quinta-feira, 27 de março de 2008

Angola, aí vou eu



Desculpe o meu egoísmo, mas o medo não faz parte da minha vida. Ontem o SBT Repórter exibiu um programa especial sobre: Brasileiros na Angola. Eu o assisti com a fome de absorver cada palavra dita. Me enxergava em cada uma daquelas situações. No final do jornal minha mãe chegou ao quarto, deitou-se, apertou minhas mãos e disse: eu não queria que você fosse... ela fez rasgar meu peito, fez sangrar...

O programa mostrou o cotidiano dos boinas azuis, soldados do exército enviados pela ONU para a Angola, a fim de manter a paz. Vários deles se apresentaram e falaram das saudades... este era o maior problema, já que segundo o relato deles a paz reina no momento. Parte da história da Angola foi contada e o que mais assusta é que a guerra acabou recentemente: dia 4 de abril de 2002, quando o líder Jonas Sabín foi morto em sua casa com a explosão de uma bomba. Uma das entrevistadas queixa-se que não come há oito dias. Isso me abala muito... principalmente porque a Angola é um país rico em petróleo e diamantes. Poderia ser auto-sustentável. Acontece que a riqueza do país serve apenas para enriquecer aqueles que vivem a alimentar os lixos com os restos da ganância.

Prédios destruídos, ruas de terra, crianças com os ossos visíveis, pés descalços: este é o retrato de Huambo, a cidade mais devastada pela guerra. Ainda que eu veja as imagens tenho certeza de que a realidade irá mexer comigo de uma forma mais intensa do que eu posso imaginar.

Os soldados também contaram sobre a malária, um dos problemas mais graves do país, que inclusive já matou três dos boinas azuis. Não há saneamento básico por lá. Eles usam um produto químico para matar os mosquitos e nos horários de maior perigo cobrem o corpo, usam luvas e colocam uma proteção no rosto. Privilégio deles, apenas deles.

Em Angola é preciso cuidado ao andar sozinho. Você não pode ir pra qualquer lugar. Há minas... e muitas! Os soldados da ONU trabalham diariamente para exterminá-las. Infelizmente várias pessoas do país, fazendo jus a liberdade de ir e vir, passaram por locais não indicados e hoje exibem partes do corpo mutiladas. É comum ver um homem de muletas ou sem um dos braços. Fragmentados pela guerra. Literalmente!

Mas não acabou. A equipe de reportagem estava passando por uma estrada de terra quando percebeu resquícios dos conflitos. Os soldados de Angola ganham por mês o equivalente a R$1,00. A moeda africana é muito desvalorizada. Para tentar aumentar este valor os soldados costumam parar as pessoas que passam por ali e roubá-las. O povo é tão pobre que rouba a própria pobreza. Desta vez, um caminhão cruzou aquele caminho. Um caminhão cheio de gente. Os soldados gritaram: pare! E o motorista seguiu em frente... salvando os pertences daquelas pessoas uma vida foi perdida e duas mulheres ficaram feridas. Integrantes da ONU viram tudo, porém de acordo com o sargento não é papel deles intervir. Estranha essa defesa que não pode proteger.

É essa dor que me aproxima. Essa dor que ainda que corroa deixa sobreviver um sorriso no canto do rosto. Quero poder ver, enxergar com meus olhos e entender o que essas pessoas sentem. Quero atravessar os corpos e chegar a alma!

7 comentários:

  1. Eu tambem gostaria de ir pra Angola, já que estou fazendo meu tcc sobre a guerra civil. Você irá mesmo para lá? Fazer o que, exatamente?
    Entre no meu blog, fiquei interessada o seu contato.
    um abraço,
    Marina

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  2. Oi Marina, tudo bem?
    Vou pra Angola sim, em fevereiro de 2009. Vou participar de um programa de trabalho voluntário, realizado por uma ONG americana, a IICD.
    Podemos conversar mais a respeito.
    Mande um e-mail pra mim: debscecilia@yahoo.com.br
    Abraços, Débora

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  3. Oi Debi...
    finalmente encontrei teu Blog.
    Querida, não se preocupe com a tristeza dos Angolanos. Eles são mais felizes que nós ocidentais. Não são apegados a dinheiro e fartura como nós somos.
    Eu morei em Huambo, e digo sim que as marcas da guerra ainda estão lá, mas Huambo é forte e linda, em breve voltará a ser a nova lisboa de antes. Vc ficará imprecionada com Angola! Não acredite em tudo que a televisão passa. Por isso mesmo eu não assisto. Vc sabe que todos tem um ponto de vista, e o ponto de vista do povo angolano é raramente consultado. Aproveite a sua visita para absolver da cultura deles, aprenda Humbundo, Quimbundo, Ovibundo... converse... mas, não fala da guerra. Não é para nós como falar da guerra de canudos, uma guerra antiga. Eles estavam na guerra deles, e muitos deles querem esquecer. Viage por Angola, vá para Benguela, Luanda, tente ir para o Bié, Moxico... Sei que esta indo como voluntária, mas vc é Turista também.
    E lembre-se; se puder escolha Moçambique, faça a sua história lá. Será melhor para vc.
    E malária... não doi tanto quanto dizem, e é mais facil de tratar que gripe. Ninguem fica de luvas no calor de Angola, e só morre de malária aqueles que ignoram os sintomas, e vc JAMAIS fará isso, certo? rsrsrs
    Se cuida preta.
    te adoro.

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  4. Minha amiga,
    ainda bem que o mundo ainda deixa a sensibilidade aflorar em certas pessoas. você, com certeza, soube enxergar além da história, além das verdades contadas, além dos olhos da tv.
    essa tal felicidade que não depende de nada eu sonho em conhecer... e eu sei que vou encontrá-la quando eu manchar meus pés limpos na terra vermelha de Angola...
    amo você menina feita de luz

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  5. Bom dia a tds!
    Eu participei da missão de paz em Angola em 1996. A Unavem 3 (3ª missão de verificação de paz) naquela época os animos estavam muito exaltados por lá, estavam prestes a realizarem a eleição que definiria o rumo que o país ia seguir.Foi uma ótima missão, uma experiência de vida e tanto. Tem muitas recordações de lá e muitas fotos que me fazem relembrar momentos dificeis que passamos e bons tempos ao lados de amigos.
    Como diziamos lá: Brasil acima de tudo!!! Paz para Angola!!!

    Heuler Ricardo
    heulercampos@hotmail.com

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  6. Olá Heuler,
    Angola traz mesmo sentimentos fortes dentro da gente. Já estou aqui há três meses e pude ver e sentir desconhecidas sensações... é lindo, gostoso e mágico!
    eu tenho um outro blog onde eu conto detalhes deste mundo daqui:
    www.tetodeestrelas.wordpress.com
    espero você lá!
    obrigada pela visita...

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  7. eu participei da unavem III missão de paz brasil/angola 1996
    pelo 1 batalhão de engenharia de combate rj desativando minas ,constuindo ponte e estradas e patrulhando as ruas de angola p/devolver a paz aquele povo.brasil,selvaaaaaa...
    alexandre sá me encontrem no facebook

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