domingo, 10 de abril de 2011

cartas de um século atrás

até parece que um século me separa de poucos anos atrás, quando ele ainda me escrevia cartas nas folhas arrancadas do caderno. as frases se ajeitavam nas pautas, mas era inevitável rasgar a linha e escrever maior que o espaço concedido. as vezes ele abusava, gastava uma página inteira deixando duas palavras solitárias naquela imensidão, mas era pra falar de amor, então aí qualquer excesso se justificava. certa vez ele me entregou uma carta com desenhos feitos por ele, roubou um pedaço do arco-íris e colou no pedaço de papel, me deu de presente, disse que era pra gente morar ali, naquele colorido sem latitude definida. eu aceitei, fizemos as malas e mudamos pro nosso planeta de sete cores. ele continuou me escrevendo cartas, cada dia mais cartas, cada dia menores com mais conteúdo preso nas entrelinhas dos olhos dele. eu lia uma frase e era automático, eu já sabia todo o resto. era bonito assim, chegar em um ponto que você simplesmente sabe, quase sem querer. mas eu gostava muito das cartas que ele me escrevia, dava a sensação de que o coração dele saía do corpo e por alguns segundos batia nas letras pulsantes na folha. e pensar que eu podia sentir o coração dele toda vez que eu quisesse, bastava ler setenta vezes a mesma carta. eu agradecia. era o melhor dos presentes. o ruim é que com o atravessar do tempo nas coisas que não caminham com ele, as palavras pareciam desaparecer, como se de repente nos tornassemos analfabetos da nossa própria linguagem. foi assim que as cartas começaram a diminuir, a frequência e o tamanho, houve uma época que eu as chamava de cartões, nem cartas eram mais. com tanto ainda pra se dizer, falávamos que já tinhamos dito tudo. era o fim da história. já não havia o que contar.

2 comentários:

  1. Quando as missivas se encerram haverá ainda outras palavras a serem ditas nos olhos, na pele, no cheiro. E sempre há algo para se contar, o problema é quando a vontade acaba.

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  2. Keila, exatamente, você foi direto da ferida, o que houve foi a morte do desejo...

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