sábado, 31 de outubro de 2009

de uma vida sem pontas

todos os dias eu me canso e cada dia mais. me deixa aflita o amanhã com data marcada na agenda. eu não suporto o percentual que acompanha o número. prefiro o zero e o que vem antes dele. o ato de somar é compulsivo, não há um último algarismo e o céu faz-me perder qualquer coisa que eu nem tinha. porém o chão é quadrado e não amortece as minhas quedas. o ar também não.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

vou me levando

as vezes, como desta vez, a necessidade de me carregar por inteiro, pra todo lugar que eu vou, me cansa. a impossibilidade de me libertar do meu corpo me deixa exausta. ser eu mesma não me parece fácil e mesmo assim eu sou, por obrigação e por escolha. vou me levando pra todo canto que olho. não me abandono, mesmo quando não quero nada de mim. também sei aceitar a minha condição de ser cada dia um nome diferente. desculpe, mas não é sem querer.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

amor. a maior das delícias de uma menina

e qualquer coisa explodia dentro dela. a falta de ar era a prova da intensidade dos pulmões. inspiravam tudo, qualquer cheiro, mesmo vindos do ralo. era amor. um sentimento que tinha origem na capacidade de amar todas as coisas, pequenas, grandes, cinzas, quadradas, suadas, todas as coisas. assim as pontes perdiam o sentido. ela não queria atravessar, chegar do lado de lá. a menina fazia questão de sentir cada pedacinho de vida. e de morte. aí tudo se encaixava. a ansiedade perdia seu espaço e voltava pra caixinha de papel. lá fora ficavam a menina e todas as coisas.
o céu também chora... principalmente nos tempos de muita luz.
eu queria é que ele me pedisse pra ficar... e transferisse a minha culpa toda pra ele.

com o pé na lua

um dia ela me contou que pisou na lua e que seu pé afundou nas bordas de uma fase cheia. disse que demorou para chegar lá, que passou por muita terra e estrelas. pelo caminho ela foi deixando cordas, chaves, grades. todas as coisas que prendem. e se prendeu a ela mesma. com o pé o na lua ela não sabia o quê fazer. percebeu que pisar na lua era o mesmo que pisar na lama, que morar na cobertura era o mesmo que dormir na grama. o que mudava era a forma como a pele tocava o mundo e o mundo tocava a pele.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

amor e cor

- você me amaria mesmo se eu fosse cinza?
- isso independe da cor.

como algo se acaba

faz um tempo que a gente não se fala, né? senta aqui um pouco. vamos olhar em voz alta e deixar a pele se expressar. fique numa posição que não te canse, nem o corpo nem a mente. deixe tudo acima do chão. se você olhar para baixo e ver que continua sob a terra então feche os olhos e vá para qualquer lugar. senta aqui pra gente falar do mar. coisa mais linda essas águas que ora são verdes, ora azuis, ora mais escuras, ora de cores demais. mas pra falar disso eu preciso que você se sente. que fique de forma a acreditar que o tempo parou. e se você não conseguir eu compro um novo relógio com ponteiros marcando os minutos que você quiser. mas por uma noite eu queria que você sentasse aqui. queria ver você despido de música, de gente, de lugares. ver você comigo. como seria. você não aceitou meu convite, porque pra você a madrugada é só um orgasmo. eu só queria te mostrar que dentro dela podem ter bem mais de um. acontece que depois disso nem eu nem você vamos mostrar mais nada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

a partir dos olhos dela

eu acho tão incrível. porque você pega toda a minha história e coloca assim, no papel. parece que vê numa tela de cinema o meu filme passar. e eu me entendo a partir dos olhos seus...
e um dia ele vai ter que ir. não há onda que fique.
eu já fui na casa dela. ela mora longe, e de tão longe acho que lá é o céu. acho que é isso mesmo. o céu.

domingo, 18 de outubro de 2009

não adianta. eu não vou usar o prazer pra ter um orgasmo. eu não vou fazer sexo com você. eu não quero os seus dias seguintes de pernas abertas sem pintura nos olhos. pode fechar, as pernas e as portas.
eu nunca matei ninguém, mas vou matar, ao menos dentro de mim. e é você quem será o próximo a receber os sete espinhos. por isso desde já eu aviso: cuidado para não se enganar com a beleza das pétalas.

sábado, 17 de outubro de 2009

numa madrugada

apesar do sono o êxtase em seu ápice. antes do primeiro beijo ela o queria para sempre. a partir dali para todo o resto. ele a chamou pra dançar uma música, depois outra, em seguida todas. ela disse: o que eu mais gostei em você foi do seu ritmo, a velocidade das suas mãos passeando pelo meu corpo, os passos que você criava compondo danças, o toque de todo o seu lábio na minha pele exposta. ele disse: nunca vi mulher tão sensual. o mais bonito em você são seus lábios, a sua bochecha encaixando no rosto, a cintura fina, os seios fartos, o carinho que seus dedos fazem em mim.

sem carruagem, nem sapato de cristal, ela teve que ir embora. ele despediu com um até um dia desses e ela não aceitou que fosse por acaso o próximo encontro. guardou o número dele na agenda como quem guardava a senha de entrada pro mundo de lá... lá de dentro dele.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

há quem durma querendo acordar no dia seguinte...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

um dia foi assim...

chega um tempo em que se veste o mesmo pedaço de pano por longos anos. antigamente não era assim. o sapato apertava, os dedos cresciam, a pele esticava. os bordados faziam mais sentido do que hoje, ainda que eu tente mantê-los nos tempos modernos. eu brincava de pique-esconde e acreditava mesmo que ninguém poderia me achar. eu enfrentava a chuva sem nada pra me tampar. e antigamente já existiam sombrinhas. eu pintava meus lábios com cores fortes, capazes de enganarem os olhos. as minhas bonecas conversavam comigo. e não há quem possa desmentir isso. elas me olhavam até a hora que eu me cansava delas e as guardava na caixinha de histórias de menina. na roça do vovô eu pude subir em um pé de manga. achava que eu era forte porque conseguia ficar mais alta que as pessoas lá em baixo. meu pai me levava pro mato, me deixava na terra, debaixo dela. já dei muito milho para aquelas galinha da minha avó. passava o dia a espera do lanche da tarde com hora marcada. mingau de milho verde. os mais gostosos que já comi. as vezes eu comia sem o relógio autorizar. eu adorava essas pequenas coisas proibidas. a noite todos assistiam o jornal nacional. eu deitava no colo da vovó. ela pegava os dedos e desenhava carinhos em mim. todas as noites. depois todos tinham que apagar as luzes, pra esperar o galo chamar no dia seguinte.
o quê que a gente faz quando olha no espelho e vê outra pessoa?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

próximo destino

foi naquele domingo que ela começou. encolheu as pernas, abraçou o corpo com as mãos e escondeu a cabeça dentro da pele. fez isso até ficar pequenina e caber dentro do coração dele. a cada encontro ela diminui mais um pouco. da última vez ela ficou sem respirar pra deixar lá fora todo o ar desnecessário. nem respirar ela quer mais. só quer saber de encontrar o seu cantinho lá dentro dele, até chegar a hora em que ela possa fazer dele o seu próprio endereço.

sem perguntas, por favor

Clarice pensa que se apaixonar é feito brincadeira de menina. pensa que quando não quiser mais, poderá trocar os bonecos e mudar a história. mal sabe ela que ainda não descobriram o botão que desativa os sentimentos. enquanto isso, Clarice brinca de amar qualquer fio de cabelo que se enrole nos dela. já posso até ver os caracóis. desta vez, ela escolheu um menino cheio de portas. há dias que ela nem consegue abrir nenhuma delas. é que ele esconde as chaves. parece que tem medo de perdê-las. Clarice acha as perguntas uma das coisas mais lindas que já se inventaram. e aí chega esse menino, com cara de lua, e pede silêncio. ela finge que obedece. deixa só ele abrir a primeira porta... vão explodir interrogações!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

só porque nasci mulher não quer dizer que tenho que fazer as coisas que as mulheres fazem. não é uma questão de gênero... mas de vontade.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

queria ser pequena

sabe papai, eu não queria ser grande. eu queria ser pequena pra sempre. assim os outros iriam esperar coisas pequenas de mim e quando eu fizesse essas coisas pequeninas eles achariam grandes, porque foi uma menina pequena quem fez.

um olhar particular

das cores ele conhecia a textura. a irmã descrevia a ele os tons como se fossem coisas. aos dois anos de idade Carlinhos já não podia enxergar, com os olhos, porque com o corpo ele via muito mais coisas do que os outros. ele conseguia dar fomas aos sons lá de fora. e pra ele nada chegava pronto. Carlinhos imaginava tudo sem a interfência das linhas duras contornando o mundo. com a palma das mãos ele criava as molduras do seu universo particular. isso sim era a independência de um olhar.
sem telefone ficou muito mais fácil me encontrar. surge com mais contraste a vontade. uma verdade pintada que eu gosto de escutar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

depois da primeira vez o amor se torna o maior dos vícios.

com h

no topo cobertura de cabelo castanho-claro, levemente ondulado, pra não dizer que não é sensível aos convites do vento. no rosto a moldura da lua em sua fase mais cheia de si. nas montanhas rosadas da face um buraco surge quando ele acha graça. neste mesmo instante aparecem, de uma vez só, todos os dentes formando um sorriso de carregar no colo. foi num domingo, num dia desses prontos pra serem qualquer um, que ele me deu a mão e me chamou pra entrar dentro dele.
do álcool, o quê é que ele bebe?
- a lucidez. ele responde.
e você? o que você responderia?

da maldade de um poeta

poeta tem disso. chega rasgando cada centímetro de folêgo e diz ter pressa. não sabe esperar cicatrizar. joga na roda todas as doenças e vende cortinas com grades escondidas. coloca cimento nas janelas e espreme limão na fantasia púrpura. faz isso e vira a página do livro. mas a gente, a gente que lê, mal consegue avançar a vírgula. fica vidas inteiras colocando as letras no liquidificador, preso na impossibilidade de atravessar ao menos até o outro lado da rua. poeta não sabe o que faz. e é por isso faz.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

menina com rima

nada importava, Carolina inventava.
depois da escola ela não tinha endereço,
cada dia morava em um novo trecho.
um dia ela quis conhecer a vida debaixo do mar.
criou barquinhos de papel e foi navegar.
não gostava muito das coisas da superfície
pulou do papel e esqueceu que não era planície
foi parar debaixo das ondas até tocar as conhas
achou bonito aquilo e esqueceu de respirar
essa menina só queria saber de sonhar...
depois do beijo dele ficou um gosto diferente em mim.

da minha condição

eu não sei retribuir amor de verdade. fico na condição de filha e eles na condição de pai e mãe. as vezes me sinto um pouco mãe dos dois, mas não demora muito e eu solto as mãos. com frequência os meus pousos são distantes do chão deles. e eu nem olho pra trás. eles ficam me procurando até nas coisas que não existem de verdade. eu não sei amá-los como eu deveria. não sei ficar pra sempre no colo da minha mãe. um dia eu pedi pra que eles nunca fossem embora e meu pai me prometeu eternidade. ele sabia o que dizia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Seu Zé

estava sentado dentro de um dia comum, em uma cadeira comum, com retalhos de pensamentos comuns. na mesa ao lado também havia detalhes comuns: uma xícara descascada com sabor de café, bolachas se enrolando umas as outras, e duas senhoras tricotando a vida. enquanto isso ele permanecia dentro do seu dia comum. no ir e vir do balanço da cadeira ele enxergava dois ângulos: um intocável e um comum. tentava ficar mais tempo no primeiro, mas a cadeira logo roubava os únicos instantes de novidade. o nome também era comum: José. um senhor de 50 anos que nunca saíra do próprio mundo. Seu Zé não aceitava convites que escapassem das cercas da sua fazenda. ninguém conhecia mais aquela terrinha do que ele. ele sabia de cada montanha, de cada sombra. reconhecia as estações pelas plantações. tinha intimidade com aquele chão.

Seu Zé gostava de tudo ajeitadinho. toda vez que entrava em casa abria a porta com a mesma mão e colocava o chapéu pra descansar no mesmo lugar. a porta cantava todos os dias canções sobre a própria condição. não tinha chave aquela porta, e nem era tão porta assim. escondia apenas parte das coisas lá fora. começava na altura da canela e terminava no umbigo de Seu Zé. era uma divisória, só pra demarcar um universo do outro, só pra mostrar que ao abrir a porta se entrava em uma casa com chão de cimento. uma vez Seu Zé quis desmanchar o lar, não tudo, mas o chão de cimento. ele queria manter as paredes, o teto, os objetos, mas tinha vontade de pisar sempre na terra. não gostava daquela coisa dura e fria que o cimento era.

Seu Zé era uma prosa pronta, acabada, com começo, meio e fim. as marcas que trazia no rosto mostravam as linhas do campo que ele trabalhava. as mãos eram gastas de tanto tentarem moldar a natureza. do amanhã Seu Zé só queria poder fazer tudo de novo, outra vez, no mesmo horário. e a parte de todas as mesmas coisas que ele mais gostava tinha nome, e esse nome era Marieta. Seu Zé tinha o pescoço torto de tanto olhar ela passar...