segunda-feira, 29 de setembro de 2008

a beleza estava mais neles que no próprio lugar...

ele disse que eu era uma princesa... eu só fiz acreditar...



enfermagem

- estou pensando em fazer enfermagem. quero saber mais sobre algo que eu realmente possa ajudar, sabe? sinto que sei coisas mais abstratas... quero algo mais prático!
- mas daí você vai querer abraçar o mundo demais
- sim... sempre quis. mas há problema nisso? vejo mais beleza que problemas...
- nenhum problema... mas... é que eu penso que ser enfermeira qualquer uma pode ser... e qualquer uma pode fazer isso... mas você... você tem uma coisa... que só você pode fazer, sabe... eu não sei explicar... e eu acho que só na Angola você saberá...
"Acontece aqui algo de análogo ao que se observa no domínio dos astros. A luz das estrelas mais distantes chega mais tarde aos homens; e antes da sua chegada, os homens negam que ali - existam estrelas."

Nietzsche

domingo, 28 de setembro de 2008

parênteses

Entre eu e a África existem pessoas. Encontrá-las no meio disso tudo faz doer mais do que sorrir. Já no primeiro abraço começa a contagem regressiva e é incrível como o relógio acelera sem nem perguntar sobre a minha velocidade. Matar saudades é impossível. Nessa semana eu reencontrei meus pais. Fui para West Palm Beach, na Flórida, onde minha tia mora. Quando vi minha família atrás do vidro do aeroporto eu corri mais que os pés. Me desfiz num abraço cheio de pele, de mãos, de corações. Foram dias de um corpo só, de um único quarto, de uma só voz. Foram várias as vezes que eu parei para admirá-los, mas as lágrimas chegavam rápido demais e eu logo fazia os olhos perderem o foco. Não consegui disfarçar quando meu pai me parou pra uma daquelas conversas longas. Acho que ele ainda não sabe que cresci, que já sou mulher. E sinceramente eu faço de tudo pra ele não perceber... pra eu poder ter pra sempre aquele colo. Na última noite foi difícil manter o silêncio... eu ouvi cada soluço da minha mãe. Fez sangrar demais dentro de mim... eu chorei baixinho pra ela não pensar que eu sentia o mesmo que ela. Segurei firme as mãos finas dela... pra dizer com a pele que estaria com ela onde quer que eu estivesse. Espero que ela tenha entendido...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

orgulho de você meu pai

Para o menino dar um beijo o pai precisou abaixar. Ele ajoelhou e desfez os degraus: plano. O filho, empolgado com o gol que fez com um goleiro tão maior que ele, saiu correndo e derrubou o pai na grama. Segredo: o pai deixou a bola entrar... porque sabia que isto aconteceria. O beijo atravessou o campo... feito cometa. Deliciosamente o pai abraçou o filho e rolou na terra verde. Som de sorrisos largos. Eu vi esta cena hoje no caminho de volta pra casa e senti saudades das conversas pausadas no fim da noite, das nossas festas regadas à natureza... foi assim que eu percebi que ele sempre estava na lateral do gol esperando a bola entrar. Amanhã será o nosso dia, meu pai!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

folhas de outono

Não sei quem pintou as folhas de vermelho. Será que as gotas da última chuva tinham cor? Sei que quando eu voltei elas já estavam assim: com várias pontas descansando sob a terra. Até no chão elas desenharam... Imagine todas as cores entre o verde e o vermelho. Assim são elas. Matam de inveja as flores da primavera. São as folhas do outono chegando...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

só com a própria pele

Sinceramente eu não assustei quando me contaram que eles trabalhavam de sunga. Fiquei pensando... porque mesmo que a gente veste roupas? Pra fazer parte. Pra estar junto. Pra decorar. Enfeitar. Eles também fazem isso, até com certo exagero. A diferença é que eles sabem tirar os panos quando querem. Eu sei o motivo. E hoje de manhã... tinha música do outro lado da grama, entre as folhas que estão mudando de cor. Eram eles...

Huambo...

Tem uma joaninha dando voltas sob a minha pele... Cócegas! Hoje fiquei sabendo que vou pra Huambo, em Angola. Vou trabalhar num projeto que se chama Cidadela. Vou dar aulas para crianças em uma escola primária. Minha amiga vai para Bié, uma cidade próxima, trabalhar na Escola Professores do Futuro. As cores estão aparecendo. Meu sonho começa a se desenhar... e não é que os dias correm?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

de volta...

De todo o suor ficou apenas gotas limpas. Voltei hoje para Williamstown, após duas semanas em Boston arrecadando fundos. Meu time deveria arrecadar 10.800 dólares, com a meta diária de 100 dólares por dia, por pessoa. Objetivo cumprido. A cada passo sinto aumentar a minha responsabilidade. No fundraising percebi que este sonho já não era mais apenas meu. São várias as mãos que nos carregam até a África. E eu que nem sabia que agradecer poderia ser tão complicado. Eu me via ali com minha latinha na frente de tanta gente... e essas pessoas depositavam em mim a confiança dos passos. Um senhor confiou tanto que doou 150 dólares em uma ação feita numa Igreja, em Somerville. Dentro da Igreja a fé legitima os cifrões. Em uma das missas que assisti nesse domingo eu me emocionei muito. Lavei meu rosto quando tocou a mesma música que eu cantava quando freqüentava a Igreja com os meus pais, em Belo Horizonte. Foram lágrimas no meio de um sorriso largo. É feito brisa sentir tanto orgulho por meus pais. Preciso falar também dos brasileiros com tantas fantasias americanas. Vieram deles a maior parte do meu impulso. Na área de Boston se você quiser você vive dentro do Brasil. A minha tristeza é que essas pessoas sempre vêm para os Estados Unidos em busca de dinheiro. Não me agrada a idéia de movimento por buscas financeiras. Pra mim isto sempre deveria ser uma conseqüência. Mas eu bem sei o sentido da correnteza...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

sem espelhos a gente pode ser o que quiser... ah! quanta liberdade...

menina de chapéu

Clarice não aguentou ficar muito tempo dentro da caixa. Ela viu o dia e se arrumou pro amarelo do Sol. Saiu pra caminhar e enxergar, seguindo os conselhos de um poeta. De chapéu. Este detalhe é muito importante. O chapéu escondia o rosto e só deixava Clarice ver o que estava a sua frente. Já na primeira rua chegou o vento querendo desfazer a toca que a menina havia criado. Pra mantê-la ela colocou a mão em um lado da cabeça e seguiu segurando o chapéu. Mas ventava demais... Então ela tirou a máscara pra ouvir o que o vento queria dizer. Ah... que delícia. Era sobre a nuca e os espaços entre os fios. O vento queria acariciar... Clarice até parou pra sentir. Ficou ali no meio da rua sorrindo sozinha.
queria mesmo era ter nascido índio

recarregando

- será que sou muito complicada para lidar? eu preciso mesmo de mim... tem horas que tenho que parar e me recarregar
- você é tão simples que o mundo te acha complicada
- como você pode me aliviar assim numa frase?

recesso

Preciso de quarto. Silêncio surdo e cego. Sem frestas de luz. Cortinas fechadas. Porta trancada. Telefone desligado e campainha estragada. Incomunicável. Sem letras nem papel por perto. Caneta sem tinta. Vazio pra ocupar todo o espaço da mente. Preto e branco. Escuro. Dia gelado ainda que lá fora faça sol. Eu mergulhada entre cobertores pra dificultar que eu esbarre comigo por aí. Corpo escondido. Meias, luvas e óculos pra não correr o risco de refletir em espelhos inesperados. Desligada. Desconectada. Por favor, peço que não me achem!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

seja na Angola ou no Brasil

Ser humano: não tem raça, nacionalidade, não tem cor, nem extremidade. Ser humano é ser humano aqui ou do lado de lá. No Brasil ou na Angola. Se minhas mãos vão encostar em solo africano não quer dizer que estarei de costas para o povo brasileiro. Uma ação não elimina a outra. Este é um discurso que tenho que fazer quase todos os dias...

olhares

como pode um espelho e uma foto retratarem realidades tão diferentes? e olha que naquele dia eu me olhei várias vezes no espelho... mas sempre que olho as fotos me confundo. talvez no espelho a gente olhe com foco, abusando da imaginação. e a foto... meu caro, é aquilo ali. não dá pra inventar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

alimento pra tanta fome

São tantas as esquinas a se contar que sobreviver nesses dias depende diretamente das palavras. É em frente à tela branca do Word que eu folheio as páginas desse meu livro. Se as palavras não dão as mãos... pode esperar, porque em seguida virá o enterro. Sentimentos sem expressão. Morte! É assim pra mim. As explosões só se concretizam nos textos. Não há declarações no pé da janela que superem a escrita. É o meu pão diário.

domingo, 7 de setembro de 2008

telepatia

o que acontece se a gente se apaixonar antes dos beijos? antes da outra pessoa saber quem a gente é? antes dos tubos de ensaio?
...cá estou eu tentando uma conquista através de pensamentos...

sábado, 6 de setembro de 2008

memória que arde

Me diz: onde eu coloco toda essa minha saudade? Quando eu a despejo nas palavras ela empurra as laterais do meu corpo. Fica ainda mais espaçosa. Egoísta. Querendo arrebentar a pele. Rasga! O estranho é que nestes momentos eu não sinto vontade de fugir, eu cutuco a dor. Escrevo mais dos detalhes que não vejo. Saio correndo atrás dessa ausência... pra deixar algo concreto. E funciona. Minha memória arde por tamanha insistência em trazer as lembranças pra cá. Imaginar faz realizar... eu tenho certeza disso.

mesma temperatura

Preste atenção menino. Estou pedindo pra você parar e me respirar. Sei que agora sou ar pesado, mas sei que você agüenta. Tenho vivido semanas em segundos, sem pausas. À minha frente vejo muitos números. Todas as noites eu chego e faço cálculos. São subtrações. De quantos passos faltam pra chegar lá. Isso explode demais dentro de mim. Ainda bem que a gente pode dormir e entrar em outro mundo que não esse nosso. Se não fosse meus sonhos debaixo dos meus olhos fechados eu não sei se suportaria sorrir. É muita energia em cada pedido meu nas ruas de Boston. Resta pouco pra mim. E eu preciso tanto de mim mesma. São tantas as pessoas a me carregarem. Eu apenas dou as mãos e sigo com elas. Ouvi estórias demais em tão poucos dias. Perguntas atrás de perguntas. Eu ali. Absorvendo tudo. Acabei me esquecendo de enxugar um pouco. Agora estou aqui implorando por um pedaço do seu abraço. Quero me perder entre os braços seus pra que a nossa temperatura possa ser a mesma. Pra assim você me doar um pouco desse seu calor...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

sabor de um grão de feijão

Quando estamos na semana de fundraising nós temos apenas três dólares por dia pra cada um comprar comida e por isso temos que pedir doações nos restaurantes. Esta é a pior parte do dia. É quando eu me encho de certezas e pinto meu rosto com a cor negra da África. É mais difícil pedir comida do que pedir dinheiro nas ruas. Comida é uma necessidade básica do ser humano. Faz parte da sobrevivência. Hoje um homem me ofereceu uma lata de Coca-Cola. Eu disse que não precisava. Ele insistiu. Eu continuei dizendo que não havia necessidade. Por fim ele perguntou: “Você bebe Coca-Cola?”. Eu respondi com um sorriso tímido: “Bebo sim”. Então ele chegou com uma latinha de Coca e outra de suco de limão para a minha amiga. Ele molhando a minha sede assim... eu nem soube agradecer. Nestes dois últimos dias nós pedimos almoço em dois restaurantes. A comida chegou depois de muito trabalho. Que delícia. Sentir o gosto de cada grão de feijão. Tinha outro gosto aquele prato. Sabor de suor, de esperança, de Angola.

eu acreditei, mas e você?

Foi você quem molhou sentimentos sobre as minhas pétalas. Chegou falando de amor como quem fala de uma simples equação. Pensei que plantava sementes dentro de você. Eu acreditei, mas agora já não sei se você fez o mesmo.

a magali

Todo fim-de-semana ela pede uma melancia ao namorado. No guarda-roupa tem dois vestidos amarelos. Assim ela se diz ser a Magali. É muita pureza dentro dessa linda mulher.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

notas sem som

Nas ruas de Boston eu fico criando teorias sobre estas notas sem som. De um caminhão sempre saem tantos números cinco. Das pessoas mais simples é que vêm as maiores doações. Não acostumadas a terem muito estas pessoas conseguem abrir as mãos, chegando até a esvaziá-las certas vezes. Mas pra quem tem contas altas é complicado tirar um dólar. Há um apego maior ao dinheiro quando há riqueza. É tão contraditório... Porém, também é preciso deixar claro que os números não dizem tudo. Houve quem doasse algumas moedas acreditando ser ponte entre eu e Angola. Teve quem colocasse quantias maiores sem nem ouvir as minhas intenções. Estes me roubam fôlego, porque me privam do que mais busco nas doações: o brilho nos olhos. Ainda bem que tenho meu pai pra dizer: “Filha, cada um tem uma forma de olhar.”

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

áfrica nossa

Domingo, 5h. Despertador. Banho rápido. Malas no carro. Café da manhã. 6h. Rodas girando. Carro em movimento. Destino: Brazilian Day, Nova York. Fundraising. Outro lado da rua: pedinte. Expectativa sem forma. Sem saber se clara ou escura. Cada um a imaginar o fim da própria linha do trem. Tinha aqueles que já faziam do futuro o presente, traçando a incapacidade antes das mãos. Saco sem fundo. Furado. Esquecem que pra buracos há toda essa terra pra tampar. 10h. Chegamos. E com a gente a verdade de cada um aparecendo. Círculos, quadrados, pontas... Quis logo saber da minha. O que formaria a minha linha... Saí para as ruas. Falei das minhas vontades e eles logo acreditaram. As frases curtas não diminuíam a força dos olhares. Eu contei pra tanta gente desse meu sonho. E foram muitos, muitos os que me incentivaram. O valor das notas não dizia por si só. Porque teve um senhor que não encheu minha latinha, mas me levou palavras de um sonho bom. Alguns se quer esperavam eu terminar e já alimentavam os meus anseios. Teve até quem nem me deixasse dizer nada. Um homem simples, de passos lentos e fios brancos, parou pra me ouvir. Ele me deu cinco dólares entre o pouco dinheiro que tinha. Olhou dentro de mim e disse: vai com Deus menina. Sabia que iriam me fazer chorar! Tenho que agradecer por cada pilar que eles construíram em mim. Essas pessoas... são elas que vão nos levar até lá.