segunda-feira, 19 de maio de 2008

com as próprias mãos

Quem? Chris, 32 anos. Da Bélgica. Formado em Contabilidade.

Seus cílios me fazem acreditar que ainda é um garoto. Quando ele brinca me lembra um menino atrevido... Mas já é um homem, um homem de histórias e sensações. “Gosto de sentir meus nervos passando na pele.” Ele diz isso batendo a palma das mãos no braço.

A cara de menino é apenas aparência quando se trata de trabalho. Aos 16 anos ele saiu de casa. Chris já trabalhou numa fazenda com plantação de produtos biológicos, foi atendente numa loja de impressão, foi garçom, reparador de tetos, jardineiro, carpinteiro, eletricista, vendedor de livros e de cds educativos, segurança de uma funerária e técnico de futebol. Ele aprendeu tudo na escola da vida. Cresceu numa fazenda, onde tinha o costume de fazer as coisas com as próprias mãos. Mãos que todos nós temos, mas que já não sabemos usar...

A África é vermelha, é cultura, é a cor do sol. Simplesmente espontânea. Esta é a definição que só um homem chamado por pai numa terra de orfãos daria a este lugar. Ele foi para a Angola, província de Cabinda, em fevereiro de 2007. Trabalhou como voluntário no projeto ‘Escola Vocacional’, dando cursos técnicos de ecologia, inglês, pastelaria, hotelaria, padaria e turismo. Ao todo ele tinha 59 alunos. Também era responsável pela contabilidade e compras da escola, era o braço direito da diretora.

Chris é um homem pra você conversar durante horas... pra ouvir mais do que falar. Perguntei a ele como seriam os angolanos: “São pessoas teimosas. São abertas.” Eu questionei como poderiam ser teimosas e abertas ao mesmo tempo e ele respondeu: “É um paradoxo. É África. Paradoxo da África. Eles não vão acreditar que foi Bush quem articulou o ataque às torres gêmeas. Têm preconceitos que são falsos. Acreditam em Deus e feitiçaria ao mesmo tempo.”

Uma característica marcante em Angola é o machismo. O voluntário conta que os homens têm orgulho de terem mais de uma mulher e de terem vários filhos. Outro ponto que ele observou foi que alguns angolanos usam tênis de marca como Adidas, com a ilusão de desenvolvimento. “Não é porque você tem roupas novas e legais que você está desenvolvido internamente. Eles saíram de uma guerra e tentam recuperar o tempo perdido. Eles nunca falam deste assunto, são muito orgulhosos. Tentam reduzir esse buraco.”, explica. Nos olhos do povo angolano Chris vê sentimentos, mas sem espaço para a dor. “Eles sofreram muito antes, então o tempo atual não é mais para o sofrimento e sim para todos os outros sentimentos possíveis.”

Da África ficaram as sensações... “De lá eu trouxe um sorriso, um sorriso que ficou aqui”. Ele termina a frase com esse mesmo sorriso escancarado nos lábios... E continua: “Aprendi a reduzir minha velocidade de trabalho pra ficar mais próximo das pessoas. Gosto de perfeição e faço as coisas muito rápido. Não tinha paciência. Na Angola as pessoas não têm conhecimento, todos os passos devem ser devagar. Sempre vivi a 200km por hora. Quando você reduz a vida parece mais simples. Você pode provar, gostar.” Com toda a sensibilidade necessária ele explica que na Angola você enxerga a simplicidade de viver: “Você começa a gostar de coisas que você esqueceu. O vento que está chegando ao seu rosto. Você fecha os olhos numa cadeira e adora esse momento. Coisas que são simples e que nossos olhos não tem mais o costume de apreciar. Por isso que África é fantástica. Tem o poder de fazer esquecer a vida e de refazer a nossa vida de homem, com mais relação com a natureza.”

Suas vontades são: viajar, conhecer, vencer desafios. Ele não tem sonhos, mas sentimentos: “O nosso planeta é tão bonito que nosso objetivo não pode ser ficar num lugar apenas. Somos humanos e temos que saber onde vivemos. Quero ultrapassar as minhas limitações em todas as direções. Ir para um país que não conheço, sem ponto pra me amarrar, onde eu possa improvisar.” Agora ele segue rumo a Benguela, na Angola, onde será diretor de uma escola. Daqui um ano vale a pena perguntar onde ele está... porque é impossível ter certeza quanto aos seus passos...

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