quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

o por quê de um sobrenome

ela tinha nome, tinha até sobrenome. mas só usava o nome. o sobrenome tinha lá a sua razão de ser. fazia com que ela não fosse mais uma, fazia dela uma entre tantas umas. é certo que cada uma tem a sua cor. um dia, num fim de tarde de outono, eu e minha amiga estávamos sentadas na escada que encostava no céu. neste fim de tarde, que nos fazia sentir mais próximas das estrelas, ela me disse que erámos todos iguais. que apesar das diferentes tonalidades de pele, dos formatos diversos de um contorno, das tantas possibilidades de reação, erámos todos um. mesmas necessidades, mesmos vales, mesmos picos. alguns vales com mais petálas e outros picos com menos ar. mas as mesmas montanhas. me contou que era pura vaidade tentarmos ser um e não todos. eu sei que não há chance da minha mãe me confundir com outras mechas de cabelos semelhantes aos meus, mas hoje eu entendo o que a minha amiga quis dizer. ela falava dessa ponte que a gente cria, dessa distância das coisas tão próximas. os outros. do meu lado, do outro lado do oceano, do lado de lá da rua: há eu e há você. somos nós. a mesma matéria, a mesma abstração. não aceitando esta condição fomos criando novos cortes de panos, novos embrulhos para os lábios, novas maneiras de se ver, mesmas formas de sermos vistos. uma continuação do que fomos, dos nossos pais, avós, bisavós. é urgente reconhecermos a nossa semelhança e esticarmos o tapete verde de grama para deitarmos juntos nas noites de espera do dia seguinte. por que eu sei que ele vai chegar!

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