sexta-feira, 29 de abril de 2011

pintura anônima

depois dela, não haveria outra. coubera perfeitamente naquela lacuna entre a loucura e a janela lateral. cobria-se de elegância por detrás da fumaça do cigarro, que mais tarde se confundira com a neblina trazida pelas montanhas. escondia os olhos, afinal não podia se entregar assim tão facilmente, então guardava sentidos atrás das lentes escuras dos óculos. os olhos eu diria que muitas vezes nem olhavam tal era a liberdade do esconderijo. por descuido ou cansaço das cores que as lentes a impediam de ver ela deixou aparecer os olhos, e em torno dos olhos deixou gritar uma sombra escura própria de olhos que não dormem. entregou-se, facilmente. os olhos dela pouco descansavam, eis a razão para conter os reflexos da madrugada. os cabelos escorriam em torno do seu rosto pintado de branco aveludado, e nas pontas, nos instantes próximos do fim, os fios se rebelavam entre curvas de direções opostas. nos pés um allstar que velejava por marés de ondas ininterruptas, ela parecia desaguar a todo momento. e nesta noite que eu a pintei com minhas retinas ela me contou um segredo, cochichou que pele era corpo a espera de outro, e passou a lua inteira debaixo dos carinhos de alguém...

4 comentários:

  1. os olhos são mesmo uma grande revelação.

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  2. Estou cá pensando em como será essa lacuna entre a loucura e a janela...

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  3. Fiquei imaginando se você estava descrevendo a garota de um quadro...

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  4. Fernand's, já diria o poeta Saramago, que os olhos são a janela da alma...

    Keila, essa lacuna não tem forma, tamanho, cor ou espessura, ela é assim mesmo, inimaginável, tal qual a loucura que nela habita...

    e Suzi, se imaginaste assim, que assim seja. quando lemos um texto é automático, ele se torna nosso.

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