quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

de costas para o mundo

não poderia ser ao acaso a mania de desenhar em folhas de papel em branco a menina de costas no balanço. o muro inventado. a fronteira não cruzada. as grades projetadas. a menina no balanço foi criada há cerca de 5 anos, quando a realidade começou a embaçar as lentes. foi então que comecei a balançar de costas para o mundo. de costas parecia mais fácil.  o mundo não me impactava tanto. deixei de acompanhar o jornal, parei de ler as notícias, e moldei um universo paralelo.

só agora reconheço a minha falta de chão.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

realidade inventada

difícil mesmo é enxergar ar ruas como elas são.

sábado, 15 de dezembro de 2012

nosso

sua pele, verso meu.
seu corpo, paisagem minha.
sua voz, cifra.
seu amor, minha morada.

sábado, 8 de dezembro de 2012

dá medo

dá medo de pisar em terra firme. dá medo do tanto que o chão é real, e não deixa escapar nada aos olhos. dá medo de chegar amanhã e faltar o dia seguinte. dá medo dos planos que fiz para o futuro que ainda não aconteceu. dá medo de que não seja nada disso que pensei. dá medo de acordar sem o sonho guardado debaixo do travesseiro. dá muito medo de ter que abandonar a estrada.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

encontro marcado

os nossos encontros sempre caem nos sábados, nestes dias que a gente não tem previsão de partida, nestas noites que pouco importa o correr do relógio.

os nossos encontros sempre vão parar na sombra daquela árvore debaixo de todo o verão, é o contraste, é a vida acontecendo diante da gente, enquanto nós nos ancoramos nas retinas um do outro.

os nossos encontros remam para o alto-mar, lá onde a água salgada é a única imagem em torno do nosso pequeno barco, e a gente não se cansa de seguir adiante, apesar de todo o oceano.

os nossos encontros acontecem bem antes da hora marcada pra gente se ver, logo após a despedida já começamos a longa espera pelo próximo instante de realidade.

sábado, 1 de dezembro de 2012

vôo humano

as grades são invenções humanas. as asas não. mas ainda assim os homens não desistem de incorporá-las ao próprio corpo. e eu juro que existem homens que voam, bem mais alto que os pássaros cheios de asas.

casa comigo?

negou enquanto pôde a vontade de trocar alianças. inventou distâncias, desenhou objetivos pra além das fronteiras, pagou as próprias contas, mostrou-se independente, e quando ele chegou automaticamente desfez toda a maquiagem de mulher solteira. olhava para aquele homem e enxergava o ano seguinte, e o seguinte, e o seguinte... cada dia ela colocava uma dose maior de futuro nos dias de hoje. chegava até a entortar o pescoço só pra ver passar uma mulher com uma vida prestes a nascer em seu ventre. justo ela que não queria ser mãe do próprio filho, justo ela que dizia adotar pessoas pelo mundo afora sem precisar de uma pra chamar de sua. outro dia se viu construindo uma vida com endereço fixo nas contas de luz, debaixo do mesmo teto dele, compartilhando o mesmo edredon, com escovas de dente no mesmo banheiro. a questão é que agora que ela assumiu, a altura do prédio parece aumentar a cada dia que passa, proporcionalmente ao risco da queda. agora ela se vê subindo as escadas, e os degraus vão desaparecendo a medida que se sobe os andares. não dá mais para descer.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

desafio.

difícil tarefa essa de escutar ao outro sem escutar a si mesmo.

sábado, 17 de novembro de 2012

conselhos

a vida tem esse poder, de nos embriagar sempre. mantenha-se embriagada, com a sobriedade necessária para dar firmeza aos passos em meio a cordas bambas. hoje brindaremos à nossa loucura permanente pelo amor! e desculpas são dispensáveis. não pare de usar aquilo que lhe faz sentido. e que bom que o nosso encontro nos traz trocas tão bonitas. daria até pra colocar entre molduras. você sabe, você pode desaguar sempre em mim. a gente morre mesmo um pouquinho quando chora, mas é importante cuidar da lágrima que cai, porque se não ela volta cada vez mais forte, tal qual tempestade. é preciso cuidar muito da gente pra não nos doermos tanto. talvez ele não tenha ido embora, talvez você se abandona com tanta frequência que falta você na relação. é você quem se rejeita, antes mesmo dele.


terça-feira, 30 de outubro de 2012

respir(ar)

preciso pendurar você nas varandas dos versos meus, pra gente ter mais ar. preciso deixá-lo por um tempo, porque dá medo do tanto que eu posso amar você sem nem mesmo ter construído a nossa moldura. é melhor eu recuperar o folêgo e deixar você em um intervalo tal qual reticências prontas para a próxima fala. estava mesmo precisando vir por aqui e esvaziar-me de você. preciso deixá-lo nas palavras que aqui se congelam. é que mantê-lo cá dentro de mim me faz pintar o mundo todo outra vez. e pra ser sincera, as vezes confundo as cores.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

crime sem voz

a pena é o silêncio do crime. o conflito não tem voz, fica debaixo do tapete por um bom tempo, até que a pena acabe e o crime ganhe voz novamente. é o homem que segura a arma, mas o tiro é coletivo. ninguém mata sozinho. para encontrar outras vias para além do crime, é preciso pensar no plural, sem a culpabilização individualizante. responsabilização sim, mas alvo sem contexto não. o crime precisa vir a tona, precisa falar da sua própria história, pra desfazer os nós, pra, só então, arrematar outros nós.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

teorias do nosso amor

não achava que era como diziam por aí. o amor não começava com data marcada, o amor tá na gente desde sempre, só que de tempos em tempos, a gente personifica o amor, e entrega uma quantidade maior pra alguém. o amor também não acaba, não há data de validade pra sentimentos assim. o amor se transforma, até que um dia ele muda a imagem guardada entre as molduras do porta retrato.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

versão dos fatos

deixei que ele me contasse sua história sem interrupções, não fiz perguntas, pois interrogações traduzem aquilo que nos falta. deixei que ele contasse a própria versão dos fatos, sem questionamentos buscando acrescentar curvas. era ele quem decidia o recorte, cabia a ele indicar qual direção, só ele poderia escolher a moldura do quadro que se pintava. a história era dele, e não minha.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

foi assim que me apaixonei...

enquanto você me abraçava, eu me encolhia pra caber milimetricamente no seu abraço, e tentava encaixar os espaços ainda resistentes, pra caber inteira dentro de você. foi muito bonito descobrir que por toda a madrugada você me fez do tamanho seu, construindo espaços pra dois. enquanto a noite me contrariava se tornando manhã, eu retardava o tempo com olhos atentos ao nosso encontro de peles. o diálogo dos nossos corpos foi permanente, e não houve um só instante em que a minha pele não encontrasse a sua, ora por desejo, ora por retribuição. sentir-me envolvida por muros de poros tão firmes, trouxe em mim vontades plurais, de morar entre as paredes dos braços seus. obrigada por deixar saudades em mim. obrigada por começar outra história.

sábado, 29 de setembro de 2012

estações indefinidas

o inverno traz em si a vontade de ser verão, quando a gente se esconde debaixo do cobertor em plena madrugada embrigada de lua cheia.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

beleza antecipada

nossos encontros são lindos, mesmo antes de acontecerem...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

das estrelas que são nossas

constatou então que: as estrelas não somem nunca, mesmo em tempos nublados como os de agora. uma vez vistas elas passam a morar dentro da gente, e apesar de não visíveis pelos olhos, são visíveis pelo coração.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

castelos de areia

quando criança brincava de sentar na areia e construir mundos que se desfaziam com as ondas do mar. desde criança percebia que mesmo as construções mais altas e firmes também desabavam conforme fosse a força dos ventos. percebia também que mesmo quando a areia voltava para a sua forma inicial, os castelos permaneciam na imaginação, e que ainda que não se fizessem reais diante dos olhos, eles continuavam existindo em outros espaços.

domingo, 23 de setembro de 2012

prisão em liberdade

acabei de ver uma entrevista de um juiz federal, que atua no Mato Grosso do Sul. ele trabalha confiscando bens obtidos ilicitamente pelo tráfico. para ele, vivenciamos hoje a 3 Guerra Mundial, porém sem um inimigo declarado, o que dificulta o fim do conflito. há anos ele só anda escoltado, e a última viagem que fez a passeio foi em 2001. ele conta que já não tem vida social. chega sexta-feira a noite do trabalho, e só volta a ver a rua na segunda pela manhã. questionado se acredita que um dia poderá se ver livre da escolta, ele responde que nunca, que já não tem condições psicológicas de abandonar esta proteção. ele tem um livro, no qual ele relata os pesadelos frequentes. a maioria são cenas dele fugindo da escolta, pulando o muro da própria casa.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

caminhada diária

e daí que tiramos os sapatos, e deixamos os pés comunicarem os caminhos conforme as curvas iam pedindo. tudo bem que algumas curvas traziam risco maior de abismo do que de vôo, mas apesar do risco, seguimos, e não tiramos os pés do chão. é bom caminhar assim, com os pés colados em terra firme, isso de flutuar é ilusão, e toda ilusão é distante demais da realidade. então, de tanto seguirmos, chegamos em uma casinha descascada de sol, com meninos correndo em torno dela, com o corpo cor de terra vermelha. a senhora, que na janela estava, acenou pra gente em tom de convite, e nós paramos pra regar o corpo com água bem gelada. a senhora de rugas nos olhos nos perguntou pra onde iámos, e nós, sem pensarmos muito, respondemos que, apesar de endereços, não nos era possível determinar a chegada, nem o destino, nós só queríamos caminhar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

quando a pele nos conduz

falavámos objetivamente de amor, cada palavra soava tal qual frase soletrada, de tão objetivos que éramos. falavámos a medida que o amor acontecia entre a gente, davámos nomes àquilo que a pele dizia. as palavras nos conduziam, e a medida que a gente traduzia o corpo, o corpo traduzia as palavras. assim foi, mas agora é diferente, tanto ele já não é o mesmo, quanto o tempo das letras acelerou. agora a gente fala de amor subjetivamente, a gente é o amor estampado na fala. antes mesmo do amor acontecer, ele já existe nas nossas conversas. agora é o inverso. se antes era escolha, agora é atração.

explosão

e que todo o nosso cuidado nos seja perdoado, e que de agora em diante a gente possa tropeçar no próprio medo encravado na sola do sapato. a gente se assusta mesmo quando se vê diante de anos a frente com alguém que acabou de chegar. você, que apesar de desconhecido, atropela as etapas da relação, e faz explodir antes mesmo de existir espaço. eu deixo, finjo não saber as consequências, na verdade, não sei mesmo, mas a experiência nos remete ao amanhã, mas desta vez, eu prometo, eu deixarei o futuro ser nosso.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

racionalidade do crime

o crime é então a morte do inimigo, é a morte do superego, o inimigo interior. o crime é a tradução da vitória do instinto sobre a lei externa. por isso há que se destacar que o crime é humano, parte de instintos humanos. nesta lógica, os inimigos são parte necessária desta construção, pois o indivíduo existe na medida que trava uma guerra com um semelhante, desenhado como rival. ao inivíduo cabem todas as qualidades, enquanto ao inimigo restam as negações daquilo que habita em si mesmo. para o indivíduo, o inimigo é irracional, o inimigo é transformado em animal, em patologia, e quanto mais abstrato o inimigo for, maior ele será, perdendo os limites da concretude. o inimigo é o próprio indivíduo em outro corpo. é a prova concreta daquilo que não se aceita em si mesmo. é o estilhaçamento do espelho. mata-se a si mesmo no outro. a arma apontada atira contra si mesmo. assim, o indivíduo se faz vítima, e colocando o outro enquanto inimigo justifica a violência, transpondo-a do superego para a realidade.

domingo, 2 de setembro de 2012

necessidade básica

para a sua primeira casa levou boa parte da sua história nas letras dos discos de vinil cifradas de rock, guardava as músicas em ordem alfabética pra facilitar o encontro do desejo com a voz do cantor, isso era quase tudo o que tinha na casa, e a princípio, me pareceu muito suficiente.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

corpo que me pertence

escondia-se por trás dos panos coloridos, das estampas chamativas, do girar das saias, do choque dos tons, até pintar outras cores, fazendo sobressair o tom da pele, as roupas se tornavama adereços pra um corpo atraente por si só, não se tratava de curvas bem definidas, mas da posse do corpo. abandonava o esconderijo que a exibia. agora refletia-se no próprio espelho, não daqueles que nos evidendiam imagens, enxergava-se num espelho traduzido pelas retinas. eram os olhos a fonte de revelação.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

silêncio do corpo

antes a dor, que a manipulação da pele. os remédios reprimem aquilo que o corpo insiste em falar, e se você quer saber, silêncio não quer dizert ausência de palavras.

domingo, 26 de agosto de 2012

família

parentes são um pedaço do mundo que a gente pega emprestado pra chamar de nosso.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

a sua versão dos fatos

pra escrever sua história preciso guardar meu coração por um tempo, tirá-lo do peito e colocá-lo dentro de um intervalo. pra escrever sua história, você precisa parecer desconhecido pra mim, pra que eu possa questionar aquilo que você construiu como óbvio. pra escrever sua história eu não posso ser apenas ouvinte, eu preciso conjugar os verbos. pra escrever sua história eu não posso tentar ser você, é fundamental que eu continue observando-o do muro ao lado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

história de vida

aos poucos me visto com roupas que não são as minhas, cuidadosamente curvo o meu corpo para sonhos que não são só meus, lentamente escrevo uma história que também não é minha, mas nossa!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

retrato

ela, menina que ao menor sinal de tempestade já ergue o maior dos muros, tal qual fortaleza. nas costas ela veste asas de gavião, que de tão fortes daria até pra morar dentro do seu vôo.

sábado, 11 de agosto de 2012

desejos de cada tempo

naquele lugar o tempo diminuia a medida que a chance da morte aumentava. às crianças eram dadas todas as possibilidades de vida, assim como aos adolescentes, que transitavam entre a infância e a juventude. aos adultos se concediam dias contados de uma história já planejada. aos idosos restava a contagem regressiva. o passar de cada página do calendário retirava do indivíduo a possibilidade de dúvida, como se o envelhecimento trouxesse certezas, e como se não existissem curvas ao longo da vida. a morte não pode demarcar o sentido da nossa caminhada, a decisão de ir pro sul ou pro norte deve se associar ao desejo que sobressai agora, e não ao tempo que se passou. o homem precisa manter a pele enquanto estiver com os pés na estrada... 

domingo, 5 de agosto de 2012

o passado de hoje

reli a sua carta numa madrugada dessas que a gente revira a poeira escondida no fundo das gavetas, encontrei lágrimas suas manchando o papel arrancado do caderno, acho que nos é complicado compreender a vida ao mesmo tempo que a vida acontece, o passar dos dias nos rega com peças antes desencontradas do quebra-cabeça, a lógica sempre existiu, mas a venda nos olhos insiste em nos perseguir quando estamos no tempo do aqui, agora, olhar pra trás, quando já estamos no futuro, guarda um quê de sabedoria, estando fora do momento é possível respirá-lo sem misturar o corpo, as ondas começam a compor a paisagem de um lugar de maré tranquila, é algo assim, ao reler a sua carta eu percebi o quanto também fui culpada dos nossos incontáveis últimos dias, chego a pensar que não era você o ciumento, mas eu a inconsequente, que apesar de todo o amor declarado, ainda buscava sua atenção por meio da cólera da posse, eu me exibia para os outros, para alcançar seus olhos que já me alcançavam desde então, a insegura era eu, não você, ainda dá tempo se eu quiser voltar?, não, você responderia, mas por aqui sobram amanhãs, eu ainda tenho esperança, mas não ouso deixar você se quer desconfiar, pois o futuro ainda não aconteceu.  

sábado, 4 de agosto de 2012

seria possível?

e se todos pertencessemos a um único país,
e se a gente parasse de competir com fronteiras inventadas,
e se interrompéssemos o levante de muros e cercas das falsas propriedades,
e se focássemos nos seres humanos que todos somos, cá ou acolá,
e se o mundo se voltasse para o bem-comum e percebesse que a fome que assola o outro continente é responsabilidade de todos,
com poucos pincéis poderíamos desenhar um novo mapa mundi, sem contornos, sem divisões de riquezas, é mesmo vazia a acumulação dos cifrões, principalmente em tempos comos os nossos. afinal, respeitadas as diferenças, somos um povo com necessidades comuns.

terça-feira, 31 de julho de 2012

relatos da vida real

contava-me sua história de ausências, contava-me porque eu perguntava, não havia ali desejo algum de mudança, era tudo por força de lei, pra além do pacto social não existia estrada, e eu continuava com as minhas interrogações, com a ilusão de incluir curvas no amanhã, acontece que tem passado que escorre até chegar no futuro, e alcança os dias que se seguem, mas eu continuava fazendo perguntas, mesmo que eu nem imaginasse as respostas, ouvia os relatos da vida real, e em seguida voltava pro meu quarto cheio de varandas, estou farta de escrever as histórias, sinto-me exausta de idéias presas em papéis, há que se reiventar o mundo, e acabar com a reincidência das faltas, é preciso esboçar sentido neste fluxo que faz do menino uma marionete do Estado, o menino tem que participar, e não simplesmente obedecer.

quero que você vá, mas quero que volte...

te dou impulso, abro a porta, imploro pra você ir embora, mas o menor sinal de partida destrói as minhas certezas. acho que não dá pra ver você seguindo sem ao menos olhar pra trás...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

imortais

gostava de guardar o mundo inteiro dentro de álbuns. os olhos ficavam afoitos demais com as possibilidades de imagens, então ela congelava instantes pra poder olhar quando o corpo assim pedisse. podia então ver um pôr do sol durante a madrugada, poderia passear pela costas nuas dele mesmo em sua completa ausência, dava até pra abraçar diariamente a mãe que não via há tempos. as fotos guardam vivos os sentimentos, as pessoas se tornam imortais quando fotografadas pelas retinas de uma camêra.

história inacabada

ele não gostava de estampas, vestia-se de cores inteiras que não se misturavam. ele guardava na pele quase toda a maciez possível, e de vez em sempre, deixava escorrer lágrimas por consequência do amor que não cabia dentro do peito. trazia no corpo a delizadeza do arrepio em cada toque, descobria-se a medida que se apaixonava. a primeira namorada foi também a primeira dor. ele e ela ainda eram muito jovens, e apesar do coração, pouco sabiam dos próprios poros. reprimiam os sentimentos ainda desconhecidos, e explodiam um pro outro como sinal de fidelidade. ele gostava de quartos, ela de varandas. ele tinha loucura por ela, gostava de cada pedaço que a compunha. foi por causa dessa mesma loucura que as batidas começaram a rasgar o peito, e ele adoeceu de um mal sem cura. a memória o traía a todo instante. ele querendo respirar, e ela aparecendo incansavelmente diante dos seus olhos. ele não resistia e cedia aos encantos dela, mas quando se dava conta: miragem. decidiram se separar, seguindo a receita médica. sabiam do risco das histórias inacabadas, reconheciam o perigo da sombra. e assim foi feito. hoje, após cinco anos de distância, ele e ela ainda existem. não se sabe dizer se o futuro ainda os reserva ruas comuns, mas ele e ela ainda se estranham por existirem no mesmo mundo, e ainda evitam habitarem o mesmo endereço.

domingo, 22 de julho de 2012

amor declarado

em meio a tanto amor, nós dois. dava até pra fotografar o sentimento. enquanto você se declarava, eu colhia palavra por palavra, e as guardava na caixinha de boas lembranças. foi bonito ver que eu morava dentro de você, e o melhor foi descobrir a nossa varanda de cara pro futuro. até o próximo pouso!

sábado, 21 de julho de 2012

retrovisor

ao mesmo tempo que sigo, eu interrompo a caminhada. é insuportável aceitar que de todo o edíficio construído, reste apenas a lembrança traduzida em cimento pronto pra gestar novas formas. é inaceitável concluir que o amor, antes visto a olho nú, agora exista apenas na memória. é no mínimo intragável aceitar que outro alguém possa ocupar um espaço que eu ainda não desocupei. eu sei que nós já não existimos, mas como explicar o início das rachaduras com paredes tão firmes como as nossas? é mesmo muito difícil abandonar o barco de uma viagem que você ainda não acabou de fazer, a gente continua remando, apesar da falta de porto.  

quarta-feira, 18 de julho de 2012

falar do outro é falar de mim

e quando me contava a história do seu amigo, criava então, a própria moldura. falar em terceira pessoa pode criar a sensação de distanciamento do fato, mas, invariavelmente, aquele que o conta se inclui nas palavras que escolhe. se engana quem pensa que aquele que muito diz do outro, pouco diz de si mesmo. a gente está aí, escancarado. e quando a gente lê o mundo, o mundo também nos lê.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

colheita

a medida que o trem seguia, cada estação era tanto encontro, quanto despedida. o caminho de ida, era o mesmo caminho de volta. o primeiro beijo dos cílios se fazia tanto começo, quanto fim. ao mesmo tempo que se pensava caminhar, também se retornava ao ponto de origem. eram círculos permanentes. do futuro se avistava o passado. por isso, era sempre tão importante cuidar das sementes de cada dia.

terça-feira, 10 de julho de 2012

você depois de seis anos

dá uma curiosidade, sabe? queria saber como é você adulto, vestindo o mesmo corpo de antes, usando o mesmo sorriso, penteando o cabelo como naquele tempo, e escrevendo na mesma velocidade de sempre.

cercas de ilusão

as cercas contornando as posses, o dinheiro comprando territórios, o homem se apropriando do objeto. acumulam-se os pertences, ao mesmo tempo que alimenta-se a ilusão de pertencimento. incorpora-se a idéia de que aquilo que é meu, não pode ser do outro, e que desta forma, o outro não teria direito àquilo que é meu. primeiro a compra, depois a posse. ideologia. não há posse de fato.

eu queria estar viva quando as casas se tornassem públicas, e a gente pudesse percorrer o mundo, um pouco assim, sem endereço. faríamos casas sem muros, sem grades, sem cercas elétricas, sem chaves. seria responsabilidade minha o bem-estar do meu vizinho. seríamos coletivo e a vida aconteceria menos entre quatro paredes. daríamos bom dia, e nos sentaríamos todas as manhãs em volta da mesa, bem onde a sombra esqueceu de pousar.  

sexta-feira, 6 de julho de 2012

fragmentos de uma manhã azul

a experiência altera as lentes. acredita-se menos. será pessimismo ou realismo? o virar das páginas muda a primeira palavra engo(lida). a prática transforma mais que a teoria. os jornais nos poluem com o seu excesso. as viagens nos aliviam. os beijos nos dão fôlego, não todos os beijos, mas os beijos dele. os encontros são também despedidas, e as despedidas também são encontros. não sei bem se existe algo que fica, não sei se existe algo que se vai. concluo então que...

pintura real

os dias de céu azul proíbem as janelas de esconderem as cores, dias assim me vestem com os panos de primavera prontos pra dançarem com o vento que chega descaradamente debaixo da saia, dias azuis são promessas de madrugada de lua cheia.

terça-feira, 3 de julho de 2012

sentidos

os olhos de um cego são olhos sem memória,
já a pele de um cego é preenchida de muita história.

dos relógios que não marcam o nosso tempo

estou desconfiada do meu relógio, ele insiste em caminhar devagar, os ponteiros custam a marcar a hora certa, estou desconfiada que os minutos não são feitos para todos, e que o meu tempo é marcado pelos ponteiros expostos pelas esquinas da minha pele.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

eu quero enfeitar você

e quando você me olha, o que você vê? peraí, me empresta seus óculos? deixa eu ver também pelos seus poros? quero tentar descobrir o que você enxerga quando abre o portão de casa e dá de cara com o mundo inteiro. quero saber o que a sua pele sente, quando, nos encontros marcados, abraça a minha. quero entender o que você pensa quando não há nada para se pensar, quero saber pra onde sua mente vai. quero saber porque você escolheu o tênis preto, com listra branca, pra decorar a sua vitrine. quero saber o que você sente quando me beija como se eu fosse de porcelana. ta aí, quero entrar em você, abrir suas gavetas, destrancar seus armarios, preencher suas prateleiras, e pintar suas paredes.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

conclusão.

você pedindo pelo meu romantismo, e eu querendo a sua razão. acho que vai dar em equílibrio.

terça-feira, 19 de junho de 2012

encomendas

nesta sexta, podemos comprar pedaços de céu e fazermos de colchão madrugada afora, dá pra comprar também fatias de beijo, com sabor de cereja. vou pedir pra embrulhar tudo em papel cetim, só pra você confundir o mundo com um presente meu.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

páginas de um livro bom

lembrar você é como folhear páginas de um livro bom. enquanto ainda o lia, esperava, de alguma forma, a brevidade da última página. lembrar você dá a sensação de história acabada, mas cuidadosamente rememorada.

domingo, 17 de junho de 2012

racismo explícito

hoje, enquanto eu esperava o ônibus, um homem deu o sinal para o 8106. o motorista parou, e quando o viu, seguiu em frente, não o deixando entrar. pequeno detalhe: o homem era negro. aconselhei-o a manifestar o ocorrido, pois manter o silêncio era como dizer que coisas assim não acontecem. ele preferiu não fazer nada. talvez ele viva isso com tanta frequência que chegou ao ponto de acostumar, quase acreditando na coerência do motorista.

terça-feira, 12 de junho de 2012

agradecimento

despertou para o desuso das armas compradas nos últimos tempos. defendeu-se como pôde das frases que acabaram antes dela pontuar o final. compreendeu então a composição natural da sequência dos dias. por um lado era bom a gente poder ir embora quando o corpo assim pedia, ainda que do outro lado restassem poros abertos. a estrada sem destino perdia o sentido, nem dava vontade de caminhar. pensando assim, ela agradecia a despedida, apesar de conturbada. agradecia pela despedida ainda em tempo de seguir sem olhar pra trás. agradecia. agradecia muito.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

ô trem bão

homem de chapéu fazendo sombra nos olhos, com o cinto de fivela grande apertando e destacando a cintura, calça rente ao corpo contornando a pele, blusa xadrex completando o figurino, conversa ao som do interior bem distante das grades gramaticais, sertanejo de raíz cifrado na sanfona que povoa as noites de lua cheia, homem de fala literal, confundida com grosseria, homem que de tão bruto se desmancha inteiro pra falar de amor.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

caminho da roça

cheiro de boiada atravessando o pasto, pés descalços pintados de terra vermelha, galhos fazendo trilhas até a manga mais alta, sombra da árvore no ápice da montanha, um mundo inteiro pra se enxergar do ponto mais alto, charrete pra chegar na cidade, sol dando bom dia no mesmo instante que se produz o leite, café na caneca descascada com broa de fubá, capina debaixo do calor pro almoço vir da terra, almoço com a família em volta da mesa, varanda transbordando a lua cheia, noite de pouca luz na terra, mas muita luz no céu, sono ao som da natureza embriagada de si mesma.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

beleza emoldurada

quanta gentileza a dele em deixar os fios contornarem a nuca, quanta delizadeza em deixar a barba colorir a pele, quanta beleza misturada nos panos amarrotados pelo desuso guardado nas gavetas, vê-lo atravessar a rua pela janela do ônibus é feito retrato pronto pra ocupar a primeira janela do mundo.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

ainda não acabou.

e mesmo os melhores beijos, todos eles, não eram dele. e por mais bonita que fosse a história, ainda assim, não era com ele. tão difícil isso de continuar uma relação que já não existe, e manter os planos sem qualquer fresta de amanhã.

terça-feira, 29 de maio de 2012

dos times que os poros sentem

trocar de time é como trocar de pele.

domingo, 27 de maio de 2012

tempos modernos que não são meus

os cantores não criam letras, eles reproduzem o cotidiano nas cifras e emprestam os olhos para as músicas. o funk não é invenção de um autor, ele é retrato, é a expressão de um povo. cantar alivia, porque se diz sem autoria. só peço cuidado para as palavras ditas sem remetente. estou com dificuldade em escolher a minha trilha sonora. o meu paladar tem alterado os sabores dos sons, e meu corpo parece não reconhecer certas composições. dançar não é mais inevitável. eu me perco na fronteira. acho que estacionei num tempo de amores pintados em praças, e não consigo me adaptar a casualidade dos amores de um dia só. acontece que as músicas me deixam invisível, e o que busco não encontra terreno fértil. e eu que sou toda feita de pele, torno-me insensível aos discursos contornados de modernidade.

terça-feira, 22 de maio de 2012

que se multipliquem as Xuxas!

enquanto imperar o silêncio a sensação de que nada acontece continuará prevalecendo. se hoje existem mais denúncias de violência doméstica não é necessariamente porque um número maior de mulheres é violentada. a medida que o assunto é debatido, e que o Estado cria formas de garantia de direitos e proteção à estas mulheres, as denúncias também aumentam. agradeço imensamente pelo depoimento da Xuxa, ao abrir as cortinas de uma janela que pouco se revela. o abuso sexual contra crianças e adolescentes é muito comum, ao contrário do que se pensa. porém, enquanto este assunto for mantido como segredo, nos porões da culpa, pouco poderemos avançar.

domingo, 20 de maio de 2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

espaço

neste mundo nosso há espaço de sobra pra eu me esticar inteira, sem faltar qualquer pedaço, dá pra respirar sem faltar fôlego.

terça-feira, 15 de maio de 2012

nada é absoluto

em toda verdade há um quê de mentira

terça-feira, 8 de maio de 2012

recado

no passado não cabem rasuras

segunda-feira, 7 de maio de 2012

a primeira vez depois da última

enquanto eu não deixava o samba morrer, você guardava seu corpo entre os cantos da cadeira, eu me exibia inteira pra você em curvas vindas da música que me transbordava, você me via, e eu refletia, seus olhos custavam a encontrar os meus, você me contou do risco que corria ao espacar, ainda que por segundos, um passeio pelas minhas retinas, você que se dizia fogo, mas tinha medo de soltar faísca, movido pelo falso desejo de ver a lua, você me convidou pra respirar com um pouco mais de liberdade, eu te contei que a gente não precisava ir tão longe, que eu gostava mais dos destinos próximos, então misturamos nossos cheiros, eu querendo a sua poesia, e você sugando os meus instintos, você me contou segredos que eu nunca ousei revelar, e por mais que você me concedesse a fala, eu não conseguiria continuar a frase, fiquei ali tentando, em vão, apagar o seu incêndio, mas não haveria água suficiente, não sei ainda porque não entrei na fogueira, acho que foi por receio de me queimar.

domingo, 29 de abril de 2012

contador de histórias

enquanto seus fios se enrolavam em torno dos cachos, você se desenrolava nas histórias de outrora. com pausas ritmadas, você dava tempo do corpo voltar lá atrás e sentir a experiência outra vez. contava os dias de ontem com detalhes de quem usa lupas no lugar de lentes. você realçava os contornos de simplicidade da caminhada cotidiana. nenhum dia era como um dia qualquer. você não permitia. e não era porque a sua estrada era povoada, era a sua pele que se fazia extensão dos outros. ouvindo você dava pra entrar dentro da história, correndo sérios riscos de confundir a história contada com a história vivida.

sutilezas

não era tanto o lugar, mas o cheiro. não era tanto o endereço, mas as pessoas. não era tanto a pintura, mas a moldura.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

cheiro embrulhado

foi injusto, apesar de bonito, você ter me deixado o seu cheiro embrulhado. quando abri o presente senti o seu perfume em torno da minha moldura, você se concretizava bem ali, a olhos nús, eu te abraçava nas mínimas possibilidades de realidade. cheiro não é presente que se deixa pra qualquer um, principalmente quando não resta nenhuma fresta pra qualquer dois.

domingo, 22 de abril de 2012

histórias possíveis

entre tantas histórias possíveis era difícil escolher uma pela aparência que lhe vestia, de longe todas surgiam atraentes, pois contadas por meio de palavras selecionadas surgiam por detrás dos palcos feito realidade, mas tais mentiras já não me convenciam, e o beijo parecia pretexto pra dar conta do personagem.

corda arrebentada

desde que soltei a corda, descobri que na verdade eu a havia amarrado em mim e já não existia vontade de segurá-la. ficara então presa como se fosse desejo, mas era mesmo contorno de insegurança e grades fora de contexto.

terça-feira, 17 de abril de 2012

médica e paciente de mim mesma

carreguei-me no colo com toda a delicadeza que me cabia, abracei-me inteira, cuidei de mim até a noite alcançar o sono e assim por diante, respeitei-me em cada vão momento, em cada dor que corria dos olhos, ouvi lamentação por lamentação, dediquei-me exclusivamente a me dar todo o carinho necessário, fui paciente de mim mesma, só tenho a agradecer a mim por todo o companheirismo e compreensão neste momento.

domingo, 15 de abril de 2012

poder da palavra

o domínio da língua pode funcionar como domínio dos homens.

ausência dele

as vezes a ausência dele me dói tanto que não consigo segurar meu coração, ele me escapa entre os dedos, e se desfaz em tantos pedaços espalhados pelo chão que demorariam vidas inteiras pra cicatrizar.

sábado, 14 de abril de 2012

você por mim

eu te entendo tanto meu bem, a nossa história não foge da gente, não adianta tentar seguir sem ajustar o relógio aos passos seus, a nossa infância sobrevive até depois da chegada das rugas, a gente não esquece, nem poderia, sei que é assim com você também, sei que você criou armas pra deixar a paisagem um pouco mais bonita, quanta ilusão, bastaria a primeira lágrima pra desmanchar toda esta pintura, você se defende tanto, que se defende de si mesmo, dos próprios medos tão desconhecidos, você não se enfrenta, porque sabe que há poeira demais escondida ao longos dos seus 20 e poucos anos, aceitar a estação seja ela qual for não é sinônimo de saber viver, assim você se perde, deixa de ser autor, pra ser personagem, aí você corre, frenético, impede qualquer segundo de silêncio aumentando o som da música que fala por você, você acelera pra não deixar sobressair a sua desmedida ausência, você quer estar nos quatro cantos do mundo, mas de fato não está se quer em nenhuma esquina, você não existe, apesar do corpo latente, você não sente a vida a partir dos poros, sua pele se transformou em escudo, e você vomita qualquer possibilidade de desconforto, embriaga-se, é mais fácil assim, eu te entendo tanto, desde a nossa primeira conversa eu soube, falatvam sonhos nas suas palavras, você aceitou a estrada já construída, e não quis suar o corpo pra construir a sua.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

30 dias depois

o amor não termina quando o casal se desfaz (ainda bem), o fim do namoro não acaba tampouco com as relações (alívio), é que as vezes as casas, antes construídas pra dois, podem parecer abandonadas, mas na verdade elas estão em reforma (conclusão).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

natureza emprestada

daqui de baixo parece que a Lua cabe na palma da minha mão, as vezes o céu surge tão perto dos olhos que chego a tentar catar estrelas pra guardar no teto do meu quarto, quando o Sol nasce preenchendo o dia com cores mais vivas que a realidade eu procuro seus pincéis pra tentar pegar ao menos um pra pintar a minha estrada, e quando as flores saem pra dançar e exibem descaradamente toda a beleza do mundo em pétalas, eu me pego desabrochando toda a minha primavera, fico assim, pegando emprestada a natureza só pra ver transformar a semente nos dias fertéis de amanhã.

sábado, 7 de abril de 2012

tons da primavera

costurou-se de cores e saiu pra dançar com seu melhor vestido
esbanjando sua primavera permanente nem precisou de maquiagem
a beleza era ela mesma, contornada de pétalas.


(click meu)

terça-feira, 3 de abril de 2012

alívio imediato

aos poucos fui quebrando tijolo por tijolo, fui abrindo os caminhos, deixando as estradas mais largas, ao ponto de não saber onde é mesmo que se começa e se existe mesmo um lugar onde se termina, deixei o trem passar quantas vezes fosse necessário, até dar vontade de entrar no primeiro vagão e descer na primeira janela avistada, aos poucos consegui deixar o tempo fluir entre o meio-fio que me conduzia invariavelmente para aquela direção, quando senti meu corpo vestido de vento descobri-me inteira, sem faltar qualquer pedaço, no fundo eu sabia que o passar dos dias me traria alívio imediato.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

quem sabe numa próxima colheita?

apesar de madura o suficiente, o tempo da fruta não era o mesmo tempo que o meu.

domingo, 1 de abril de 2012

é tempo de travessia

neste momento de ponte quebrada, antes da passagem pro lado de lá, a gente reage instantaneamente tentando reconstruir e elo, é difícil reconhecer outros caminhos, mesmo existindo muitos deles, a gente insiste na mesma direção, porque depois de um tempo começamos a acreditar que aquele trajeto é único, e que nele residem todas as bonitezas possíveis, mas quando a gente se vê diante de uma ponte não reerguida, começa a caminhar em torno de si mesmo, a gente se torna evidente, o reflexo no espelho causa estranhamento, é que a gente se espalha em demasia no outro, e quando acontece a separação a gente se vê recuperando os detalhes deixados pra trás, cada fim de estrada nos recompõe de maneira diferente, e agora, passados esses dias em que o relógio correu mais devagar, eu me vejo diante de mim mesma, me abraço com toda a delicadeza que me convêm, me curo da dor concretizada pelo corpo, é o momento da travessia, pra dentro de mim mesma.

asa quebrada

passarinho quando quebra a asa não esquece que sabe voar

sábado, 31 de março de 2012

pensamento da madrugada

encher-se demais é um risco permanente de explosão, não há pulmão que suporte tanto fôlego.

quinta-feira, 29 de março de 2012

refluxo de mim mesma

médico nenhum vai te curar menina, seu refluxo é o retorno daquilo que seu corpo rejeita, é a prova concreta do seu desconhecimento da sua própria moradia, você engole, mas não sente, cuidado com as receitas presas em papéis timbrados.

alívio imediato.

sabendo o porquê posso aguentar qualquer como.

quarta-feira, 28 de março de 2012

frase do dia.

"Nunca antes uma coisa, nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me dôo agora, mas ao menos nesse agora eu quero ser como eu sou e como nunca fui e nunca seria se continuasse". Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 23 de março de 2012

crise de abstinência

o grande problema foi beber você nesta velocidade, parecia até que havia o risco de você evaporar, bebi você inteiro em uma dose única antes mesmo da digestão, antes do corpo ajustar as formas ao novo conteúdo, desde então me mantive em estado de embriaguez, a contagem do calendário era sempre a espera do próximo gole, vício, tudo isso pra você me arrancar em poucos segundos qualquer gota sua, me deixando com a boca seca, em abstinência completa da delícia de droga que era você.

das tantas cartas que recebi

oh mari, mas você quem pensa não ter me dito nada. eu mesma já li várias linhas suas. a escrita não é assim tão dependente das palavras postas num papel...

terça-feira, 20 de março de 2012

versão dos fatos

menina, assim você se engana, pois a mentira surge daquele que desconhece a própria verdade, seria então mais adequado concluirmos que nós, talvez, queiramos a verdade em demasia, ou que talvez ainda acreditemos nas verdades em tempos de palcos vestidos de realidade.

presença permanente

tenho a sensação de que estou prestes a encontrar você, logo ali, na próxima esquina, no portão de entrada da noite que custa a passar, na saída da aula, nas memórias ainda expostas, na chegada ao trabalho, no canto da janela, no porta-retrato vazio, nos pedaços de papel em branco, nas cartas não escritas, a qualquer instante, e aí meu corpo procura o seu, em vão, a expectativa é mesmo a morte da realidade, prisioneira que sou das esperanças do caminho já sem volta, tenho dificuldade de sair do trilho sem destino, fico vagando entre espaços sem saída, estou ancorada a um futuro que não aconteceu.

domingo, 18 de março de 2012

angústia do dia

nenhum amanhã é previsível.

encontro urgente

acho mesmo urgente esse encontro, afinal seria leviano nos deixarmos distantes dos olhos em função das fronteiras. talvez pudessemos encontrar um lugar entre a minha vida e a sua, bem no meio, você caminha daí e eu daqui, até chegarmos em um ponto em comum, exatamente naquele espaço onde eu passo a existir a partir de você, e você a partir de mim, naquele cruzamento entre tantas outras direções que poderíamos seguir, e que apesar dos desvios, escolhemos o mesmo destino.

terça-feira, 13 de março de 2012

colar inacabado

um olhar quando entra no mundo do outro abre imediatamente a página do livro. ele tinha cabelos que corriam até os ombros amarrados despretenciosamente, os fios estavam molhados pela chuva, com ele uma mochila já desgastada, a pele um pouco marcada pela passagem do tempo, e uma roupa que denunciava o estilo de vida hippie. as retinas escondidas por detrás dos óculos não impediram o foco na menina que sentava logo ao lado, ela o olhou, ele se percebeu observado, ele a olhou, enquanto o ônibus seguia o seu trajeto os olhos percorriam o mesmo caminho, até que o ponto de chegada avisou o momento da partida, ele então deixou pra ela uma parte de um colar que começara a fazer e a convidou pra terminá-lo no dia seguinte, convite aceito, claro!

domingo, 11 de março de 2012

você não tinha o direito

você não tinha o direito de quebrar as minhas lentes, há pouco tempo as coisas lá fora estavam nítidas, e você não tinha o direito de torná-las embaçadas, o mundo, eu sei, continua o mesmo, mas recuperar as lentes que antes deixavam os dias coloridos não será tarefa fácil, você não tinha o direito de rasgar palavras como se fossem pedaços de papel abandonados no lixo, você não tinha o direito, não tinha mesmo.

decepção

pena que os desejos controlem os homens, e não o contrário.

quinta-feira, 8 de março de 2012

viagem só de ida

pegou seu barquinho de papel e se pôs a remar sob águas montanhosas, remava sem aquele pretexto da chegada, depois de um tempo a areia se transformara em um pontinho amarelo por trás do caminho percorrido, caminho sem volta, não há nada mesmo que volte.

naquele tempo...

naquele tempo tínhamos corpo e idade de adolescentes, mas não o sabíamos, desde as primeiras linhas achamos que já poderíamos determinar as últimas páginas, qualquer curva resultava em pontes remendadas pela não aceitação de qualquer que fosse a outra história, éramos autores afinal, e não personagens, acontece que depois de alguns anos, até o calendário marcar o dia de hoje, aquilo que parecia trágico me arranca um sorriso ainda acanhado, a tragédia é mesmo muito próxima da comédia, você se transformou então em uma lembrança guardada em imagens congeladas no fundo da gaveta, não porque são intocáveis, mas porque depois de tanto tempo elas deixaram de sair do papel e me alcançar nas esquinas do meu quarto, você, enfim, se transformou em um livro sem páginas em branco.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

veredicto final: inocente

não havia culpados, compreender a inocência de todos ao meu redor me tornava parte da pintura da imagem a ser pendurada entre bordas de um passado recente, não se tratava de erros, mas de curvas feitas por vezes em alta velocidade incompátiveis com o nosso ritmo de cada dia, a culpa não podia ser simplesmente de quem atirou a bala, apesar do alvo e direção, erámos todos parte desta guerra contra nós mesmos, acontece que o medo, a incerteza do cais, a vontade de proteção criaram as prisões, inclusive aquelas com grades presas aos olhos, segregaram o homem dito culpado do disparo, acabaram por inventar assim uma arma empunhada à própria pele, classificaram os errantes sem se dar conta do ciclo, puniram então alguns em nome de todos feito manchete de jornal, não resolveram a guerra, a chave do portão não prende os desejos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

eu criei você

acho-o bonito em suas mínimas sutilezas, nos detalhes quase imperceptíveis, nas palavras que você evita dizer, nos gestos que você faz por detrás da porta, acho bonito os olhos pedintes de amor, mais bonito ainda os braços que me contornam inteira, o tom da pele colorindo seu corpo, acho-o tão bonito que acabo por concluir que você só pode ser invenção minha.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

concluindo...

espelhos são gaiolas
liberdade é a da pele
espelhos não traduzem verdades
a mentira está nos olhos de cada um
espelhos mentem
e as histórias acontecem pra muito além de tantas imagens distorcidas

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

lembrança intocável

a sua voz falando meu nome pelo telefone me arrancou da estrada e me levou para um pouco mais de dois anos atrás, não se trata de esquecimento, o que eu nunca consegui, mas voltar naquele tempo me trouxe a sensação de móveis fora do lugar de origem, eu estou andando um pouco torto, quem sabe, mas olhar pra trás bagunça os instantes de linha reta, não sei se a gente supera traumas assim, mas aprendi a acreditar que a gente aprende a lidar com a lembrança, e que quando ela vem contornada de cheiro e imagem nós podemos atravessar o rio até deixá-la desfocada, depois de tantos dias seguidos uns dos outros é triste concluir que a dor continua guardada dentro de mim, e que se ninguém a percebe, incluindo eu mesma, é porque eu a escondi junto às coisas intocáveis, mexer ali causa muita desordem, caos, os meus olhos continuam com seu par de óculos, mas as lentes são diferentes, acho que alguém pintou o mundo outra vez, ou será que eu não consigo enxergar as cores?

domingo, 29 de janeiro de 2012

abraço de cada dia

vontade de abraçá-lo até costurar o meu corpo junto ao seu.



Ilustração: Irisz Agocs

círculo fechado

dentro do mundo da gente liberdade é um privilégio, há quem se diga livre, talvez não saiba bem de quê, dentro do mundo da gente tem muita tradição, é difícil contestar valores consolidados pelos dias sem interrogações, dentro do mundo da gente sobra expectativa, por vezes nos transformam em marionetes do caminho que não se percorreu, dentro do mundo da gente tem muito julgamento daquilo que se pinta como verdade, e se no escurecer das tardes surgir alguém que duvide destas certezas logo se exclui o outro pelo receio de tamanha semelhança, dentro do mundo da gente os homens se reunem em grupos e dizem se relacionar com pessoas, mas os grupos são fechados para outras pessoas, que tipo de homem será este afinal que escolhe pessoas nos caminhos que ele determina pra si?, dentro do mundo da gente tem pouco espaço para outros mundos.

sábado, 28 de janeiro de 2012

inversão de valores

os homens daqui acreditam que a falta de tempo é sinônimo de tempo preenchido, acreditam ainda que o stress no trabalho é a mesma coisa que comprometimento, já chegaram a me dizer que quem muito trabalha quer crescer na vida, ah esses homens parecem tão confusos...

travessia

voltei com a foto dele pro meu jardim, peguei de volta o final da história ainda sem fim, o chegar em um lugar sem saída pode parecer o momento de recuar, mas nem sempre é assim, pode-se atrever em voltar pelo caminho desconhecido, pela corda mais bamba, e que contraditoriamente traz mais firmeza da chegada, chegada que não existe nos caminhos nossos, pois já diria Guimarães Rosa, a gente é travessia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

o outro que não sou eu

imenso desafio este de abrir páginas em branco para deixar o outro escrever a própria história, difícil conseguir abandonar o caderno já preenchido, desconfortável deixar pra trás a forma encontrada pelo corpo, complicado descobrir que as verdades antes incontestáveis podem vazar facilmente pela peneira, maravilhoso compreender que a realidade não é visível pela folha de revista, tampouco pela tela da tv, a realidade não cabe se quer nos olhos, a realidade não existe, o real está contido no tom dos óculos de cada um, a realidade se constrói, e da mesma forma que pode ser assim como eu vejo, também pode ser assim como você vê.

haja coração

era só ele me dar a mão para as ruas se tornarem palco, em menos de um minuto já alcançávamos toda a altura possível em um mundo tão terreno como este, a pele começava a desaguar na outra, os olhos abandonavam a realidade e fechavam imediatamente as cortinas, bastava que o hoje se prolongasse por todos os amanhãs.



desenho: Mel Perete

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

morte do corpo

quando a pele descobrir na brisa que envolve os espaços livres de concreto a sua melhor carícia, quando o despertar da fome se saciar com qualquer pedaço de sabor, quando os olhos abandonarem os espelhos, quando o corpo perder o desejo por outro, quando a matéria deixar de ser possuída, quando o homem enfim compreender a impermanência de todas as coisas, inclusive de si mesmo, quando isso acontecer aí então poderemos seguir adiante.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

de volta pro meu aconhecgo

quando o dia estava prestes a acontecer nós voltamos a caminhar do mesmo lado da rua, o bonito foi perceber que a caminhada depende da nossa escolha, e que se a gente decidir seguir os mesmos passos a estrada não terá fim.

domingo, 8 de janeiro de 2012

é amor.

Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo pra ficar. Mesmo não olhando mais nos teus olhos. Mesmo não ouvindo a tua voz. Mesmo não fazendo mais parte dos teus dias. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. Mesmo não sabendo amar.
— Caio Fernando Abreu

novo design, novos rumos.

trocar o design do meu blog pode soar quase como vestir uma roupa já em desuso guardada na última gaveta do ármario, é quase como chegar ao destino comum seguindo por ruas nunca antes visitadas, é quase como deixar falar frases pouco prováveis até se perceber irreconhecível, é quase como pensar que os caminhos de amanhã podem acontecer na estrada que eu escolher, é quase como um pedido, é quase como sacudir o mundo fazendo desaparecer a poeira esquecida debaixo da pele.

sábado, 7 de janeiro de 2012

pequena oração

que a minha dor seja respeitada em cada vão momento, e que esta mesma dor se dilua com os dias que não querem passar. amém.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

vai passar!

terminar com você me dá a estranha sensação de que a música parou de tocar, qualquer sinal de cifra causa um tormento tão grande que o som é urgentemente silenciado, e pensar nas tantas músicas que lhe dei dentro de caixinhas contornadas de amanhãs, agora se quer tenho as músicas que antes eram minhas, de repente até abrir a janela causa espanto de uma vida que não para de acontecer, o meu quarto se transforma em refúgio, é meu corpo se moldando outra vez.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

fim da estrada

de vez em sempre você vem e fica apertadinho dentro de mim, eu fico tentando encaixá-lo de alguma forma, abrir qualquer espaço pra você, mas eu acabo o expulsando outra vez, é ruim concluir que chegamos no fim da estrada, e que pontes já não seriam suficientes.

segunda despedida

é bom ter um namorado pro verbo amar ter um destinatário certo, ruim é quando todas as suas setas mudam de direção, e sem querer você se atreve a olhar pra trás e percebe que já não há ninguém naquele mesmo lugar de sempre.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

enfim o sol

depois de tantos dias seguidos de um teto cinza, terra molhada, e gotas deslizando pela janela, surgem cores fortes no céu, a grama realça o seu verde, e a varanda fica povoada de poros, me vem então a sensação de raridade, fundamental mesmo é a existência dos opostos, não para se distrairem, mas para se descobrirem essenciais.

domingo, 1 de janeiro de 2012

carta sem remetente

escreveu uma carta sem remetente e a manteve sempre prestes a ser lida por outro alguém, encaixava-se em várias das suas histórias, existiam tantas ruas repetidas, escreveu a carta, mas não soube identificar seu destino, sentiu vontade de voltar algumas páginas do calendário, apesar dos dias de olhos tempestivos, quis voltar só pra sentir o doce da ilusória eternidade, tempo em que qualquer medida cabia em seus trilhos, não importava tanto a velocidade, ou a direção, bastava que fossem dois, depois de alguns anos, de algumas poucas fatalidades, descobrira-se dentro de uma completa finitude, desesperou-se, até o primeiro passo causava medo, percebendo a realidade das despedidas se enganava diariamente com a busca de outros perfeitos para os seus anseios, sofria de insuficiência, porém sabia que o outro jamais poderia ser qualquer uma de suas projeções, era mesmo muito distante de si o outro que se descortinava tão próximo.