quinta-feira, 31 de março de 2011

tempos de agora

estes são tempos de felicidade medida pelo teor alcoólico, de identidades transformadas pela propaganda da tv, de promessas desfeitas pela fluidez dos sentimentos. são tempos marcados por tatuagens que também não explicam o sujeito, tempos de desencontros desaguando em uma seringa injetando sentido na veia. são tempos de excessos tão excessivos, que o alcance do topo da montanha introduz automaticamente o desejo por um lugar ainda mais alto. são tempos de mundos com janelas fechadas em iphones, com a tecnologia mediando relações entre pessoas que moram ao lado. são tempos de curvas espelhadas em academias frustradas pela imperfeição humana, são tempos de bisturis costurando modelos ideais e perfumes negando o cheiro da pele. estes são tempos de relógios apressados, tempos de máquinas. estes são tempos limites, tempos que a natureza tenta sobreviver. estes são tempos que passarão, assim eu espero que seja.

sábado, 26 de março de 2011

pedido de papel

- o quê é isso?
- o quê você gostaria que fosse?
- um avião.
o homem pega o pedaço de papel e o transforma no pedido. a mulher se vê inteira naquelas asas de papel e se joga no mesmo instante que o avião decola. as asas de papel chegam antes dela em um lugar distante e caem no meio da rua asfaltada, na mesma rua onde um menino de 12 anos lavava um carro pra juntar moedas de sobrevivência. o menino vê as asas chegando e pára pra olhar o vôo deixando sobressair um sorriso de rosto inteiro. no momento que ele decide fazer seu aquele avião um carro atravessa a sua imaginação e destrói o pedido da mulher. assim todos pousam, na terra bem maior que o céu.

quinta-feira, 24 de março de 2011

presente da vovó

guardou-se na prateleira em frente a sua cama, colocando-se entre as molduras do porta-retrato que sua avó lhe dera quando tinha 15 anos. era o mais bonito que já tinha visto, e a beleza era coisa dos olhos dela e não do porta-retrato. desde então, toda noite ela se via na prateleira, e gostava de morar ali, dentro dos carinhos da vovó.

quarta-feira, 23 de março de 2011

alívio

todo vale pressupõe a existência de um cume.

infinito

o mundo inteiro será sempre muito maior do que todo o mundo que eu possa construir.
o mundo inteiro não cabe nos meus olhos.
o mundo inteiro não cabe nos meus pés de curiosidade.
o mundo inteiro mal cabe no meu coração.
a infinitude deste mundo inteiro faz de mim angustiada pela falta de tempo de lhe sentir em cada esquina...

segunda-feira, 21 de março de 2011

amor de antigamente

sentava na beira do rio e esperava pelos amores de antigamente. deixava a saia branca se pintar de marrom cor de terra e tirava os sapatos amarelos, os preferidos de sua mãe. enquanto o vento por ali passava seus cabelos brincavam de liberdade. sentava ali toda vez que queria esperar pelo amor de antigamente. deixava pro passado o seu desejo, assim parecia ainda maior a sua espera.

domingo, 20 de março de 2011

é amor

é muito importante na vida saber-se dentro de alguém, assim não há mundo que lhe perca de vista, não há lar que não seja o seu.

quinta-feira, 17 de março de 2011

nossos beijos sem lábios

achou mais prudente guardar entre os lábios os beijos que já eram dele. era mais seguro do que beijá-lo. o beijo poderia desmanchar o presente, limitando-a de entregá-lo quantas vezes quisesse. freiava então a primeira frase dos lábios, se resumia entre sílabas isoladas ditas pelos seus olhos. beijava-o então, sem lábios. beijava-o sempre, a cada encontro dos cílios.

quarta-feira, 16 de março de 2011

dos lugares que nos contem

mudar de lugar faz bem, porque os lugares também mudam a gente... e não é nada saudável quando um lugar toma posse de um corpo naturalmente livre.

domingo, 13 de março de 2011

morte em vida

mutilava a superfície da pele pra matar algo que sufocava lá dentro. vivia a morte diária das sensações. tudo fazia parte deste mundo já debaixo da terra, dentro do caixão. se por ventura ela ainda respirava era por falta de coragem de ir fundo nos cortes que fazia. esgotaria a dor num fechar de olhos até a morte dos desejos. talvez só assim ela começasse então a viver...

(inspirado no fime "Garota Interrompida")

sábado, 12 de março de 2011

lupa nos olhos

preferia não encontrá-lo, os olhos dele tinham essa mania de me deixar nua. mal ele chegava e logo me tirava a roupa, ultrapassando a fronteira entre nossos territórios. e eu não era a única a reclamar, bastava chegar outro alguém pra ele repetir a dose de invasão. ele era daqueles que sabia despir qualquer um que fosse. segredo era notícia velha diantes das retinas deste homem. uma letra minha era suficiente para que ele entendesse o alfabeto, acho mesmo que ele carregava lupas nos olhos. sabia de mim como se eu fosse ele, explicava-me. uma espécie de espelho com minha imagem distorcida. por isso pouco adiantavam os esconderijos debaixo dos panos cobrindo o meu corpo, ele rapidamente enxergava a minha nudez.

sexta-feira, 11 de março de 2011

lugares marcados

é sempre um risco atravessar a rua naquele lugar que a gente se esbarrou na terça-feira. é só me aproximar daquele ponto de encontro pra memória atrair a realidade, e acontece, que em dias assim você acaba surgindo. seria mais adequado que nossos encontros fossem em lugares não identificáveis, pra que depois não ficassem eternizando minhas lembranças com coisas que não são minhas. ver você é sempre um risco de voltar aos dias de ontem. eu estou tão bem assim que hoje quase te pedi pra nunca mais me procurar em meus esconderijos. mas acabei não pedindo e nunca irei pedir. nossos encontros são crimes, e eu, sinceramente, não quero ser despida pela lei.
acho que você já não é mais menino. (espanto)

quarta-feira, 9 de março de 2011

tristeza de Cristine

Cristine era triste, e por assim ser, tudo a sua volta também o era. seu nariz fazia delicadamente as curvas, nascendo dos dois lados duas formas arredondadas que só se sobressaiam quando por um descuido Cristine sorria. apesar de triste, Cristine tinha as bochechas rosadas, fingindo ter vida através da pele. os cabelos eram curtos, cortados antes mesmo de encontrar a nuca. os olhos puxavam pro céu, mas ela não erguia muito o olhar, não havia mundo que lhe interessasse. a boca era pequena, e em sua pequenez carregava uma porção farta de lábios avermelhados. eram bonitos os seus traços, e a sua tristeza lhe caía bem. solitária que era, fazia planos de morar bem longe do lugar que viera, pra poder ser ainda mais triste. não que ela buscasse tanta tristeza, mas ela sabia da impossibilidade de negar a si mesma.

domingo, 6 de março de 2011

o bem e o mal de cada um de nós

será tudo isso maniqueísta? haverá em todas as coisas a fronteira do bem e do mal? Hobbes nos fala de um homem egoísta em sua natureza, e que por sentir-se em constante ameaça constitui a sociedade por meio de contratos que garantam a paz. por outro lado Locke fala que o estado de natureza do homem é de perfeita harmonia, porém alguns desviantes ameaçam direitos que são naturais do homem: a propriedade, a vida e a liberdade, e por isso o Estado é criado para proteger os direitos. já Rosseau afirma que o homem é bom por natureza, mas moralmente corrompido, sendo a origem disso a propriedade, o momento em que o homem toma posse de algo de forma desenfreada. e por último vem Maquiavel dizendo que o homem é dotado de traços imutáveis, e que estes são ingratos, medrosos, ambiciosos, entre outras características que só podem ser contidas a partir do uso do poder político por um príncipe com virtú e fortuna. estes são os clássicos da teoria política, e ao meu ver um não se sobrepõe ao outro, são complementares de alguma forma. porém, permanecem no campo das teorias e pouco me satisfazem nas tantas perguntas que me faço. prestes a iniciar um trabalho com egressos do sistema prisional eu venho me debruçando entre páginas que ultrapassam as grades deste sistema. tenho me questionado em demasia sobre as verdades de cada um, para além das leis racionalizadas pelo homem, falo das verdades isoladas, guardadas debaixo das retinas dos homens. crimes só são crimes porque ameaçam a vida em sociedade, colocam em risco o respirar do outro, abalam o coletivo. crimes não são crimes porque o são. há um acordo entre a sociedade, um pensamento comum que faz formalizar certos atos como infrações. é um processo racional. o homem ao violar uma norma ele viola um direito que era seu, e sendo assim, enquanto parte da sociedade deve responder pelo seu ato. esta é a parte objetiva, mais simples, talvez. a parte que não alcanço é a da verdade de cada um. fora das prisões as pessoas pensam ser boas, e imaginam que dentro de uma penitenciária exista apenas a parte ruim. separam os homens em dois lados opostos, julgam os homens em função de um crime, mas o homem não é um crime, o homem não é coisa alguma. a idéia de prender pra excluir é por demais limitada. há sim um crime que justifica a prisão a fim de fortalecer a lei, porém o encarceramento deve ser prosseguido de uma reflexão acerca das verdades de cada um. não acredito na "recuperação" visando uma padronização de pensamentos, na busca de um objetivo já estipulado, há que se perceber as motivações e trabalhar em cima delas. e o mais importante: antes do crime, porque antes da infração cometida, muitas vezes, o acusado é vítima de várias negligências por parte do Estado. mas não me prendo aqui a uma visão marxista, considero também a presença daquilo que é do homem, da natureza humana, exposta logo no início deste texto. o que me intriga em excesso é a separação do bem e do mal, como se alguém pudesse ser só bom ou ser só mal, como se em cada um de nós não coexistisse duas esferas simulneamente, como se nós que estamos em liberdade não estivéssemos vulneráveis a cometer um crime, e fossémos por isso, muito diferentes daqueles que se encontram por detrás das grades. será?

para além da fronteira

equilibrava-se pelos canteiros dos jardins, com seu all star vermelho, mentia que era flor e que brotava em qualquer chão, mas talvez fosse. focava o olhar pra além da fronteira e não perdia os passos, compreendia que o foco nos pés a fazia fugir da imensidão que era estar ali... isso até a invasão dele no mundo que era dela. não demorou muito até que ela começasse a se desquilibrar no canteiro, agora seu olhar estava cercado por coisas dele, e ela não conseguia atravessar se quer o primeiro dos muros. interrompia-se. encolhia-se. enxergava por entre molduras bem concretas. reduzia-se. afinal, não poderia caber toda a vida de outrora em apenas um porta retrato...

quinta-feira, 3 de março de 2011

somos mesmo iguais?

e se fossémos iguais quanto a lei diz que somos não haveria tantas fronteiras entre realidades tão diferentes. enquanto um menino calça seu tênis pra jogar futebol em uma quadra coberta com bases de cimento, outro menino usa a nudez dos pés pra pintar a sola com a cor da terra e distrair o tempo com uma bola correndo entre lixos espalhados. enquanto Carolina amanhece e abre o chuveiro pra acordar o dia, do outro lado Adriana só molha a pele no fim da tarde após caminhar alguns quilômetros em busca das gotas do dia. enquanto uma família escolhe o prato do dia pra sentir as delícias do gostos, outra família come o que há por uma questão de sobrevivência. se por aqui uma doença surge procuramos logo um hospital com curas revestidas de remédios, mas se por lá isto acontece o atendimento se faz tão distante que se a cura não vier naturalmente só a morte poderá findar o sofrimento. a morte pra curar a vida. nós que nascemos iguais e nos inventamos diferentes. seria muito simples eu me desviar da culpa pelo fato de ter nascido aqui neste berço, e ainda bem que não o faço. sinto-me muito responsável por tudo o aque acontece para além das grades da minha janela. e se hoje estudo profundamente o serviço social é porque em breve eu quero poder construir mundos inteiros ao lado deles, do lado de lá do meu.

terça-feira, 1 de março de 2011

parabéns meu pai

pai, é que se você está perto eu perco a dúvida do dia seguinte e embarco de vez no trem de agora. pai, é que olhar pra você e me enxergar nisso que eu posso ver é o melhor presente que os olhos poderiam me dar. pai, é que se faço por você deixam de existir os dois caminhos que separam duas pessoas e automaticamente nós seguimos a mesma trilha. pai, é que ainda que o dia seja seu com data marcada no calendário é sempre eu quem bate a maior das palmas em agradecimento pelos nossos dias que vêm por aí...