sexta-feira, 18 de abril de 2008

filha das flores

Sentada na pedra mais alta a menina conversava com o mundo. Naquele lugar, ela sentia que tudo a sua volta a compreendia. As suas lágrimas se juntaram às lágrimas do mar, pela primeira vez. Não conseguia mais segurar o mar dentro de si. As ondas beijaram seus pés com respingos vindos das águas transparentes. Ela chorava... a dor dos homens. Sentimentos que ela não entendia tocavam a sua parte mais sensível. Ela não queria que fosse assim, ainda que ela soubesse não haver outra forma de ser.

A menina não era deste planeta. A lenda dizia que ela era filha das flores. Quando nasceu os lírios sangraram. Lírios brancos ficaram manchados com a cor da vida. No primeiro dia de vida da menina, uma flor, a mais imponente de todas, estava tombada: cansada pelo trabalho árduo de dar origem a um ser com essência da natureza e formas humanas. Assim surgiram os lírios cor-de-rosa.

Ela sabia o que significava o seu choro. Ela sabia o que estava por vir e por isso, sentia medo. Abraçou as pernas com as mãos bem forte e colocou a cabeça sobre elas. Se encolhia dentro de si mesma. Ela buscava o mar com toda a sua energia. Pingos de suor escorriam pelo seu rosto redondo. Ela secava alguns com as mãos, mas eram tantos que a maioria escorria pela pedra fazendo pequenas partes da rocha, antes secas, molharem e ficarem escuras. Estas partes começaram a se abrir... daquela pedra dura começou a brotar vida. A menina permanecia como estava. Ela entendia perfeitamente o que estava acontecendo.

Pequenos espaços começaram a se abrir. Algo começou a crescer ali mesmo. Primeiro apareceu uma ponta verde, que lentamente foi subindo e se expandindo. Começou a se desenvolver para os lados, como se criasse braços com vida buscando algo um pouco distante. E foi subindo, subindo... até quase soltar um suspiro pelo esforço desprendido. A extremidade daquele novo ser começava a dilatar-se. O que existia ali dentro precisava sair, já não cabia naquele espaço.
Emergia-se então a primeira pétala, que atraia outras ao seu lado. Elas rodavam fazendo um círculo. Em pouco tempo havia várias flores em volta da menina. E todas girando... num carrossel de encantos. A velocidade aumentava... quem olhasse de longe iria enxergar apenas um círculo, de lírios cor-de-rosa. As flores se aproximaram da menina e formaram uma rede. A pequena foi sugada pra dentro da pedra.
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Lá fora tudo continuava do mesmo jeito. Ninguém viu nada e nem poderia ver, ou quase ninguém poderia. As ondas batiam na areia e a pedra, aquela mais alta, estava intacta. A menina não estava mais lá.

Do outro lado, um menino observava tudo. Escondido entre as pedras ele estava com os olhos arregalados. Ainda não conseguia piscar...

3 comentários:

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  2. Olá,

    muito obrigada pelos elogios...
    cada texto meu é uma viagem interna aos meus sentimentos. me conheço mais através das palavras. elas parecem embaralhadas dentro de mim e basta eu escrevê-las para que elas possam se dissolver em sentidos imprevísiveis...

    Abraços, Borboleta

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