segunda-feira, 2 de junho de 2008

noite clara

Já era quase noite. Lá o céu demorava a brilhar. Dizem que alguém roubou a metade da noite. Clarice estava sentada na cama em frente ao seu computador. As luzes já estavam apagadas. Ela havia deixado a porta aberta, porque sabia que ele viria. Era só o sol se transformar em lua pro menino subir até seu quarto.
Primeiro o barulho da porta se abrindo, depois os passos na escada. Ele chegando devagar pra ver se ela ainda estava acordada.
- Clarice?
- Oi.
- Posso entrar?
- Pode…
O menino deixou os chinelos no chão e deitou na cama, bem no colo de Clarice. Ela ficava dura, sem reação. É que quartos para Clarice sempre tiveram chaves. Não era qualquer pessoa que entrava. Por isso já não se tratava mais de um quarto…
- Faz carinho? – pediu o menino.
- Por que? - Clarice não sabia fazer isso após um pedido. Pra ela isso não era algo que se pedisse.
Na ânsia de atravessar a pele as perguntas dispararam. Clarice gostava de conhecer os porquês de cada um. Ele já se sentia a vontade. Seu rosto não ficava vermelho, suas mãos não suavam e ele não ficava desconcertado com as perguntas. Parecia que nem estava ali de verdade. E a menina perguntava tanto…
Clarice procurava príncipes em corpos humanos. A magia já começava com o encontro dos dedos, amarrando as mãos. Detalhes que os homens já não percebiam e ela vivia quase que solitariamente.
- Vamos ver um filme? – perguntou o menino.
Clarice deu apenas um sorriso sem som. Ela não queria ver um filme e fazer tudo aquilo que acontece quando um casal está num cinema. Antes ela precisava olhar pra ele, saber da história dele. Ele nem tanto… talvez ele apenas quisesse viver aquele instante, sem deitar na grama e fazer planos para os próximos dias.
- Boa noite Clarice. Até amanhã. – assim o menino saiu… sem insistir, sem querer.

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