segunda-feira, 18 de setembro de 2017

eis que estou flutuando

e de repente, nesse intervalo entre a calmaria e a tempestade, fiz-me ofegante, tal era o acúmulo de sonhos. ficou difícil respirar, parar pra respirar. costurei um amontoado de retalhos de anos atrás em segundos do presente instante, e não coube, como era de esperar. não coube nem o começo da estória que eu queria contar. continuei sem fôlego, e essa falta de ar era culpa da minha mania de me preservar. houve um dia que eu achei melhor evitar essa roda gigante, essa oscilação entre o vale e o pico. achei por bem ficar no plano, naquele pedaço de mundo onde não há risco de cair, tampouco de voar. destruí cada possibilidade de poço, e cortei logo os insistentes restos de asas. segui na linha imóvel do tempo, morei alguns anos numa rede de estabilidade, e guardei meu coração na gaveta. e agora abriram meu baú (com minha autorização), e eu não consigo desviar do risco permanente de minha perigosa erupção. não dá pra fugir de mim mesma, eu tô escancarada, nunca estive tão nua, despiram-me da etiqueta, roubaram-me o bom senso, e deixaram-me com a explosiva liberdade dos ventos.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

amanhecendo

e tudo isso que se constrói pra durar mais tempo que a gente, traz em si a própria rachadura, toda a solidez guarda em si uma fenda, e essas brechas, esses cantos que parecem defeitos, que vez ou outra são escondidos dos olhos (mas não do coração), eles carregam fontes de luz, são enfim a prova de nossa inevitável metamorfose, não é que algo se acabe, afinal não há um fim e um começo com tanta exatidão, você não encontra na linha infinita do tempo o dia em que algo se inicia, é um processo, uma continuidade, é certo que minha vida começou bem antes de mim mesma, e não na data do meu nascimento, meu corpo é tipo um museu de várias gerações, guardo na pele o jeito de sentir dos meus avós, e meus avós, daqueles que eram os seus, e que alívio ou ilusão isso de se pertencer, de não seguir por aí sem um endereço pra falar de amor, sorte é ter um teto pra escolher quando se molhar na chuva, nossa sina é essa, é não ter sina alguma, é não saber o que virá no amanhã, e aprender (quase que engatinhando) como achar o ritmo da respiração quando a onda te engolir, e ao engasgar, encontrar logo um jeito de transformar o sufoco em passagem pra esse novo mundo que sempre há de chegar.

domingo, 3 de setembro de 2017

deixa eu ver sua alma?

{procuro apenas uma alma pra poder descansar a minha, feito aconchego, com sinais de porto, e fendas permanentes de luz}

bússola interna

o mundo girando e a gente deitado na rede só observando o pôr do sol. como se a transição do dia pra noite fosse de tudo o mais importante. e depois, a gente segue com essa bússola que trazemos de berço, e abrimos a porta contornados de intuição pra ver o que mundo tem pra hoje (e só pra hoje). se engana quem pensa precisar de mapas ou roteiros com setas antecipando os caminhos. a alma sabe da sua direção, só precisa se conectar ao corpo, pra seguir o faro da pele.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

quase que era real

imaginação não é coisa que se brinca, e a gente deveria aprender isso com o tempo. pra seguir no mundo de gente grande é aconselhável uma boa dose de controle das fantasias, pra evitar um certo degradê de realidade misturada com ilusão. eu sei que a gente pode até flutuar mesmo de olhos bem abertos com esses devaneios. mas eu repito: é aconselhável manter os pés no chão. isso pra não correr o risco de tornar verdade uma estória cheia de ficção e cair na loucura de acelerar os batimentos por conta da própria invenção. tudo isso é um caminho sem volta. é uma embriaguez sem o milagre da ressaca pra acreditar na cura. não há dia seguinte. as noites se prolongam, continuam, ficam atadas feitos nós, transbordando de delírios que de tanto serem desejados são absorvidos pela pele, pelos poros, pelo corpo. eu assumo a culpa. fui eu que desenhei minhas grades, fui eu que joguei as chaves do lado de fora e entrei sem olhar pra trás, como se não houvesse passado. não foi ingenuidade. foi vontade de acreditar. foi esperança. foi aquela brecha na escuridão. foi o encanto do feixe de luz. foi uma ânsia em dar um contorno pra isso que eu guardei chamando de sonho.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

meu ritmo, minha pena

a mínima possibilidade de você ser o que é, faz de ti exatamente o cara que eu sempre quis que fosse, e isso me trava. o embaraço é por não saber o que fazer com a pintura que eu mesma fiz, e de repente percebê-lo emoldurado nos pinceis meus. desse quadro não me escapa um fio. os instantes em que você se materializou em fotos eu esmiucei como se fossem reais e projetei movimentos seus em dias nossos. você que traz na balança a força do rock combinada à leveza da yoga, equilibrando na balança universal suas potências mais extremas. eu sei que seu passo ainda não alcançou o meu, e esse ainda é por minha conta. mas também sei que se eu tiver que responder pela largada antecipada e pela respiração descontrolada, você se eternizará feito miragem da minha maior promessa de amor.

domingo, 29 de janeiro de 2017

a Barbacena que ainda faz morada

há quem diga que o Manicômio de Barbacena era desumano, pois eu vos digo que fora justamente o ser humano quem o produziu (infelizmente preciso reconhecer que as atrocidades que vivenciamos surgem da mente humana). hoje esse lugar já não existe, mas os pensamentos que o edificaram não se esgotaram com a destruição física e simbólica desse absurdo. há que se inverter a ordem, há que se restaurar a lógica. eu não sei bem o caminho pra chegar nesse mundo que a gente compartilha entre fios de sonhos de um amanhã, mas eu sei que não chegaremos se quer perto se abandonarmos os remos ainda que estejamos contra a maré. - trecho inspirado na peça teatral "Nos porões da loucura"

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

não me deixe só

a solidão de tudo o que (rei)na. do sol que se põe invariavelmente pra lua anoitecer. do abraço sem abrigo. da verdade desacreditada pela fé. do homosexual interpretado pela crença. das prostitutas calculadas em cifrão. a solidão das ideias que não se concretizam. da teoria sem prática. do monólogo sem plateia. do refugiado abundante de passado. a solidão do des(encontro). da ilha. do vale. do pico. a solidão do par de sapato perdido. da carta sem resposta. a solidão das grades. do mundo recortado por fronteiras. a solidão do filho órfão de pais vivos. da vida que sobre(vive) após a morte. do grito silenciado. a solidão de se manter remando contra a maré. de não suportar abandonar o remo. de se descobrir miúdo pra tanta imensidão. a solidão da decisão. texto inspirado na peça teatral 'Theo'