domingo, 27 de fevereiro de 2011

apaga a luz?

- Nicole, apaga a luz pra gente cantar parabéns?
- não dá, é culpa do Sol!
- e como é que faz pra gente apagar o Sol?
- ah... só o papai do céu é que pode fazer isso.
- hum... e como é que ele faz?
- ele faz chover, aí aparece um monte de nuvem preta, e escurece...

coisas que só uma criança pode dizer, e esta, é minha afilhada.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

casa de um cômodo só

Gabriela tinha muitos segredos, um em cada lugar disfarçado de esconderijo. por debaixo das meias, dentro dos sapatos, atrás dos cabelos, nos olhos, no encontrar dos lábios, na história. Gabriela morava dentro dela e não gostava da idéia de ter se quer um cômodo fora da própria morada. introspectiva ela não dava espaço para que os outros pudessem ser o que são, todos os outros eram aquilo que Gabriela enxergava. cada pessoa ela transformava em personagem da história cujas páginas só ela escrevia. assim não havia contradição, não havia dúvida se era por aqui ou por ali a direção. ditadora do próprio mundo, autoritária no pensamento, Gabriela tinha certeza de que conhecia inclusive o final daqueles dias.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

por isso não choro

a lágrima me justifica, o choro me conforta, como quem diz que aquelas águas só nascem se a dor for mesmo grande. aí então eu me desespero, me encolho até suprimir qualquer gota que seja. quero ficar ali, na passagem entre a dor e o consolo. não quero depositar nas gotas o meu alívio, eu prefiro que faça rasgar cada pedaço de pele, até fazer arrebentar. preciso saber de mim.

"Fiquei com vontade de chorar mas felizmente não chorei, porque quando choro fico tão consolada..." Clarice Lispector

sábado, 12 de fevereiro de 2011

e agora que você se foi tenho medo que você volte...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

procurando você em mim

passei o dia catando as coisas que você deixou pra trás, você não as esqueceu, deixou mesmo. fui catando uma por uma até acreditar que você se encontrava ali, naquelas coisas abandonadas. fui catando, esperando que no meio das coisas, talvez, eu encontrasse algo que você tivesse deixado pra mim, com nome, endereço, remetente. fui catando e quando vi estava procurando por mim no meio das suas coisas deixadas pra trás. podia ser qualquer coisa miúda, qualquer pedaço rasgado de uma coisa que fora inteira, podia até ser resto. fui catando você atrás dos seus passos, fui catando você e me deixando no lugar dos passos, fui catando você e me perdendo depois de tanto caminhar sem que você se quer olhasse para trás. fui catando, porque eu só não poderia perder você de vista, ainda que a vista fosse só minha...

o abismo dos outros

dava medo andar por ali em terras não tão seguras. apesar da falta da queda, o abismo estava sempre prestes a se abrir em torno dela, mas ela gostava da sensação de se ver na ponta dos pés faltando apenas um empurrão pra cair pra sempre em outro mundo. ela fazia questão de parar bem ali, no ponto onde quase se fazia a queda, ficava parada mesmo quando ameaçavam jogá-la. não queria enfrentar os instintos de ninguém, mas os de si mesma. assim ela percebia até onde a queda era realmente suportável. cada vez que a noite acontecia ela desejava estar ali, prestes a cair, procurava esses limites nos quatro cantos do mundo sem pontas, encontrava, mas pra logo em seguida desencontrar qualquer sentido. lá fora as coisas se alteravam a todo vapor, na verdade não eram as coisas que mudavam, mas os olhos da menina que não viam uma mesma imagem duas vezes por trás das cortinas. cada dia uma vontade, cada dia um pedaço do corpo pra falar. ela só fazia obedecer a sua natureza humana insaciável. por isso era tão urgente amanhecer...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

debaixo do escuro da noite

e quando você se descobre fica praticamente impossível se esconder, e aí chega a madrugada e te denuncia completamente...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

das coisas que não eram dela

sentia raiva dos cabelos que lhe escorriam lisos em torno do rosto de pele macia sem espinhas logo acima das curvas atraentes aos olhos masculinos que passeavam entre as montanhas escondidas atrás do sutiã. sentia mais raiva ainda dos passos elegantes pé após outro ziguezagueando os quadris mantendo ereta a coluna que não se curvava. sentia repulsa às palavras organizadas gramaticalmente faltando sempre um pouco mais de verdade. sentia entre muros da cultura quando cruzava as pernas pra esconder o corpo debaixo da saia feito segredo que poucos poderiam ver aguçando então o desejo pelo mistério que só se desvendava de pernas abertas. sentia a ausência de pele quando sorria ao invés de puxar os fios de cabelo entoando palavrões bem menores que a explosão que se fazia ali dentro. sentia preguiça de tanta encenação, de tantos palcos fingindo serem ruas, de tantos atores simulando realidade, sentia preguiça por se fazer mais um deles, mais um personagem de uma peça que nem o enredo era seu...

dias assim

as vezes eles me tiram o chão, me deixam ali, em estado de passagem, prestes a me jogar do primeiro abismo, talvez do primeiro degrau, as vezes repetem os textos e pretextos, eu decoro os dias, memorizo as expressões, como se estivesse colado na face uma mesma história impedindo as possibilidades, endireitando as curvas, sinto-me angustiada diante das coisas iguais, apesar das semelhanças serem culpa dos olhos meus, me culpo também, não são só eles, sou eu refletida neles, nos misturamos, perdemos a cor, fundimos os nomes, nos tornamos pele...