domingo, 24 de fevereiro de 2008

crash

para acalmar a filha o pai inventa uma capa transparente que impede a chegada dos tiros. ele diz que não precisava mais dela e a amarra na pequena.

dias depois, pela janela a menina o vê sendo ameaçado com uma arma, apontada para a cabeça. ela abre a porta da casa e grita: papai, papai eu te protejo, eu estou com a capa! sai correndo e entra na frente do pai, no momento exato do disparo.

a bala era de festim... mas por favor: nunca conte isso àquela criança. é essencial acreditar na existência da capa...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

sementinha




há tempos em que é preciso desabrochar
por completo
tirar pétala por pétala
arrancar a raiz
enxergar novamente
pra plantar tudo outra vez...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

saciando desejos

as mãos estavam no lixo, procurando restos que poderiam se tornar inteiros. ninguém o viu. engraçado que ele era negro e a cor dele se destacava. as mãos no lixo não estavam ocultas. pode ser que o mundo seja preto e branco demais e ele tenha sumido na escuridão do dia.

dali ele não iria pra lugar algum. o homem não tinha nenhum compromisso, a não ser com as vontades do seu corpo. os diálogos eram mudos e ele caminhava despercebido na multidão. e ele sempre seguia... saciando seus desejos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

a menina

as árvores passavam contra a luz. com cor preta elas se destacavam frente ao céu laranja, que se despedia do sol. a visão limitada pela janela do carro ultrapassava o vidro fumê realçado pela noite. no meio da floresta lá estava a menina e seu amor. de mãos dadas eles faziam tudo o que um casal apaixonado poderia fazer. a menina tudo imaginava, mas o menino não estava lá... e se quer em pensamento deveria estar. essa menina vive a fantasiar. a vida dela se confunde com o que ela sonha e quando toca o despertador é complicado saber ao certo o que aconteceu.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

a solidão e sua porta

Quando mais nada resistir
que valha a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando pelo desuso da navalha a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha a arquitetar
na sombra a despedida do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Carlos Pena Filho

sem medida

certas doses de loucura são necessárias
pra que a gente possa fazer algumas coisas sem tanto pesar.
a idade nunca me limitou
e por favor, não me diga até onde eu posso ir
basta o mínimo desejo pra que meu corpo se desfaça pela satisfação da minha vontade
talvez seja sobre isso que meu horóscopo tenha me alertado naquele dia

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

homem da minha vida

ele deve ter nascido no meio das plantas. suponho que no ventre da sua mãe havia flores e que o único som ouvido era o de pássaros. acredito que quando criança teve contato com o mundo de forma transcedente, atingindo o céu e a terra com a palma das mãos.

seus passos foram lentos rumo a um destino diferente da zona rural... ele pensava que a cidade seria o triunfo e que nas grandes empresas estava o fim da sua busca. não foi preciso muito pra entender que se encontra a felicidade apenas em si mesmo. com o suor gasto no trabalho ele, enfim, teve a sua recompensa.

seu retrato está espelhado nas águas de Lagoa Santa. é ali que ele ainda vai construir uma cidade. restos de obras são lapidados pelos pincéis humanos desse homem. me impressiono com a fusão entre ele e a natureza. são um corpo só. me surpreende a simplicidade. de bermuda rasgada, chapéu na cabeça e chinelo no pé ele cria e recria mundos singulares. seu jeito pausado de falar me deixa impaciente, mas também me faz admirar a capacidade de falar sem o movimento dos ponteiros do relógio.

esse é o meu pai.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

PS: Eu te amo

o amor é o sentimento que mais me faz suspirar, até mesmo porque ele instiga todas as outras formas de sentir... quando assisto filmes assim tenho vontade de ter algo em que eu possa libertar meus pensamentos que não param de vagar pela minha mente infinita. mais uma vez sem linhas e sem rimas. agora, preciso sentar em frente a minha imaginação, pra deixá-la falar. ela precisa se expressar. tenho muita dificuldade com os filmes... acho que eles se confundem com a realidade. quando acaba a história fico com a sensação de que estou vivendo dentro daquela tela... uma simples ação na minha vida tem a proporção de um longa metragem com direito ao oscar de melhor roteiro.

hoje acordei com meus olhos inchados. desculpe, mas tenho que assumir: gosto de chorar em filmes. admiro quem consegue se exprimir. não gosto de caras chapadas, com a mesma cor em diferentes situações. mas não choro simplesmente porque gosto. choro porque me transformo num personagem da história e eu fico ali, acreditando que aquilo tudo faz parte do que acontece quando o filme tem fim. incrível: mas até hoje espero que o príncipe dos contos de fadas apareça dentro do meu enredo. não tenho paciência pro mundo preto e branco. pra mim tem que ser colorido e com formato de borboleta.

algo me incomodou nesse filme: as pessoas não são eternas. estamos sozinhos. a vida sempre acaba na morte... claro, acaba a vida concreta. porque tudo se mantêm no ar. há sentido na solidão? não quero alimentar a morte se ainda há vida. desejo apenas a manifestação constante dessa vida, pois alguns morrem antes mesmo da última respiração. vou terminar tudo agora com ps: eu te amo. o amor é o grande segredo.

tive prazer em constatar a beleza do meu caminho. é cruel fazer o ser humano trabalhar em troca de salários. essa busca por algo que não possa ser contado em cifrões é árdua. queira eu ou não o sistema é capitalista. e me ver saindo dele é uma das emoções mais fortes que sinto. é uma vitória... é vida. e ela está transbordando meu ser.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

mundo a parte

quero escrever sem rima, sem essa de verso ou poesia. não vou saltar linhas quando mudar de assunto, nem quero pensar na melhor forma de dizer o que sempre esteve aqui, pronto pra ser dito. quero falar assim porque está quase chgando a hora e o meu vulcão interno precisa entrar em erupção pra derramar um pouco... em breve estarei em contato comigo mesma, com os meus limites. dia 30 de abril eu vou... será a primeira vez que vou bater minhas asas de borboleta. é a primeira vez que piso em terra não tão firme com a certeza do coração. minha mãe insiste em dizer que a vida não é bem assim, que não podemos escolher o que fazer dela, como se a vida fosse a minha dona e não o contrário. ah minha amada mãe... onde estará esse medo que você sente e o vasculha dentro de mim. quando estou em contato com isso que tanto pulsa aqui dentro não há guerra, não há aids, não há fome... há apenas sonhos e munida deles eu hei de permanecer nesse mundo tão vasto criado por mim. um verdadeiro mundo a parte...

insônia

só papel e caneta pra trazer os sonhos a tona
a demora para o fechar dos olhos
me faz pensar demais

é fato: eu preciso me perder para me encontrar
eu estou exatamente ali: no desencontro
e é quando eu me acho que eu volto a me perder

qual será a diferença entre a liberdade e a eternidade?
quando livre sou intensa, mas fulgaz
por deixar apenas marcas
quando eterna sou estrela
e o egoísmo me faz prisioneira de mim mesma

no entanto, me vejo jogando as chaves pela janela
esperando os laços do dia seguinte
será possível?