quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cristina Magalhães de hoje, de ontem, de amanhã

nos seus 50 e tantos anos já não dava conta de falar do passado sem misturar ao que sentia agora e ao que estava por vir. professora de História não era um lugar estacionado lá no ontem. ela reconhecia que os acontecimentos não eram tão datados assim e os revivia ali, na minha frente, a própria história. teve uma noite que ela chorou ao contar o caso de Tereza. ela acabava se perdendo nas repetições, talvez fosse uma forma dela ter certeza de que algo foi dito. provavelmente nos seus 50 e tantos anos ela aprendera que o simples fato de falar não implicava na comunicação. então ela repetia, mais pra si mesma, pra se dar conta que a História ainda acontecia, pra poder colocar toda a sua alma la atrás. assim ela disparava, não parava de nos contar, de nos relatar, não respirava, se afogava, não respondia, viajava. parecia alguém que tinha vivido bem que mais que seus 50 e tantos anos. ela vivera todas aquelas épocas que nos ensinava em sala de aula. até mesmo porque viver não está limitado a presença física, no caso dela eu diria que pra cada ano havia outros tantos incluídos. ela tem os moldes de senhora, cabelo curto, preso no contorno do rosto, pele limpa, roupas largas, sandálias que a aproximam do chão, e muita história. ela era a personificação da História, da parte maiúscula. na posição de professora ela não se contentava em nos oferecer os conteúdos escritos por outros, ela os embolava nas próprias linhas de tal forma que era praticamente impossível separá-la do passado. era uma espécie de diário. era uma caminhada de tempos diversos em tempo real. ela se pintava pra gente, desabafava a incapacidade de colorir apenas uma estrela. esta senhora se acumulava em dores, em frustrações. a mim ela mostrava o quanto era óbvia a limitação humana ao acompanhar os segundos que corriam com os ponteiros do relógio. ela era uma obra viva, daquelas que eu guardaria no meu museu de tantas recordações.

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