sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Seu Zé

estava sentado dentro de um dia comum, em uma cadeira comum, com retalhos de pensamentos comuns. na mesa ao lado também havia detalhes comuns: uma xícara descascada com sabor de café, bolachas se enrolando umas as outras, e duas senhoras tricotando a vida. enquanto isso ele permanecia dentro do seu dia comum. no ir e vir do balanço da cadeira ele enxergava dois ângulos: um intocável e um comum. tentava ficar mais tempo no primeiro, mas a cadeira logo roubava os únicos instantes de novidade. o nome também era comum: José. um senhor de 50 anos que nunca saíra do próprio mundo. Seu Zé não aceitava convites que escapassem das cercas da sua fazenda. ninguém conhecia mais aquela terrinha do que ele. ele sabia de cada montanha, de cada sombra. reconhecia as estações pelas plantações. tinha intimidade com aquele chão.

Seu Zé gostava de tudo ajeitadinho. toda vez que entrava em casa abria a porta com a mesma mão e colocava o chapéu pra descansar no mesmo lugar. a porta cantava todos os dias canções sobre a própria condição. não tinha chave aquela porta, e nem era tão porta assim. escondia apenas parte das coisas lá fora. começava na altura da canela e terminava no umbigo de Seu Zé. era uma divisória, só pra demarcar um universo do outro, só pra mostrar que ao abrir a porta se entrava em uma casa com chão de cimento. uma vez Seu Zé quis desmanchar o lar, não tudo, mas o chão de cimento. ele queria manter as paredes, o teto, os objetos, mas tinha vontade de pisar sempre na terra. não gostava daquela coisa dura e fria que o cimento era.

Seu Zé era uma prosa pronta, acabada, com começo, meio e fim. as marcas que trazia no rosto mostravam as linhas do campo que ele trabalhava. as mãos eram gastas de tanto tentarem moldar a natureza. do amanhã Seu Zé só queria poder fazer tudo de novo, outra vez, no mesmo horário. e a parte de todas as mesmas coisas que ele mais gostava tinha nome, e esse nome era Marieta. Seu Zé tinha o pescoço torto de tanto olhar ela passar...

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