

o jornalismo permanece

fazer jornalismo não foi em vão. hoje, prestes a me formar como assistente social, eu mantenho pulsante o meu compromisso investigativo, de publicar em caixa alta os absurdos da vida produzidos pelo próprio ser humano. agora eu posso somar a minha vontade de agir, com a minha capacidade de expressar.  

domingo, 10 de março de 2013

remédios não curam

remédios são mentiras que o corpo insiste em contar. é remediar a dor, esconder o sofrimento debaixo do tapete, é colocar a história dentro do baú e guardá-la no passado, é adestrar o movimento. remédios são alívios temporários. e o maior perigo é quando a medicação assume o controle.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

não há cura para cicatrizes do coração.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

seu corpo, minha casa

dos edíficios, seu corpo é o que me leva ao andar mais alto, de onde todas as coisas ficam pequeninas. gosto quando encontro seu quarto, guardado naquela curva, e me encolho até caber no seu abraço. fico procurando suas varandas, e nelas os seus pensamentos mais espontaneos. bom é abrir seu guarda-roupa, esbanjando seu cheiro que eu ainda vou incluir num frasco. seu corpo tem compartimentos, e cada centímetro revela um sabor seu. cada pedaço de pele abre uma gaveta, que sem querer deixa cair aquele objeto guardado há anos a espera de uma janela. meu amor, com certeza os braços seus são de longe a minha melhor morada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

minha primeira vez

é a primeira vez que uma semente me alcança em solo fértil, em terra regada dia após dia, é a primeira vez que apesar da tempestade eu enfrento a rua mesmo sem guarda-chuva, é a primeira vez que a casa está em ordem, pronta pra receber você, é a primeira vez que eu vejo alguém sem venda nos olhos, é a primeira vez que eu quero abrir a janela, é a primeira vez que eu me amo completamente, e só assim pude amá-lo completamente.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

sem passado

vez ou outra é necessário consultar o baú das coisas que não se vão pra que a gente possa seguir em frente sem retalhos de passado espalhados pelo chão. ele é o primeiro homem que eu amo completamente, sem mapa, sem bussola, sem passado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

a olho nu

passado o periodo de vidro embaçado por tamanha beleza logo atrás da janela, percebo-me agora limpando as lentes, e justo agora que o foco me é permitido os detalhes bonitos se ampliam cada vez mais, em um zoom desenfreado de pequenas delicadezas.

domingo, 27 de janeiro de 2013

a vida é mesmo tão rara

não há justiça que recomponha uma vida perdida.
- pelas tantas vidas que se interromperam em Santa Maria.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

previsão

ele desenhou um coração todo torto, um pouco assustado, na palma da minha mão. imediatamente eu fechei a mão com força pra guardar todo o amor necessário. amor escrito é amor previsto.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

não foi desta vez

eu e voce não me basta, requer uma terceira pessoa, uma quarta, uma quinta... quando estamos eu e voce nos falta poesia nos dedos, nos cílios, no folego. a gente não se basta. somos silencio, sem entrelinhas. as viagens que faço não tem as mesmas janelas que as suas. as poltronas são individuais. a gente até que se encontra em várias estações, mas não partimos e chegamos no mesmo intervalo. não adianta. nossos caminhos se cruzam, mas não são os mesmos.

sábado, 12 de janeiro de 2013

coração pulsante

porque quando voce me abraça seu coração deixa de bater só no peito e pulsa em torno do meu corpo inteiro.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

eu ainda não existo

a minha completa inexistencia impede o nosso encontro. eu ainda estou do outro lado da margem, e por mais que voce já tenha navegado, nós ainda estamos distantes demais. eu não existo na medida em que só voce existe. voce ainda não me namora, eu ainda não deixei voce entrar. abrir a porta é o primeiro passo pra fechá-la em seguida. e para evitar o desencontro, eu evito qualquer sinal de encontro.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

nítida mudança

os panos que vestem o guarda-roupa são os mesmos, as janelas que dialogam com as ruas são as mesmas, as fotos guardando passados também não mudaram, as pessoas conhecidas pelo nome continuam em sua companhia, a família permanece no sangue, os livros ainda ultrapassam a pele, os sabores ainda são atraentes, as cartas não deixaram de serem escritas, o verde continua feito paisagem urbana. os elementos são os mesmos, mas ela não é a mesma. misturaram os tijolos da construção, abalaram a estrutura, quebraram alguns pilares, surgiram outros suportes, ergueram-se novas varandas, outros ventos se apresentaram. além do palco, mudou completamente a personagem.