sexta-feira, 29 de outubro de 2010

transexualismo

não nascemos em formas que podem dar conta dos nossos contornos. de certa maneira antes mesmo de abrirmos os olhos já estamos inseridos em um mundo que antecede a nossa existência, e este mesmo mundo nos limita aos caminhos já percorridos. não importa a qual sexo você pertença, pode haver ali mesmo em um orgão pré-determinado um outro sentimento que não aquele socialmente construído. vai além daquilo que se vê com os olhos da cultura. é urgente o ampliar das visões encarceradas pelo conforto da tradição. há de ser livre aquele menino que nasceu com corpo de mulher. não são as formas que determinam o conteúdo. há que se descobrir a liberdade de escolha, algo ainda tão distante nesta nossa sociedade.

inspirado no filme "Meninos não choram"

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

- já não uso mais óculos
- lio, agora você enxerga com o coração...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

olhos que pedem tato

acima de todas aquelas nuvens deve existir um guarda-chuva bem grande que proteje todos aqueles que lá moram dos pingos d'água e dos tempos de trovões. é uma espécie de telhado que cobre todo o universo e não deixa nada entrar, mas também não deixa nada sair. quem está lá em cima não consegue gritar alto o suficiente pra que a gente escute aqui em baixo. estando em um lugar tão distante assim é perigoso ver as coisas lá embaixo muito pequeninas, assim como é angustiante imaginar que as coisas lá em cima são muito maiores do que as que existem cá embaixo. esse infinito que existe entre estes dois mundos é muito maior dos que os meus olhos e ficam me cegando de tal forma a me impedir de ver o que há por trás daquele círculo que de tempos em tempos se enche de luz. há um limite para aquilo que se pode ver, chega um tempo que os olhos pedem tato, pedem pele. e em tempos assim se alguém nos chega cheio de imagem isto é quase nada pra olhos desesperados por um beijo seu.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

mundo paralelo

e se eu me escondo, não é de você, mas de mim mesma... as vezes vou parar nesse meu mundo paralelo. e lá é tão apertado, não cabe ninguem, nem eu mesma. lá também é muito distante e por mais que você pense me avistar, eu estarei muito longe de qualquer alcance seu. aos poucos estou tentando abrir um pouco mais de espaço, mas não pra convidar você, é para eu conseguir ficar mais tempo por lá, e quem sabe um dia morar por lá.

domingo, 17 de outubro de 2010

distância necessária

precisei colocar você no planeta ao lado, apesar de você já ter feito lar dentro de mim. deixando você longe talvez eu consiga segurar meu coração. ter algo dentro da gente saltando sem poder atravessar a pele é sufocante, e eu quase cheguei a rasgar o peito. queria poder voltar a ter as minha batidas entre os dedos das minhas mãos...

cartão-postal

hoje o céu tinha tons pintados na tela dos olhos meus. as nuvens estavam espalhadas pelo azul prateando o horizonte, que despedindo-se do sol tingiu uma parte de dourado distribuindo os últimos instantes do amarelo. enquanto isso um rastro degradê pousou na árvore, era um tucano colorindo a natureza. tirou de mim toda a imensidão e resumiu a paisagem as suas cores, que de tão vivas saltavam do seu longo bico e me vestiam inteira de encanto. fiquei ali um bom tempo capturando com os olhos o bater das asas da liberdade desta ave. a beleza está toda aí, escancarada, visível, e nunca vai caber em qualquer que seja o porta retrato...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

o outro de mim mesma

o outro já não me é estranho, parece que carrega em si um espelho, que vive a me refletir por aí. há muitos outros e em todos estes, que nem são tão outros, há a minha estampa costurada. existe um fio comum nessa mistura de gente. foi só quando eu me descobri assim diluída em tantos olhos que eu pude tocar a minha nudez. abandonei a velha posição já confortável do meu corpo e me inclinei em outras formas de mim mesma. parecia que eu me alimentava daquilo que era do outro, mas era bem verdade que era de mim mesma. eu estava ali, em mim, no outro, entre.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

cena de domingo

duas meninas estavam sentadas na orla da lagoa. uma tinha os olhos fechados, sem deixar marcas no rosto, daquele jeito que se faz quando se confia na escuridão. a outra trazia nas mãos uma folha verde, que ela usava para contornar o rosto da amiga. com toda a leveza ela fazia desenhos vagarosos na pele da outra menina, que ao perceber o caminhar da folha pelo seu rosto deixava exposto um sorriso que cobria o corpo inteiro. achei tão bonita essa cena que não resisti em congelá-la em algumas palavras...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

falta tanto ainda...

cada pessoa traz em si uma ausência. não há ninguém que resuma todos os desejos. não há círculo que se feche. não há um inteiro que se complete. falta sempre alguma parte, que por mais que se encontre, trará em si a ausência da outra metade.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

tempo interior

fiquei um bom tempo a observando, como se a congelando através das minhas retinas eu pudesse atravessar a margem que era visível e conseguisse assim alcançar os anos atrás de Dona Beatriz. fiquei ali parada em uma tentativa de rememoração dos dias que se foram. buscava no instante exato daquilo que se constitui o agora o passado daquela pele marcada pelas rugas de uma longa história. a questão é que as coisas de ontem não podem ser recompostas, há um rio que nos refaz a todo segundo nos inventando a cada vez que os olhos beijam os cílios. mas ainda que Dona Beatriz não pudesse retornar aos velhos tempos ela se vestia de passado lembrando dos amores já findos. não há um só ser que respire que não guarde em si o outrora vivo, basta abrir espaço para as lembranças se perpetuarem para além daquilo que se foi. cada ruga que vejo nos outros traz em mim o desejo de cruzá-las, vejo em cada um de nós um emaranhado de ontens pra se contar, não há que se fazer morrer as pegadas deixadas pra trás. o melhor dos futuros pode estar na fusão dos tempos. afinal quem foi que disse que o ontem, o agora e o depois são tempos diferentes? acho mesmo que os verbos só existem entre os limites das palavras, pois tempo que é tempo transcende qualquer conjugação verbal...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

mapa da pele

as curvas que sua pele fazia eram propositais, nenhum pedaço ali era ao acaso. dava pra desvendar a sua história no encontro dos poros. sua pele tinha uma espessura muito própria, tinha uma cor que só era dela, tinha um cheiro que nascia em si mesma. quando via nas costas aquele mundo de pele se encontrando, se consumindo, se alargando, seus dedos se exaltavam encostando o máximo que podiam naquele corpo que respirava. percebia então que pele era coisa que só se podia sentir no encontro de outra, as próprias mãos não conseguiam produzir aquela sensação que vem de fora. era esse desejo de ser tocada, de ser descoberta feito lugar desconhecido, que a fazia mostrar a própria pele pra causar a curiosidade dele em cruzar as fronteiras, tão permitidas. o mistério se desmanchava na união das peles, não era tanto nos caminhos dos corpos, mas na fusão das pulsões. ao sentí-lo sentia a si mesma, era ele sentindo o gosto que era dela e ela absorvendo a sensação que era dele. percebia-se ali mesmo, no ato, o mapa de todo aquele percurso, fazendo retornar com frequência nas zonas que se contorciam com o toque. a nudez era mesmo um excesso de evidências, a revelação de um falso esconderijo, era o decifrar do instinto mais íntimo.

domingo, 3 de outubro de 2010

pele a vista

as vezes ela pegava todos os fios e prendia na primeira curva, deixando exposta a pele antes protegida pela moldura. perdia-se a própria defesa, descontrolando-se na sensibilidade dos poros. o pescoço assim a vista desnudava seu corpo e convidava os olhos cegos pelo esconderijo. mostrava muito mais do que guardava, escancarava a sensualidade daquele caminho que era o mesmo de outros, tão procurados. já sabia dos tais percursos, ela apenas se abria pra eles...