segunda-feira, 30 de agosto de 2010

raios de amanhã

era gostoso deitar no verde da praça e deixar o sol invadir o corpo. a pele se dilatava ao perceber que o calor a cobria. entendia assim que o entardecer não era um abandono, mas uma pausa pra resgatar raios do próximo encontro.

domingo, 29 de agosto de 2010

forma de amor

"você é um amor amiga. em pessoa. é a primeira vez que conheço uma pessoa que é o AMOR personificado".

objeto meu

só agora eu entendo que é esta a sua forma de defesa. é mais seguro me deixar debaixo da sua janela numa eterna espera do seu amanhecer. é mais seguro pra mim também. assim eu não me preocupo se seu coração bate do mesmo jeito que o meu. transformei você em um objeto que uso para me apaixonar pelos detalhes que estão ao seu redor e não em você.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

você é racista?

há uma cegueira imensa naquilo que se diz humano. entre outras tantas, uma delas está no fato de concordar que o branco é a cor da paz, cor da cura que veste os médicos, enquanto o preto é a cor que imita a sujeira, cor que colore a guerra. quem foi que disse que o cabelo liso é o bom? feche os olhos e imagine uma pessoa bonita... será que ela traz pele pintada de preto e cabelos crespos? que beleza é essa que já nos vem ditada? e não me venha dizer que você, justo você, não é racista...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

sexo verbal

depois que duas almas se encontram o beijo parece selar o desencontro, torna-se perigoso arriscar o prazer da pele quando se descobre a nudez de um olhar, parece fulgaz um orgasmo depois que os corpos se tocam silenciosamente distantes...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

uma lua no céu

a lua quando surge cheia de si faz abrir o mundo em uma única janela, não há quem não se torne espectador, é que os olhos perdem qualquer sensação de pertencimento e seguem os próprios desejos de se verem instantaneamente consumidos...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

chuva de domingo

olhou pela janela e viu um mundo inteiro molhado. o céu emocionado chorava lágrimas que não cabiam em seus olhos e inundavam a terra com uma tempestade de sentimentos. enquanto olhava pela janela a menina se atrevia a abrir o vidro e algumas gotas não resistiram em fazer carícias em seu rosto. envolvida pelo carinho daqueles pingos a menina esticou o braço até tocar lá fora e no mesmo instante viu a própria pele se cobrir de uma água que regava a terra. incomodada com o excesso de teto que tinha em sua casa ela abriu a porta e colocou o corpo inteiro debaixo daquela chuva da tarde de domingo. as gotas não caíam de uma vez. aos poucos molhavam a pele da pequena menina apaixonada pela água que corria pelas esquinas do mundo.

encontro musical

você surgiu em um convite meu. pode até pensar que seguiu os desejos dos seus pés, mas eu preciso te dizer que nos seus passos havia uma longa espera minha pelo seu lento caminhar. é difícil separar uma vontade que encontra outra. basta um segundo pra que todos os outros sejam histórias contadas de mãos dadas. assim já tão cedo eu diria que os dias de amanhã serão contados por cifras de músicas, de um lado você na invenção e eu do outro seguindo a pulsação. seremos passos de uma dança mais íntima, de dois corpos que traduzem letras em curvas. é mais um futuro que eu invento pra não deixar meu corpo parar de respirar...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

as vezes a vida acontece inteira em alguns dias...

rasgando papéis

tenho horror a estes instantes em que o meu nome surge em destaque em pedaços de papel que classificam o que eu sou, e por descuido e vaidade, eu leio o meu nome e começo a acreditar que aquilo me define. essa história de títulos, diplomas, prêmios não podem representar pessoas. há pouco tempo eu soube disso, mas os dias vão nos sugando e a gente querendo acelerar o caminhar das horas imprime a nossa pele em papéis descartáveis. é tão pequeno se descrever em linhas... por sorte os papéis se rasgam e na poeira das coisas de ontem ainda vejo gritar em mim um arrepio dos poros de gente que é grande porque aprendeu a amar, e só a amar...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

suor que rega a terra

o suor daquele corpo em movimento regava a terra de futuro. pingo por pingo molhavam a secura dos dias que cumpriam a tarefa de acontecer. não era instantâneo o florescer, mas o homem suava a pele que transpirava esperança e fazia brotar do chão petálas de um mundo que estava por vir. não bastava simplesmente nascer, eram as mãos dele que transformavam as paisagens. o que se via para além da janela era pura escultura daqueles dedos aflitos pelo próximo amanhecer...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

noite sem fim

desconhecia o tamanho de uma noite. por um tempo acreditara que o escuro acontecia entre o passar inevitável das horas. mentira! a noite atravessava a ausência da luz e ultrapassava o girar da Terra. naquele instante tudo parecia muito confuso ao ponto dela não entender como podia uma noite nunca parar de acontecer. era uma contradição a todo o empirismo das coisas provadas, mas se tinha uma verdade era que aquela noite não acabava... não havia Sol que a iluminasse. não estava compreendida entre o caminhar dos ponteiros. a fim de protegê-la, Clarice guardava a noite em lugares atemporais, daqueles que a qualquer tempo transbordavam madrugadas. era uma noite pra se viver pra sempre. não cabia na memória, naquele espaço das coisas que já se foram. metamorfoseava no instante presente de tal maneira a não restar formas de se questionar que todos os dias que raiavam eram continuações daquela noite que se perpetuava.

sábado, 14 de agosto de 2010

colo de mãe

colo de mãe parece que guarda a forma do filho, é um teto que pulsa no coração de mãe. assim a gente nunca cresce, cabe sempre em um abraço daqueles que cobrem o corpo inteiro sem deixar espaço, sem deixar qualquer falta. é eterno, porque não haverá um só dia em que eu deixarei de ser sua filha, minha mãe...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

um azul...

era de um azul tão imenso que parecia que se vestia de nuvens em dias de sol. um azul tão cheio de cor que bastava ocupar somente aquele espaço para que refletisse em todos os cantos deste mundo. era qualquer coisa que de tão colorido existia mesmo em dias de chuva. era um tal de ser mar que não deixava nenhuma fresta para uma vida em preto e branco. era o melhor dos convites pra se fazer inteira de oceano.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ditadura do espelho

tinha receio de que um dia ao se olhar presa em um segundo de uma fotografia já não se reconhecesse debaixo de tantos bisturis e maquiagens. era o inverso daquilo que se podia ser. o mundo cobrava contornos muito exatos, de uma conta que ela não sabia fazer. se nascia cabelos pelo corpo neste mundo já não podiam crescer. se a pele se cansava depois de tanto se expressar neste mundo era quase obrigada a se esticar. se o corpo transformava calor em cheiro neste mundo era urgente perfumar. queria ela mais esquinas como as das ruas de tempos atrás, cheias de mulheres vestidas de um sorriso e algo mais. bonito mesmo era ver uma ruga nascer bem no canto do olho que tantas vezes ela viu amanhecer. ah... como ela queria poder voltar a ver...

domingo, 8 de agosto de 2010

seremos nós uma mentira?

é que você me vê e me pinta em um quadro. cada respirar meu é uma nova imagem que você captura. assim eu começo a pensar que sou estas tantas imagens que você inventa. sim, porque sou uma criação sua. não se trata desta realidade de texturas que a pele pode identificar. nós estamos naquela parte em que as mãos não alcançam e nunca a poderão alcançar. é que a gente se quer existe. somos fruto dessa nossa mania de ficar espiando pela janela o mundo que não se vê, só se sente...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

verbo amar

as terras não são de ninguém
até quando irá este vai e vem?
não há quem possa comprar se quer uma gota de mar
e eles ficam lá insistindo que podem pagar
um dia vou construir meu lar com paredes cheias de ar
vou calçar meus pés com peles de fazer voar
porque menina que descobre logo cedo o verbo amar
não consegue mais viver pra calcular
ela só quer saber de pulsar...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

pausa pro coração

dói tanto que por segundos tenho a sensação de que o meu coração está fora do corpo, desprotegido. e ele, mesmo sentindo toda essa dor, não pára de pulsar e começa a parecer pesado demais o fardo de ter que carregá-lo dentro de mim. queria uma pausa...

embrulhos da madrugada

- quero saber. vamos fazer uma viagem agora? você vai entrar, ou vai ficar na estação? se for entrar, vou também. então... eu queria ter uma casa só para pintar as paredes. pense... molhar os pés na água do mar, depois de tanta areia, o mar... e aí... sentar no banco da praça e ficar imóvel enquanto o vento move seu corpo inteiro. e mais. chegar em casa e querer seu quarto. sua vida.
- não, não consigo acompanhar.
- tenho mãos vazias assim. você sente vontade de quê?
- de achar um lugar.
- os lugares são tão frios, tão concretos. mas se você tiver olhos qualquer lugar será lugar.
- adoro descobrir lugares. uma vista linda, uma pedra, uma cachoeira, um mar.
- e esses lugares não existem? a tal ponto de você precisar achá-los? talvez você precise caminhar... as coisas são tão simples, são bonitas por serem assim. e quando a gente começa a procurar muito longe, sinto que é porque dentro não estamos bem.
- adoro você, uma detetive de ilusoes.
- fiquei rindo aqui por achar tão bonito isso.
- acabo de ver uma frase que acho a sua cara: "se atire para lua mesmo que você erre se aterrisará em uma estrela".
- odeio internet, te daria um abraço sem fim agora. vou te emprestar um remo, pra você remar comigo. depois, você me devolve, porque aí ja remará sozinho. quanta poesia. quanta metáfora. será que eu penso que assim é mais fácil de decifrar? será que eu evito a realidade, a nudez?
- torna-se mais subjetivo
- comprei tanta bala que meu pai perguntou se eu era vendedora. todo dia parece que precisa adoçar.
- cuidado
- não gosto dessa palavra.
- juízo
- nem dessa, mas tenho cuidado e juízo.
- cautela??
- loucura!

domingo, 1 de agosto de 2010

cuidado menino

cuidado, você está quase caindo dentro de mim e estou prestes a empurrar você neste abismo que sou eu. sou tão funda que você pode nunca parar de cair. peço cuidado, apesar da falta de perigo. peço cuidado, porque sei, é um caminho sem volta...