quarta-feira, 31 de março de 2010

obedeça a si mesmo

falando assim parece que não é mesmo urgente ser feliz. tem que ser agora, neste instante, neste segundo, não depois, com mais calma, nem com paciência. tem coisas que são mesmo urgentes. por isso já não fico esperando a flor desabrochar, eu vou até lá e abro as pétalas. cada um no seu tempo, eu no meu. corro muito, eu sei. corro tanto que vejo os outros ficando pra trás, não que eu esteja na frente, mas o meu caminho é sozinho. talvez seja esta a minha sina, de não encontrar companhia, de não achar mão que segure firme o sufuciente, de não enxergar asas em ninguém. não adianta me ensinarem a esperar o tempo lá de fora. eu não aprendo mais. eu quero a minha liberdade. quero sair da caixa, rasgar os panos, quebrar os lápis, desmontar os armários, destruir paredes. tudo pra deixar meu caminho mais livre, sem olhos que me atrapalhem a visão. do outro quero o sentimento. já não quero guardar ninguém no meu baú. nem quero ter um baú. cansa muito, cansa demais ter que mexer nos tantos retalhos que embolamos no baú. isso faz doer, faz sangrar mais do que uma ferida aberta. por dentro eu me sangro inteira, a minha cor vermelha não consegue seguir os caminhos curtos de uma veia e se esparrama pela pele, pelos poros, pelos olhos. e aí eu me desmancho em sangue, assim, descaradamennte. e ele viu, Fabrício viu, Bernardo viu, Valério viu, André viu, até Fernando viu, eles viram. e ela me diz agora que não quer sentir mais nada. porque de tanto sentir ela se acumulou com o excesso do próprio sentimento. ficou vazando, rio que não cabe nos limites e vira enchente. tem que ter um jeito, mesmo que ninguém saiba qual é. tem que ter um eixo, uma direção, leste, oeste, norte, sul, pra cima, pra baixo, pro lado, pra dentro.

segunda-feira, 29 de março de 2010

ele, passarinho

- quando ele é intenso você pousa. quando ele voa, vai embora, você voa atrás...
- exatamente. porque se ele tivesse pousado nas minhas mãos... eu já teria deixado a janela aberta pra ele ir desde o começo.

domingo, 28 de março de 2010

vida após a morte

quanto mais fechados estivessem os olhos dela mais ele parecia real. era diretamente proporcional. ele não era daqueles que dormiam do lado esquerdo da cama. não dava para enxergá-lo quando o dia amanhecia, quando a noite trocava de roupa. ele vivia enquanto ninguém além dela poderia vê-lo. era como se ele saísse escondido a noite, todo de preto, silenciosamente. como se ele não pudesse existir pra ninguém além dela. era como se ele insistisse na vida após a morte. e ela, como toda mulher apaixonada fazia, aceitava todos os convites. o ruim era ter que abrir os olhos e viver mais um dia de realidade. porque depois que se fazia dia já não adiantava fechar os olhos...

sexta-feira, 26 de março de 2010

- podemos ir na lua?
- o que você quiser...
- então vamos logo comprar as passagens. ouvi dizer que sempre se esgotam...

quinta-feira, 25 de março de 2010

agora vai dar pé

dá pra escalar a pele dele, dá vontade de morar naquele pedacinho que se afunda quando ele acha graça, dá pra contar uma história com começo, meio e fim, dá pra falar de dois, dá pra esperar o dia seguinte, dá pra sentar na grama e contar estrelas, dá aquela vontade de ser dele...

entre as nossas paredes

sabe... estou com muita vontade de passar dias deitada num colchão com pessoas que gosto. comendo qualquer coisa, falando qualquer coisa, dormindo, acordando, respirando... entre quatro paredes. perto, colado, em cima, em baixo, abraçado, conectado. não dá pra levar essa vida de encontros em bares, com público em excesso. sobra pouco do que é de fato humano. estou querendo os defeitos, o mau cheiro, o ralo.

alta velocidade

eu corro demais, perco os batimentos... ganho um menino no primeiro dia e começo a perdê-lo a partir do segundo...

terça-feira, 23 de março de 2010

sobre o nosso reconhecimento

o nosso caso se trata de um reconhecimento. os objetos continuam ocupando o mesmo espaço, o meu pai delicia as manhãs na mesma xícara verde, a minha amiga ainda tem os olhos cor de outono, a árvore não parou de crescer e a as rugas ainda insistem em aparecer. mas tem algo diferente... é a temperatura! não que eu nunca tivesse sentido os tais 50 graus, mas desta vez nós respiramos o mesmo ar. eu inspirei você e você inspirou a mim. eu cheguei até a acreditar no dia seguinte, o que não fazia há muito tempo. eu te dei a minha mão e você aceitou o convite para o primeiro capítulo. eu dei um título e decidi que esta seria uma história sem ponto final...

segunda-feira, 22 de março de 2010

espelhos

disso ela sabia, que tinha que parar com essa mania de carregar espelhos pra todo lugar que ia, como se os outros tivessem que ser reflexos dela. começava a entender que as linhas não eram as mesmas, que as vezes elas se emendavam, as vezes se cruzavam, e as vezes se arrebentavam. e o mais importante: era essencial que fosse assim.

quinta-feira, 18 de março de 2010

sobrevivência

não crescia quando aumentava a idade, não sabia o dia em que tinha subido os sete degraus de uma vez só. não se tratava de um momento exato, desses que a gente pode apontar numa folha de calendário. não cabia numa página, numa descrição, numa lembrança. mas era real, tal qual flor que nasce fora da estação. talvez fosse um caso raro, de gente que respirava mais do que podia. a verdade era que ela tinha vivido uma vida inteira em menos de dois anos e depois disso toda a vida que ainda diziam que ela tinha parecia uma sequência de túmulos atravessando os seus passos. era sobrevivência. era como tampar os olhos tendo a certeza da visão. tornara-se cega. depois que ela subiu na montanha mais alta e começou a entender o mundo, só a cegueira seria capaz de mantê-la. enxergava tudo um pouco cinza demais, desfocado, feito neblina. nem sei se realmente vivia...

quarta-feira, 17 de março de 2010

quanto tempo dura o para sempre?

e qual seria afinal a duração de algo que era para sempre? acordou como quem já não entendia o prazo das coisas, como se já no berço toda inspiração nascesse com data de validade. percebeu que os encontros a dois já não se tratavam de amor, eles falavam da falta de cada lado. era a consequência antes da emoção. agora havia até quem conseguisse explicar as batidas que sentia. colocavam no plano da razão aquilo que já era naturalmente inexplicável. já não havia encontros de coração, estes foram substituídos pela necessidade de qualquer outro corpo que se movesse. era o fim das coisas que eram para sempre... até mesmo porquê depois que ele se foi nada poderia ser tão eterno assim.

pessoas de um mundo só

eram essas coisinhas invisíveis que quando vistas por ela faziam chorar. os verbos se cruzavam freneticamente diante dela. bastava que ela respirasse, pra então enxergar amor numa roleta de ônibus. era bonito ver aaquele homem vestido de simplicidade satisfeito por levar pessoas de uma esquina até outra. o olhar daquele homem carregava um abraço bem encaixado. é que o mundo tem essa mania de separar as pessoas de acordo com o que elas fazem, mas os olhos não são assim. é com os olhos que a gente une tudo outra vez e faz de qualquer nome o nosso sobrenome.

segunda-feira, 15 de março de 2010

- mandei um pedaço de céu pra você.
- tem estrela?
- tem sim. todas que você quiser...

quinta-feira, 11 de março de 2010

por causa do amanhã

era fundamental que respirasse, que não colocasse mais do que um pé a frente do outro. no dia seguinte ele se olhou e encontrou linhas que marcavam os dias de ontem. tinha rugas, mas não se reconhecia nelas. abriu a janela e achou estranha a paisagem que acompanhava a própria rotina. talvez ele nunca tivesse olhado pela janela, talvez ele nunca tivesse atravessado nenhuma janela. foi então que começou a olhar em volta, as coisas duras e as coisas do vento. começou a observar a ordem dos objetos, aqueles mais expostos e aqueles já esquecidos no fundo dos armários intocáveis. pensou que deveria se desfazer daquilo que já não lembrava, daquilo que já não precisava. mas recuou, com receio do amanhã, do vazio que o amanhã poderia trazer fazendo-o buscar lá atrás formas de viver lá na frente.

terça-feira, 9 de março de 2010

temporal

- sabe, estava pensando em você e em mim. eu sou pedra e você é nuvem... mas você tem que aprender como fazer chover... e não se esqueça de que quando se é nuvem qualquer brisa tira você do lugar. na nuvem não se toca, na pedra sim. se você quer que algo exista, faça virar pedra. as vezes você tem que deixar de ser nuvem branca e fechar o tempo... soltar raios e trovejar. e seja firme no que faz. faça chover, faça chover granizo. também saem pedras das nuvens...
- eu não me lembro de ter sido raio. você já foi em algum tempo?
- eu sou pedra, não tenho essência nenhuma. nada acontece com a pedra, ela é sólida. ignorante demais pra ver o horizonte que a nuvem vê... é assim que me sinto, como se eu fosse uma mentira.
- hoje você está feito meteoro passeando entre as nuvens.
- pedras também voam... que bom saber.

segunda-feira, 8 de março de 2010

passagem pra Lua

- na Lua eu acho que não conseguiria viver. olhar pra terra como se fosse a Lua. imagina a saudade...
- mas eu acho que cada lugar que vamos que é longe da casa da gente é uma espécie de Lua, que faz a gente sentir saudade da terra...

sexta-feira, 5 de março de 2010

noite de estrelas

- você não acredita em sorte, né?
- acredito em você, em ser humano. mas não em todos. aliás, desconfio de muita gente
- achei um trevo de 4 folhas.
- então guarde, porque acredito na mente. e você acreditando que ele dá sorte ele dará!
- sempre bom falar com você, mas vou dormir. amanhã será um dia tenso.
- muito trabalho?
- sim, amanhã é dia de relatórios.
- aproveite as entrelinhas.
- aqui não tem estrela, só chuva.
- então faça assim. pinte estrelas no ar. eu vou pegar uma aqui e mandar pra você. e ela pode continuar exisitindo mesmo de dia... não é bom a gente limitar as coisas quando o sol se vai...
- é bom fazermos nossas escolhas.
- pensarmos que somos livres. eu gosto quando tenho a sensação de que não penso. de que vou... as vezes eu consigo. juro!
- você é magica! tem o poder de dar voz a imaginação.
- e você tem a varinha. escreve você num livro pra eu poder ler?
- por quê não ler sem ser num livro?
- eu já escrevo você nas minhas linhas... tenho mania de letras. mas evito transformar em textos a realidade. é sempre mais interessante o vento lá fora.
- isto enquanto você está aí dentro, quando for pra fora tudo muda
- daqui a gente não compreende o mundo. quando eu estava lá fora eu tive o meu auge.
- mas você pode subir ainda mais.
- sim... tem uma escada logo aqui, do meu lado...
- suba, degrau por degrau
- as vezes gosto de subir de dois em dois
- quero ver o parágrafo que participo no seu livro.
- não dá pra dizer exatamente em qual pingo do i você está... mas já está... e isso me parece bom...
- nossa! arrisquei um parágrafo e estou em um pingo de i.
- menino, nao se iluda com tamanho
- você é um x.
- eu me contento, não tenho ambição de ser o alfabeto.
- você é um mistério, por isto o x.
- então espie!
- você me parece em várias linhas tênues, mas em vies diferentes.
- você me parece agua vinda do mar, um pouco necessariamente salgada, com chance de ver do outro lado. e amanhã? a gente vai parecer o quê?
- não consegui entender.
- mas se eu explicar... vai perder o sentido.
- por quê salgado?
- porque água do mar é salgada e o sal é tempero. não gosto de comida sem sal.

quinta-feira, 4 de março de 2010

olhos que olham

dia após dia ela envelhecia. sentia que o sol se transformava em lua quando se olhava no espelho. já não se reconhecia em algumas fotos e os olhos entregavam tudo. é nos olhos que fica a maior marca. era com os olhos que ela ria e chorava. os olhos eram feitos palavras ditas pela pele. dentro dos olhos dela podia-se enxergar vários instantes. dali refeltiam-se várias faces de uma mesma vida. e sabendo disso ela não media os gritos.

olhava fixadamente para ele, escandalizando as letras que seus olhares traduziam. percebendo as declarações ao pé das retinas ele desviava o olhar, respirando um pouco a cada falta de direção. é que ela tinha um foco sem curvas. ela quando olhava parecia que entrava no outro colocando os dedos lá dentro e causando reações adversas. ela era um tanto quanto intrusa. mexia até onde não era chamada. ela gostava era disso, de causar explosões.

terça-feira, 2 de março de 2010

as várias vidas dentro de uma só

e de tanto saber se acumulava em dúvidas sobre tudo o que pensava conhecer. percebia que nada se abraçava por completo, que sempre restava um dedo, um pedaço de pele. por mais fundo que fosse, por mais terra que cavasse, ainda estaria na superfície. nada era tudo. e ela não se contentava com uma parte, com um lado, com um ângulo. não se saciava com uma lambida, com a borda, com o contorno. queria colocar dentro de si todas as coisas lá de fora. pra entender, pra sentir, pra duvidar. porquê dentro de uma vida ela sabia que podia viver várias vezes.

segunda-feira, 1 de março de 2010

ele que é o que ele quiser ser

- quando eu conto isso para as pessoas elas acham graça, mas quando eu vou para uma cahoeira eu me sinto água, sabe? quando eu sento nas pedras eu me sinto pedra. eu fecho os olhos e me sinto parte de tudo aquilo...

segredo: eu achei isso a coisa mais linda dos últimos tempos...