terça-feira, 29 de junho de 2010

mundo da lua

o ônibus descia a avenida larga de ponto em ponto. a janela emoldurava uma pintura na ponta esquerda: era uma lua inteira acompanhando a rota feito parte do cenário. o ônibus ia e ela ia também, no mesmo canto esquerdo da janela. não se movia aquele círculo amarelo. o ônibus rodava a cidade e a lua lá, a espera de quem quisesse levá-la. mas ela morava num lugar muito distante, tão distante que os homens não podiam chegar lá. não completamente, porque alguma razão haveria de ter pra depois de alguns dias a lua se diminuir. aposto que era culpa daqueles que de tanto fitarem o brilho acabavam por privá-lo do céu. foi então que fiquei com vontade de construir no dia seguinte uma ponte pra nos levar em alguns segundos pro mundo da lua. assim, quem sabe, ela não seria sempre cheia de si?

mundo novo

sabe... tudo em volta agora parece colorido. será que alguém pintou o mundo inteiro sem me avisar?

sábado, 26 de junho de 2010

segredo de um envelope

"pronto. enviei. a carta está à caminho".

desde que ele me contou que as letras estão para chegar eu me fiz beira-mar. moro agora naquele intervalo entre o que é terra e o que é oceano. estou ali para esperar a carta dele navegar. enquanto ela não chega eu passo dias a remar lendo capítulos inteiros da nossa história de amar. ele pensa que a carta está só naquele pedaço de papel que as letras inventaram para se encontrar. bobo. a carta é nossa. antes dela chegar eu também fico a criar letras que possam nos contar. que delícia é poder esperar por um certo suspirar. ele bem sabe que é muito mais do que o segredo de um envelope. é um apertar de duas almas que querem se aproximar.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

medo de dormir, medo de acordar

dava medo de dormir, de atravessar a realidade. evitava os sonhos velados pelos olhos fechados. tinha desejos que de tão lúcidos criavam contornos imaginários. não, lá ninguém podia entrar. qualquer interferência poderia desmanchar aquela ficção. ele tentava evitar. esticava as membranas, agitava a pele, gastava energia. mas o corpo não era dele e pedia sonhos. e então ele fechava os olhos... quando isto acontecia qualquer fresta desaparecia. não restava um fio de luz entre os muros que ultrapassavam os outros. eram instantes de invenção tão reais quanto as sementes que no outro dia se diziam flores. dava medo de acordar. aí dava mais medo de acordar do que de dormir.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

acabou. perceber que você não existe foi a melhor das descobertas que fiz.

terça-feira, 22 de junho de 2010

inteira!

enquanto esperava o ônibus expliquei a ele que minha vida não tinha endereço. mostrei que casa era um lugar para se esconder das coisas lá de fora. pelo menos a minha era. o meu lar era um local de passagem, entre o dia e a noite, entre o que eu imaginava e o que eu realizava. não levava pra dentro de casa nada do que eu era de verdade. eu nunca estive em qualquer matéria mesmo. eu existia ali, entre eu e ele, entre eu e você, entre o céu e a terra, entre, sempre entre. não fazia sentido morar em um endereço. eu não moro em uma rua, eu não moro entre quatro paredes, eu não moro no meu quarto. eu moro por aí, em qualquer coração que deixe a porta aberta. eu não pertenço a nada mais, nem a mim mesma. eu não dependo de nada mais, a não ser de mim mesma. se tudo me tirarem ainda assim restará o que eu mais preciso: eu mesma. nesta condição de ser, de existir, de viver, é que eu me encontro por aí. e quem me achar há de entender que jamais serei metade. serei pra sempre um inteiro.

domingo, 20 de junho de 2010

vestido de óculos

quantas canções existem naquele violão. são tantas as histórias daquele único homem. muitas foram as primaveras daquela árvore. quantas ondas já se foram naquele oceano. uma única nota. triste. suficiente pra contar a poesia. assim são os olhos dele. antes só enxergavam um borrão formado pelas folhas que se diziam verdes no topo das árvores. depois vieram os óculos que o fizeram perceber que, além do verde, existia uma infinidade de azul pintando o céu. desde então ele canta os detalhes que as retinas podem enxergar. jarvis cocker. pra você, sete vidas.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

passos de uma cadeira de rodas

nas rodas de uma cadeira o menino reinventava passos. o girar das rodas fazia circular o movimento que ultrapassava a possibilidade de um pé a frente de outro. ele também caminhava. era fato. não se tratava da distância que ele alcançava, nem da velocidade que ele conseguia, ele era a caminhada, ele era o caminho...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

é primavera!

foi então que descobriu que flor não era uma questão de estação. era muito além de qualquer primavera. era algo que tinha a ver com os olhos, com as cores que os olhos enxergavam. era algo que tinha a ver com ela e não com a quantidade de gotas que caíam do céu. percebeu então que apesar de todo o inverno ainda era primavera...

prisão do corpo

naquele pedaço de tempo entre o que poderia ser e o que era, ela corria. acelerava pra atravessar a fresta que a separava do que vinha pela frente. andava depressa. ela caminhava normalmente até chegar neste pedaço, mas quando alcançava este instante em que ela só podia enxergar metade, ela se desesperava. não suportava a lentidão dos passos, ela queria estar aonde o pensamento estava. mas não. ela era matéria e tinha que aceitar a sua condição de só poder estar aonde o corpo também estivesse.

domingo, 13 de junho de 2010

vai dar tempo?

de repente faltava tempo, um dia era pouco, as horas pareciam flashes, os anos acelaravam os passos, a vida acontecia. não se tratava daquela falta de tempo de pessoas ocupadas. era uma falta de tempo diferente. ela queria ter mais tempo para observá-lo, não queria lembrar que só lhe restava uma vida. ela queria ter calma, ter paciência. entender que com o tempo as peças se encaixam. mas ela tinha uma pressa frénetica em amar o mais rápido possível. ela sabia que podia não dar tempo de amar todas as coisas. tempo, tempo, tempo. se não fosse o tempo o que seria? o tempo existe. ponto final. a idade existe. ponto final. ela já tinha até rugas. o amanhã já chegara e ela não aceitava isso. daria tempo? ela teria tempo? por isso ela não aceitava ver ninguém desperdiçando tempo, como quem imagina que tem todo o tempo do mundo... não, nós não temos. ela não tinha e nunca teria tempo nenhum que fosse suficiente para dar conta de todas as coisas.

sábado, 12 de junho de 2010

a espera de uma carta

- sinto você distante e não gosto disso
- é que eu cansei um pouco deste mundo virtual
- mas e como nós fazemos se só temos este mundo neste instante?
- deixa eu contar: estou fazendo uma carta pra te mandar. eu estava procurando uma foto nossa pra imprimir
- então não conta mais, eu quero poder esperar pela carta. como antigamente, como as pessoas antigamente esperavam. meses, anos... uma carta que vinha do outro lado do oceano, pelas ondas do mar

eu, personagem dele

- tem uma personagem do livro que me lembra muito você. ela foge para um barco naufragado... uma loucura da parte dela.
- por que ela faz isso?
- ela foge porque não aceita que algo tão grande possa ser esquecido. e ela sabe que alguém vai buscá-la, ela sabe que alguém vai enxergar o mesmo que ela.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

retoques de mim mesma

eu sempre fui assim. se você disser que minhas unhas estão mais coloridas, que meus cabelos estão mais brilhantes, que meus lábios têm uma nova cor, que minhas roupas estão diferentes, que minha pele está mais perfumada, eu direi que sempre fui assim. não vou deixar você saber que cada detalhe é uma invenção. não vou te contar que faço de mim uma vitrine irresistível, só pra você me consumir. eu não vou te dizer, ainda que você já saiba...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

seu olho no meu olho

estava no meio de nós dois, ou entre nós dois, ao lado, na frente, colado, dentro, ao redor, aliás, pouco importava a forma. mas ele insistia e permanecia. e o pior: incomodova. o silêncio escandalizado dos olhos me pertubava. a mudez berrante da pele me agonizava. tudo me deixava prestes a interromper as nossas melhores linhas com palavras pobres entupidas de sentidos reais. era difícil suportar a imaginação tão livre. acontecia tanta coisa sem que a gente se quer movesse os cílios. era sufocante manter aquele dialógo de faces transbordando expressões. era natural que buscassemos fôlego desviando os olhares. era previsto que o corpo não encontraria espaço suficiente e que despertasse inquieto. o seu olho beijando o meu olho me causava isso. uma vontade absurda de não piscar nunca mais.

domingo, 6 de junho de 2010

de hoje em diante

tá faltando poesia, tá parecendo maresia.
tá sobrando dinheiro, tá ficando cabreiro.
tá precisando de água, tá secando a enxurrada
agora só chove de gota em gota, não carrega nem uma trouxa
menino, acorda, já não dá tempo pra perder tanto tempo
sai desse quarto, abre a janela, vem que a noite hoje é amarela

obs: estou te esperando...