sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

portas de um passado

odiava dias como este, quando acordava faltando pedaço. respirava por uma necessidade do corpo, mas evitava inspirar os cheiros. abria porta por porta dos dias que se foram até alcançá-lo, mas o máximo que conseguia era uma lembrança. ele não voltava, ele já nao estava, ele já nao era ela. não se acostumava à idéia de algo que antes falava de amor e agora se quer era conhecido. lá fora ele procurava o terceiro óculos enquanto ela mal conseguia trocar as primeiras lentes. não se enxergavam. não se reconheciam. após sete anos de dias com mais de 24 horas não se conheciam. era no mínimo estranho perder algo assim.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

constelação

- você tem vivido que aventura por aí?
- quase nenhuma. não tenho vivido muita coisa... as coisas estão se repetindo
- pois é. depois que se vive muito a gente desaprende a viver pouco
- meus planos se foram pelo ralo... eu sei. cedo ou tarde eles voltarão, mas nesse exato momento... estão longe das minhas mãos
- eu só me lembro de um dos seus planos. quais eram os outros?
- quero morar na praia... em uma cidade sem agitos. ter um bugue, sabe aqueles bugues??? que você anda com o vento batendo na cara? até cachorro gosta de vento na cara, imagina eu
- você falando assim me deu vontade de ir pra SP, naqueles dias que você estava lá.
você ainda está lá?
- somente meus sonhos. servem meus sonhos? acho que você ainda pode encontrá-los por lá.
- do ser humano eu quero principalmente os sonhos... mas por quê você deixou seus sonhos por SP? por quê não os carregou com você?
- não... eu não sei onde eles ficaram... sei que estão por ai... talvez seja lá. não exatamente lá. talvez estejam na rodoviária... me esperando
- tem vaga no ônibus que você vai pegar?
- precisa levar o quê?
- não pode levar nada... precisa apenas dos dedos... para escrever no vidros embaçados de água
- tem data?
- não.... só depois que encontrar o sonho. se vc for... pra onde quer ir?
- você acha que sonho está em todo lugar?
- acho que não. por exemplo, sei que aqui ele não está.
- estará onde? enterrado? ou debaixo daquela estrela que a gente viu naquela noite?
- espero que nao esteja enterrado... prefiro que esteja debaixo daquela estrela...
mas... não sei onde ele está. se você ver por aí... me avisa.
- e saber? acho que a gente não precisa saber.
- você é assim mesmo.
- assim.
- hora de ir pra casa.
- hora de esperar o dia nascer. é sempre bom ler a sua poesia.
- é sempre muito bom falar com você... agora por exemplo... acho que que vou encontrar meu sonho novamente. não hoje, não agora, mas acho que ele ainda não está enterrado. você me faz sentir isso.
- até a próxima parada.
- beijos.
- beijos e estrelas.

o meu tempo

o relógio me faz perder a noção do meu próprio tempo, porque há em cada um de nós um tempo muito pessoal, um tempo que nenhum ponteiro consegue calcular.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

a minha beleza passageira

- então quer dizer que você se acha bonitona né?
- não sempre, não muito. mas me acho suficiente. no sentido de que escrevo as belezas. e as belezas que escrevo ficam em mim. assim como as coisas que falo, as coisas que penso, as coisas que faço. acho que elas são mais belas que qualquer fio de cabelo meu. acho que essa é a minha beleza maior. porque fisicamente não me acho uma beleza assim tão grande. e quando me acho, porque há dias que me acho muito bonita, evito atrair qualquer par de olhos por isso. eu não saberia manter essa beleza que surge em dias esporádicos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

depende dos olhos

mesmo nos pousos ela mantinha as asas em movimento. alcançava o céu mesmo com a terra segurando seus pés. não era uma questão de altura, mas da direção dos olhos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

o começo não é o nascimento

antes de você seu nome. antes de você sua família. antes de você sua história. antes de você seu passado. antes de você sua prisão, sem tabulas rasas. antes de você aquilo que você será.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ponto de chegada

eu espero você voltar. eu sei que qualquer que seja a hora da sua volta será um segundo depois, aquele que nos divide, quando o trem acaba de partir e já não dá mais tempo. mas eu espero você voltar. tenho essa mania de gostar de pontos de chegada. estarei em todos eles. em qualquer centímetro de terra aonde você possa pisar eu estarei a espera. mas você não chega. e eu não estou em todos os pontos, pelo menos não nos que você chega. há sempre uma outra porta ao lado da minha. eu espero você, porque em você está parte de mim e eu não tenho outra saída a não ser me esperar. esperar até que eu volte a ser minha.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

um brinde cor de ouro

estranho que lá fora não exista ninguém. está tudo tão calmo. nem ao menos ouço os tantos sons à quilômetros de distância. a gente não alcança nada muito longe. não com o corpo. hoje não usei roupa, a não ser pra ver alguém. enquanto estava entre as paredes sem graça de tão brancas eu me despia, não só das roupas. vesti apenas uma taça com um vinho suave, cor de ouro. era doce o suficiente pra me deixar amarga, pra me fazer sentar e escrever até o talo. até ser necessário abrir um buraco pra deixar a corrente entrar.

gosto destes dias meus. meus. meus. de cobertor em pleno verão. a pele quer pele e na falta de pele abraça um pedaço de calor. deitada na cama feita para dois eu estiquei o meu corpo até me transformar em dois. não consegui. fui sempre uma, mesmo quando eramos dois. mas esticava até não caber nenhum outro um. dormia e acordava para dormir em seguida. um sono para ver o tempo passar sem relógio. não quis ver ninguém. ele também não quis me ver. quando ele quer ele me faz convites que eu aceito antes mesmo dele perguntar.

tive que prender meu cabelo e o meu desespero. tudo num único laço. a cada vez que eu passava em frente ao meu reflexo eu olhava para o espelho. e gostava. bonito isso de ter um corpo seu, uma pele bonita, sensível. pele que sente até mesmo sem um toque. o vinho cor de ouro começa a me fazer suar. sai pelos meus poros a promessa de uma noite de estrelas no chão. há muitas promessas ainda a cumprir. ainda há tempo. então não faz mal que sejam muitas. ainda há uma vida inteira, a minha e a dele.

carnaval

ela não concordava com essa idéia de pausa. era um número inteiro, sem vírgulas, sem espaços. não precisava parar um pouco para saciar suas vontades. os desejos eram parte dos outros dias também, não se limitavam àqueles cinco dias que o país insistia, ano após ano, em liberar os instintos. como se certas coisas devessem ser extravazadas ali, entre aquelas linhas, naquele tempo, de uma vez só. assim perdia-se a troca, a onda que vai e vem. era só um orgasmo, a poeira. e todo mundo junto no mesmo barco sem remar.

naquele tempo

naquele tempo Clarice não desejava nada além do que já tinha, nada que fosse sólido. desejava muito os sentimentos, as buscas, as mãos. não faz tanto tempo assim, mas parece praticamente impossível voltar. naquele tempo Clarice não via teto, nem temperos. todas as coisas eram seguras e cheias de sabor. ela havia encontrado um lugar desses que existem em todas as esquinas. onde tudo se explica com as petálas de uma flor. além das petálas restam poucas coisas. está tudo lá, detalhadamente organizado. e ela sabia ler. muito mais do que palavras escritas em pedaços de papel. ela sabia ler as pessoas, o vermelho da terra, o calor do bom dia, o suor de uma gota d´água, ela sabia ler as flores. e isso a tornava a maior das escritoras. sem essa ambição de grandeza. era a maior não por subir um degrau a mais. ela era maior em comparação a ela mesma. não tinha como ninguém ser como ela, porque ela era uma e o outro era um. cada um grande em si mesmo. a diferença é que ela se reconhecia dentro do próprio infinito e não tinha pudor algum em usar o par de asas que ganhara no seu último nascimento. gente como ela nascia e morria várias vezes em uma vida só.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

possibilidades de uma caixa

dia após dia a caixa. pesada. embalada. secreta. dia após dia o menino. três anos. curioso. criança. o pai saía de casa às 8h e cuidadosamente carregava a caixa. cada dia uma, cada dia um quadrado, um retângulo, qualquer forma com pontas. não se ouvia barulho das coisas lá de dentro. o pai segurava cada caixa com dedos de silêncio, como se andasse na ponta dos pés, pra não acordar ninguém. o menino levantava da cama com a falta de som, no mesmo horário, no mesmo encontro de ponteiros. abria uma pequena fresta pra caber o seu grande par de olhos. arregalava os dois e seguia o pai até a quando já não dava para o ver, quando a porta fechava a imagem restando apenas a imaginação.

o menino de três anos, filho do pai, passava as manhãs criando histórias de possibilidades sobre o conteúdo das tantas caixas. ele não ousava perguntar o que era. a resposta podia ser muito menor do que as suas invenções. perguntas poderiam ser um risco pra meninos como ele. o menino pensava que o pai era homem importante e que sempre que o sol aparecia ele saía para entregar segredos, que só o pai e outro alguém poderiam saber. mistérios. de acordo com o tamanho e a cor das caixas o menino moldava o conteúdo. ele gostava de não ter certeza, de ter a liberdade de enxergar dentro da caixa aquilo que quisesse.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

os meus 25 anos

há alguns anos eu não tinha idade. nasci assim. os outros não me enxergavam com dois números à frente, com dois algarimos que me continham mais do que eu mesma, tal qual cabresto. tendo vivido o meu um quarto de século agora me pedem pra seguir a ordem númerica, sem direito a olhar pela menor fresta os dias de ontem. cobram que eu seja do tamanho dos passos dados, ainda que seja impossível qualquer exatidão. não me permitem ser uma construção dos tempos, querem que eu me transforme no instante, no presente, no segundo. querem que eu seja somente adulta! pode? e nesse desejo estão indiscretamente os pedidos de certeza, de independência, de objetos no seu devido lugar, de cores de meias iguais. o fato é que eu não sou um resultado, sou uma soma que ainda não pára de crescer e diminuir.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

outra vez segunda-feira

e na segunda tudo outra vez. os dias que deveriam ser úteis chegam com cheiro de roupa usada, encardida e amassada. só quando terminam as "feiras" é que renova-se o guarda-roupa. mas nem sempre acontece. tem gente que arrisca uma blusa repetida, uma meia usada, um tênis furado. o novo nem sempre é algo com etiqueta. com os mesmos retalhos pode-se costurar um outro contorno. mas eu quero mesmo é uma linha que não acabe com o domingo. quero uma linha que não comece. preciso de uma linha que continue...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

nossa casa do lago

- vamos sair...
- pra onde vamos? que horas? e para qual direção? do vento ou da lua?
- do sol mesmo, porque eu estou branco de tanto não sair. eu quero o sol pra ficar na pele mesmo, pra arder depois. qualquer coisa, a gente toma banho de mar.
- eu acho bom quando arde. dá pra ver o quanto a pele da gente respira. e um banho de mar... acho que podemos contruir nossa casa sob uma onda. a maior das ondas.
- mas onda quebra.
- mas a gente não.
- mas e a casa? não é em cima da onda? vamos construir uma casa no lago. bem grande. e a onda, a gente nao constrói nada, a gente só vai mesmo. porque onda é assim mesmo, só uma onda. eu quero ter para o quê voltar e eu quero ter porquê ter que sair. assim. ao mesmo tempo.
- e a nossa casa no lago pode ser sem paredes? toda de vento? podemos até comprar um cobertor para os dias de frio, mas eu sempre achei que cama boa era aquela de grama.
- não. você não entendeu. eu quero a casa. a casa tem que ter. porque eu quero abrigo. mas grama vale... e vai ser ali, perto do lago e perto da onda. porque tem que ter tudo. a gente nunca se satisfaz. tem que ser um lago no mundo. uma onda no oceano todo. e uma grama no espaço. pode ser na lua. se não a gente não cabe. eu e você somos muito espaçosos. as pessoas não entendem. e nós não queremos incomodar os vizinhos.
- é verdade... temos que ter tijolos. pra dar a sensação de abraço quando abrirmos a porta. só vamos tomar cuidado pra não confudirmos paredes com mundo particular. vamos ser tudo o que há pra ser dentro e fora. e o nosso quarto? como será?
obs: estou emocionada. meus olhos estao se enchendo das águas do nosso lago.
- obs: eu estou rindo. eu imagino como você está respirando.
- e o nosso quarto? quero detalhes, as esquinas, os corredores, as cores. e a gente, como vai ser?
- bem , nosso quarto vai ter várias fotos nas paredes. porque vamos ter vários amigos.
- continue, não pare.
- lençóis velhos e rasgados, porque eu gosto assim... quanto mais velho, mais macio. e lavar só de vez em quando. lençol tem que ter cheiro de noite. vai ser uma bagunça, mas vez ou outra a gente vai dar uma organizada geral e achar por ali na bagunça o que é, era ou pode ser parte de nós, mas que estava perdido.
- quantas janelas? quantas portas? qual o tamanho da cama? qual a cor da parede? muita luz? mesas? cadeiras? tapetes, almofadas? tv? telefone?
- o quarto não é só meu. vai ter uma tv grande, ar-condicionado, sem luz. você já sabeee. sem tapetes. sem almofadas. as pessoas têm que poder andar dentro do meu quarto também. dançar.
- vamos deixar muito espaço pro vento chegar e ficar.
- telefone vai ser o sem fio da sala. leva para o quarto quando quiser. tem que ser bem ventilado, com uma janela enorme. se puder mais de uma. melhor...
- uma pra cada parede. e a casa será perto de quem? perto de quê?
- não. muita janela nãooo. é um quarto. não é a casaaa. quarto é quarto. é refúgio, fuga. é escuro. é calmariaaa. quarto é quarto. não podem ver o que a gente faz lá. é quarto. bem, a casa... para a próxima conversa, porque estou indo.
- nao acredito. bem no meio do nosso futuro? tava aqui quase caindo da cadeira e sentando bem na beirada do céu. me escreva sempre. por texto, pensamento, flores, poesia. amovc. e volte. volte sempre. a casa é nossa.
- eu escrevo tanto e você sabe que sim.

culpa do mar

culpa do mar. e eu achando que poderia ser maior do que todo o azul. as gotas salgadas o colocaram longe de mim. esquecendo-se das ondas que vem e vão ele apenas foi... deixou-se por inteiro batendo a cada segundo dentro de mim, mas também levou-se por inteiro mergulhando a cada convite da maré. as águas têm essa coisa de nos dizer quase tudo. eu não poderia culpá-lo. é culpa do mar, com toda essa grandeza, essa imensidão, sem ponto de chegada nem partida. se eu tivesse o mar fazendo espumas a minha porta eu também esqueceria das chaves. é o maior dos dialógos que se pode conseguir... entre o homem e o mar há muito texto, há mais linhas do que texto, mas há muito texto. é mesmo culpa do mar, o maior de todos os inocentes.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

sem ele por perto não tem cor que seja realmente colorida...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

- como está a sua vida?
- está melhor... meio agitada... meio sem respostas. ainda não tem nada inteiro, mas sinto que logo terá.
- coisas inteiras. não sei se existem. a gente vai é pegando pedaços de cada coisa inteira e juntando tudo. a gente finge ser inteiro. mas inteiro mesmo nem nós somos
- aiiiiiiiiii. eu sempre quis ouvir isso. a gente vive é com a sensação de que algo inteiro existe. mas não... vivemos apenas com as partes do inteiro, mas com o coração em busca do inteiro.
- se você encontrar dentro de você as coisas essenciais tudo lá fora será complementar... tudo irá se encaixar... mas quando dentro da gente está fragilizado nada lá fora se encaixa, porque não há mesmo chave de porta nenhuma. aiai... tão bom falar com vc..............
- eu sei... eu sinto... que nós dois juntos somos um...
enquanto eu seguia em direção ao trabalho havia no céu farelos de lua, que de tão de cheia de si não se contentou apenas com a noite.

menina sem endereço

e de todas as casas qual seria a dela? acho que casa era uma forma de segurança, de ter para onde ir. mas nenhuma casa poderia contê-la. ela morava em todo lugar que pisava. morar não era um estado de permanência das coisas. aonde ela ia levava também ela mesma. destaco isso porque vejo muita gente que vai, mas se esquece no lugar de onde saiu. ela não. levava-se por inteiro, até num toque de mãos ela estava compeltamente presente. por isso não achava ser dela qualquer coisa que ela pudesse tocar, tudo movia, até as coisas mais duras. Beatriz era o nome dela, ainda é. Bia era a doçura contida no nome. ela não queria comprar paredes que a fizessem voltar sempre pra lá. não tinha vontade de ter endereço. pensava que as ruas e avenidas eram lugares pra se viver. eram nesses espaços que não eram de ninguém que ela queria decorar com flores de jasmim o seu sono. gostava dos móveis de grama, com luzes vindas do céu e vento de todos os cantos. na verdade ela tinha sim um endereço. era ela mesma. ela sempre voltava pra dentro de si, era lá que ela realmente morava.