quarta-feira, 31 de agosto de 2011

e se eu quiser pular?

as tantas páginas de livros me afastam da possibilidade de escrevê-los, enquanto me debruço nas linhas intermináveis de outrens as paredes permanecem maiores que a imensidão lá de fora, os textos vedam meus olhos para as imagens que eu poderia sentir no mesmo instante da leitura das retinas, e simultâneo a isso, as letras impressas me emprestam óculos que eu desconhecia, e me deixam a beira do abismo com tamanha nitidez da altura.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

lembranças

nos dias de ontem ele se confundira com ela, ao ponto de não perceber a sua presença diária, quando então ela começara a seguir sem ele, o menino percebeu a falta dela, como se de repente tivesse perdido algo que lhe parecesse seu, nos dias depois de ontem o menino começara a inventá-la nas molduras das outras meninas que conhecia, e na impossibilidade de repetir por duas vezes uma só pétala ele a procurava discretamente, como que por descuido do tempo que não os colocava nos mesmos instantes como outrora, agora ele a percebia em toda a sua ausência, e esta era a sua maior presença.

sábado, 20 de agosto de 2011

pra não deixar morrer na tela

em um dia me apaixono mil vezes por você, vou colar a sua vida no meu mural, quero poder ler você diariamente, e pra não dizer que não falei das flores, queria falar de amor, queria falar das coisas bonitas que seus olhos me contam em segredos velados pela madrugada, ah menino, você me poetiza, é quase um surto, e se você aqui estivesse tomaríamos juntos a nossa dose de loucura, e sãos que não somos pularíamos da ponte mais alta, só pra ver nascer as suas asas de gavião, assim eu escrevo o nosso livro, apenas pra não correr o risco de ver desbotar em páginas amarelas toda essa nossa história.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

idas e vindas

e quando eu te perco tenho vontade de nunca ter atravessado um caminho que não era o meu, te perco tantas vezes, em tantos dias, a gente se perde um do outro tão constantemente que me pergunto qual é o fio da linha que nos ata, e aí quando vejo você me escorrer pelo canto dos olhos eu prefiro voltar pro meu esconderijo, onde ninguém descobrirá o meu imenso desejo de guardá-lo pra todo o sempre em uma caixinha.
o domínio das leis é a melhor forma de cometer crimes dentro da legalidade

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

melodrama

os dias com ele não cabem entre as 24 horas do relógio,
já os dias sem ele cabem repetidas vezes nos segundos dos ponteiros.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

história construída a quatro mãos

desconhecidos que eramos começamos a trocar pedaços de história, eu atrás da mesa como quem sabe pra onde se deve ir depois que se atravessa a porta, ele sentado na minha frente como quem precisa sair dali com um mapa dos dias seguintes, desconhecidos trocando intimidades urgentes, não fosse a pausa do meu relógio ele passaria como estatística, quanta responsabilidade esta de ver passar diante dos meus olhos caminhos tão distantes, e ser exatamente essa distância aquilo que nos aproxima.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

tenho todas as coisas

a sensação de posse mente sobre a nossa relação, mesquinharia do ser humano pensar que só possui aquilo que é de sua propriedade, a gente tem todas as coisas que sente, tudo aquilo que vejo é por consequência parte do meu universo particular, sendo assim tenho todas as coisas, mas não como dona, descarto aqui as cercas de arames farpados envolvidas de proibições, coloco em comunhão os meus pertences, todos, inclusive eu mesma, é bom pertencer a outros mundos, é melhor que eu entenda isso perfeitamente, pra evitar invenções de histórias de gente guardada em caixas.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

da única certeza

talvez ela nunca saísse da ponte, talvez essa fosse a maior certeza: o risco permanente da queda, talvez fosse exatamente essa insegurança que a fizesse segurar tão firme em qualquer miragem de cais, talvez por isso de uns tempos pra cá ela tivesse começado a caminhar no centro dos seus desejos, talvez assim ela jamais deixasse de seguir, cada vez pra mais perto de si mesma.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

são muitas as urgências

enquanto vivíamos no mesmo canto do mundo, Nicole crescia atrás dos muros que nós inventamos pra cegar os olhos, justo eu que recebera do coração de mãe o presente pra ser madrinha, fico pensando nas molduras que escolho pros dias que vem e vão, nos sentimentos urgentes que me movem incansavelmente, percebo quanto tempo eu reservo para as letras guardadas em papéis e em lábios de gente vivida, mais da metade da história que me contem vem emendada nas histórias de outros tantos personagens, e apesar disto continuo escrevendo por detrás desta tela que me esconde da realidade que afirmo enfrentar.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

respeite sua pele

corpo da gente não inventa doença
corpo da gente responde através das doenças...