quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Não sei se ele existe

Um homem grande, de altura inferior a minha. Capaz de achar fantástico os pés descalços pisando na areia. Um homem sem compromissos com o banco. Ocupado com os outros, com a falta dos outros. Que queira viajar bem profundamente nas almas humanas. O destino será escolhido pela direção do vento no momento do pôr-do-sol. Ele não usará relógio, nem irá ao salão de beleza. Este homem vai notar quando as folhas das árvores mudarem de cor. Vai saber de cada estação. Notará o caminho das rugas que surgirão no meu rosto e achará um encanto toda a transformação. Ele vai me achar grande também e não irá me diminuir por isso. Irá me ajudar a colocar mais pedrinhas na escada. Vai me dar as mãos e me levará a lugares comuns, mas nossos. Vamos fazer coisas cotidianas parecerem novas. Juntos vamos mergulhar na transparência. Ele vai ser eu e eu serei ele. Vamos dar sentidos reais às palavras cumplicidade e intimidade. Nós vamos colocar flores debaixo das pegadas. Viajaremos muito, mesmo deitados na mesma cama por dias a fio. Ele vai me amar pra sempre. Vai me fazer voltar a acreditar que sou uma só e por isso única. Vou querer ser eu mesma em excesso, porque sei que ele vai gostar. Dormiremos com as peles grudadas, nem que seja pela ponta do pé. Nós não teremos futuro, nem móveis. Seremos alma e corpo. Livres de qualquer materialidade. Ele terá sonhos. Eu terei sonhos. E no meio dos sonhos eu e ele. Vou beijá-lo antes dele escovar os dentes. Sentir o gosto misturado no tempo. Vou desaparecer dentro dele após todo o suor de um verão. Irei saber o cheiro, sem frascos cheios de mentira. Eu vou pintá-lo em várias molduras. Uma arte em tamanho real. Bem grande.

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